Herói, por Ricardo Salles

Não é uma categoria que tenha existência independente: ele tem que ser visto, sentido, percebido como tal e, daí, a sua imagem de perfeição precisar ser cuidadosamente mantida. 

Imagem Unicamp

Herói

por Ricardo Salles

Advogado no Rio de Janeiro

É propriamente um mortal divinizado, seja por identificação do mitificado com deus, seja pelo fato de o herói se proclamar emissário divino. Às vezes, as duas coisas. Não é uma categoria que tenha existência independente: ele tem que ser visto, sentido, percebido como tal e, daí, a sua imagem de perfeição precisar ser cuidadosamente mantida. 

Assim, o herói-mito tem uma biografia fabricada para servir de paradigma, muito menos pelos seus feitos exemplares do que por aquilo que interessa aos divulgadores de supostas ações dele. Sua corporatura é sempre de um servidor do Bem, desinteressadamente pelo Bem, ainda que pecando na consecução de seus fins maiores. Note-se que a raiz do termo grego, héros, origem ao nosso herói, é a mesma de Héra, a irmã e mulher de Zeus, protetora das mulheres casadas: ser-, radical indo-europeu que também se realizou em latim no verbo servare, que quer dizer cuidar, assegurar a integridade, a salvação.

Um dos mitos mais recorrentes e próximos de nós é o do salvador da pátria, muito bem ilustrado na História de demagogos em países americanos e do Caribe – na verdade, tiranos sanguinários e usurpadores a serviço de plutocratas e parasitas.

Mas há outros.

Nos interessantes tempos atuais, tem sido ressuscitado com rara maestria, o mito do Juiz-herói. Trata-se de um paladino do Bem, especialmente perante os olhos dos que, com pouco ou nenhum conhecimento jurídico, informados apenas por notícias que a imprensa não especializada transmite e as redes sociais disseminam. Geralmente, se baseiam em fatos, mas são difundidas com favoritismo e o cuidado de não causar qualquer dano à imagem da figura mítica do Juiz-herói. De maneira eficaz, procuram engrandecer sua conduta e glorificar sua pessoa, exagerando, não poucas vezes, suas virtudes ou aquilo que é apresentado como seus atributos de equilíbrio, sensatez e tino. É um outro tipo de demagogo, assim entendida a palavra como condutor das gentes (formada dos elementos gregos, demos, povo, e ágo, levar). A apreciação da obra dessa categoria de demagogo se mede mais pelo efeito de sua saga, entre o grandioso e o folhetinesco, do que pela justeza de suas decisões. São antes justiceiros que propriamente juízes.

O problema do herói-mito é que ele é sempre um ser humano, apesar de toda a sua divinização. Por isso mesmo, ele, tanto quanto os deuses mitológicos, feitos à imagem e semelhança dos homens, está sujeito às paixões humanas, pratica a virtude e incorre em pecados, sua conduta é suscetível de grande valorização e, também, de reprovação máxima, conforme os seus atos.

O mito do herói, demonstram os estudos e os repertórios literários, passa por três fases, a epifania ou seu surgimento, a apoteose ou o clímax de sua imagem e a decadência ou ruína.

O Juiz-herói surge como antítese do que se tem como erro, vício disseminado e prejudicial à comunidade; é, na qualidade de demiurgo do Bem, a personificação da incorruptibilidade (no sentido amplo) e necessariamente tem que ser e parecer insuscetível de manipulação, muito menos de cooptação. Venalidade, então, nem pensar. Daí, às vezes, na apoteose de sua trajetória, a autoimagem de perfeição levar o herói-mito à embriagues pelo sentimento da própria grandeza, num devaneio de onipotência que tende a eliminar a autocrítica e ignorar as limitações. É aí que costuma começar a decadência do mito em direção à ruína, ou seja, no momento em que sua imagem – independentemente de seus feitos reais – passa a desafiar os poderosos que o fabricaram. O mito, o herói, não entende que ele é criatura e, não, criador, mas, se entendesse, não seria mito, muito menos herói. 

A eventual revelação de comportamento incompatível com a imagem divinizada, perfeita, do mito, no caso do Juiz-herói, acelera a queda e, com o tempo, seus entusiastas se voltam contra ele com frustração e ódio. O que era exemplo do bem, modelo do ótimo, se transforma em paradigma do mal, retrato do péssimo. 

Em se tratando de falta de imparcialidade no ato de julgar, pecado maior de um magistrado, o homem comum poderá se perguntar como se sentiria se fosse ele o prejudicado pela parcialidade. Nessa hipótese não importa a causa: fosse tudo fruto de venalidade, vaidade ferida, ressentimento, inveja, ambição, expectativa de recompensa ou qualquer outra impudicícia, o Juiz-herói descoberto parcial só se mantém de pé e seguro por obra do poder que lhe é superior e com interesse claro na falta de imparcialidade. Aliás, para os artífices do Juiz-herói, a judicatura não é um mister republicano, mas um ofício para bem responder a seu comando.

Se os homens precisam de heróis para neles projetarem seus desejos de perfeição e sua fantasia de onipotência, se poderia dizer como o aprendiz Andrea, na Vida de Galileu, de Brecht: “infeliz do povo que não tem heróis”. Mas o verdadeiro ensinamento veio com a resposta que lhe deu seu mestre, Galileu: “não. Infeliz do povo que precisa de heróis”.

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