Faz uma ano meu sobrinho de 26 anos foi morto em assalto no Méier, RJ

TRIBUTO A SANDRO R. D. DE OLIVEIRA

Por Odonir Oliveira

Era um garotinho gordinho, de olhos acanhados e voz assustada, quase de língua presa.

Respirava ofegante, adenoides, certa ansiedade de afeto e atenção na opacidade da convivência. Cirurgia. Correção.

Carência de figuras emblematicamente masculinas.

Adoração por figuras emblematicamente masculinas.

Numa trincheira compartilhada por primos, avós, tias e amigos. Da vontade de crescer e voar, nasceu o culto ao corpo e ao espírito, tudo junto, como se tempo pouco ainda lhe restasse para unir as partes.

De gordinho que era passou a se exercitar, à academia, à dieta, à nutricionista e ao AMOR.

Conheceu seu único AMOR, aqui a mim revelado no café, na conversa da cozinha, dois meses antes. A primeira amada, a perda da amada. O conselho de quantas e quantas amadas ainda haveria de tê-las ali naquela tela de celular também. Uma dor no tom da voz, na comparação com o outro por quem fora substituído, a falta de entendimento, a dificuldade de aceitar os porquês. A vontade de sorrir de novo.

O espiritual, ora era tornado tão robusto quanto o corpo, estava repleto de todos os fundamentos kardecistas possíveis. “Tia, perdi o livro que eu estava lendo; não estou achando; deixa tia, vai ser útil pra quem o achar, deixa”.                                                                                                  

Trabalhos em grupos espíritas de solidariedade, compaixão quase budista.

Sem álcool, sem fumo, sem drogas. Agora sem glúten, sem açúcar, com proteínas  e aminoácidos regrados pela nutricionista.

Vida nova. 26 anos.

A camiseta de Super Homem, numa alegoria do filho que rigorosamente se tornava agora , ao contrário do que a natureza previa, pai do pai. Um acordo de cooperação naquele momento imprescindível para tornar o pai pai de verdade.

E assim, companheiros, parceiros, brothers estavam, pelas primeiras vezes, fazendo caminhadas juntos, debochando um do outro juntos, rivalizando competências físicas; o pai, que sempre jogara futebol, saboreara praia etc. etc. agora … tudo compartilhado na salvação dos corpos de ambos, nas almas de ambos. A viagem ao exterior juntos, os jogos do Botafogo juntos, os shows de rock juntos. Uma revolução nos espelhos virados ao contrário. Ou não.

Fazendo planos: “voltar aqui; comprar um terreno aqui, construir uma casa aqui; viajar com meu pai; passar no concurso; pegar meu diploma que ainda não liberaram; ir a Londres com meu pai, ajudar meu pai a ficar inteiro a se manter inteiro; trazer minha mãe aqui…” 26 anos.

Carnaval aqui na praça, seguindo juntos com o bloco Recordar e Viver, a fonte, tudo, tudo fotografado em selfies, eternizado no Face, no Instagram, tudo certificado, comentado, compartilhado. 26 anos.

As fotos do churrasco enviadas pra tia com carinho depois.

O assalto.

A  correntinha.

O celular.

O tiro.

“Mas eu não reagi, eu não reagi”, nos braços do anjo da professora que o acudira ao sair para ir trabalhar.

A  morte.

Não deu tempo de fazer o que pretendera tanto.

Ou será que deu?

O jardim que fiz pra Sandro está mais no meu coração mais do que nas flores que enfeitam a placa com seu nome hoje.

Aquele garotinho gordinho !!!

 

https://www.youtube.com/watch?v=q6fokAoaBW4

7 Comentários

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Anna Dutra

- 2015-05-11 19:45:40

Uma vez mais ...

Querida, uma vez mais, o que o Amor uniu nada separa.

Que teu afeto e tua saudade sejam vibração de amor e de gratidão pelo aprendizado possível em tão suave companhia.

 

Maria Luisa

- 2015-05-11 18:57:21

As estrelas de nossa vida

Que homenagem linda, Odonir. Quando termina-se a leitura fica-se sem palvaras perante a tristeza e dor tantos sua, como de sua familia. A unica coisa a dizer é que a vida, quando vivida com amor e verdade nunca é vã. 

Nilva de Souza

- 2015-05-11 18:53:23

Meus sentimentos, Odonir!

Meus sentimentos, Odonir!

Ivan de Union

- 2015-05-11 18:01:09

Odonir, seu texto eh

Odonir, seu texto eh lindissimo.  Meus sinceros sentimentos.

Odonir Oliveira

- 2015-05-11 14:25:23

Obrigada

A cada palavra falada ou escrita, o sentimento de compreensão, de uma compreensão oblíqua repousa em nós.

Obrigada.

Roberto Paulo Belarmino

- 2015-05-11 11:59:32

Tributo a Sandro.

.

"Não importa a reação ou não.

O que eu quero ou queria,  era ter a sua vida, viver como você, ser você.

Não pude ser e sei que jamais seria, se tivesse podido.

Vejo a sua aparência, seu corpo, seus modos, sua vida.

Imagino seus entes queridos, seus amigos, sua família.

Penso que poderia ser eu, mas sei que nem em sonhos seria.

Invejo você, invejo seus amigos, invejo sua vida. 

Não preciso de sua correntinha, de seu celular, de nenhum bem seu.

Eu quero que alguém como você, deixe de viver. 

Qualquer um, mas hoje tem que ser você. 

Não importa a sua reação ou não.

Eu os invejo, e não suporto vê-los assim.

E eu, ser o que sou. Sei que nunca serei vocês.

Eu os invejo, e por isso, sempre apertarei o gatilho.

Não importa a sua reação. Importa para mim, a sua existência."

- Odonir, sinto muito por sua perda. Apesar do tempo: meus pêsames. RBelarmino.

maria rodrigues

- 2015-05-11 11:53:23

A violência prossegue no

A violência prossegue no Brasil como se estívessemos numa constante guerra. Não vemos melhora em lugar nenhum. Pelo contrário. Até as cidades do interior dos estados já tem estatística horríveis de assaltos a bancos, aos Correios, e llugares onde as pessoas ainda se sentavam nas calaçadas estão hoje vivendo o mesmo drama das capitais.

Semana passada foi apresentado um vídeo horroroso, de um senhor chegando a um ponto de ônibus no Rio - em Laranjeiras, que é bairro nobre -, quando um moleque, bandido sanguinário, cruel, dele se aproxima pra roubar sua pasta ou outro objeto, e logo lhe desfecha facadas, jogando o senhor ao chão. Na frente de todos uma pessoa de bem é esfaqueada e morta. Hoje escutei pela rádio outro caso idêntico, também no Rio, com outra vítima de facadas, do mesmo jeito que aquela. 

As vítimas de balas perdidas se multiplicam, porque as polícias são mesmo despreparadas para lidarem com o povo. Chega no lugar pra prender badidos, porém com armas em punho no sentido de matar, de atirar pra todos os lados. Morre um menino na frente da mãe, como ocorreu há pouco, mãe que viu ter sido um policial a matar seu filho, além de outras testemunhas, e a criança será apenas mais uma numa estatística difícil de se compreender, de se aceitar.

Aí, temos um Congresso repleto de parlamentares a discursarem diarimaente movidos pelo ódio e seguindo uma nota só. Os problemas mais graves por que passa o País pouco são discutidos como o dessa violência. Qual a necessidade urgente de se votar a Pec da bengala senão para tentar atingir Dilma e seu governo? São dias de muito gasto com luz, papel e tudo mais para levar adiante um progeto besta como esse. 

Os parlamentares oposicionistas e da situação também não estão trabalhando em prol da sociedade, mas discutindo problemas que só dizem respeito a eles. No meio pode surgir um ou outro progeto importante, mas a maior parte não interessa à sociedade. Por exemplo as cosequências dessa operação lava Jato, que ão sabemos a quem interessa, porque a queda nas indústrias só está arrastando empregados para o desemprego em massa. Isto é um absurdo, que eles deveriam ver, sentir e lutar para dar um basta. Tanta gente desempregada, sem expectativas, é também uma violência grande para um país que tem tudo pra continuar em franco progresso. Estamos, então, descendo a ladeira, na contramão da história, e esses imbecis não querem enxergar a realidade, por terem como princípio sangrar o governo, e somente isso basta para eles. O Brasil que se lasque.

 

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