Idosos, elefantes e previdência, por Lúcio Verçoza

Há pouco, havia beijado as filhas, netas e o pequenino bisneto. A família reunida. Era essa imagem que ela queria levar nas retinas cobertas de catarata.

Idosos, elefantes e previdência[1]

por Lúcio Verçoza

No caminho, uma parada para tomar sorvete. Estava com a melhor roupa, o vestido mais bonito. Há pouco, havia beijado as filhas, netas e o pequenino bisneto. A família reunida. Era essa imagem que ela queria levar nas retinas cobertas de catarata.

Depois do sorvete, o carro seguiu. Passou pela Praça dos Martírios. Lembrou de Orestes. As ruas mudaram muito, mas o banco ainda estava lá. O mesmo banco do seu primeiro beijo. O carro continuou, passou pela praia. A imagem borrada dos primeiros banhos de mar. Sua mãe cantando a música da Estrela d’Alva. As estrelas do mar se misturando com a estrela do céu. A Estrela d’Alva como uma estrela do mar que caiu do céu.

A Estrela d’Alva

            No céu Desponta

As folhas de Fícus Benjamin. Augusta e ela manuseado as folhas como se fossem notas de cruzado. Comprando bonecas imaginárias. Os meninos chutando bola na rua ainda de barro. Milagrosamente, a árvore ainda estava lá, com as raízes debaixo do asfalto.

O primeiro dia de aula. O frio na barriga. O medo de quem ainda não é conhecido. O muro de contar segredos foi derrubado. A escola virou um estacionamento. A tabuada e o apito do intervalo. A biblioteca e o poema Tabacaria, de Pessoa. Frascos de formol que guardavam cobras, escorpiões e fetos. Apostar corrida girando com as mãos pneus pintados de verde e vermelho.

A roda do carro parou. Chegou ao destino. Foi mais rápido do que ela imaginava. Por um momento sentiu vontade de voltar. Mas lembrou dos elefantes, havia escutado que os elefantes sabiam a hora de partir: na velhice eles abandonam a manada e marcham sozinhos para encerrar o ciclo. Essa imagem lhe deu forças. – Será uma morte digna. Repetia essa frase, repetia para ter força de descer do carro. Pensava em sua aposentadoria minúscula, que já não lhe supria as mínimas despesas. Depois de tantos anos de trabalho, se sentir um fardo. – Será uma morte digna.

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Cruzou a porta da recepção. Entregou os documentos. Deixou a carta que deveria ser entregue à família. Antes, beijou o envelope. Pediu um espelho para retocar o batom. Assinou os papéis do contrato e entrou. Primeiro agradeceu à secretária pela atenção, depois entrou.

Dentro da sala encontrou outros idosos. Eles estavam sentados, cada um em sua poltrona, aguardando a hora do procedimento. Todos com sua melhor roupa. Sentou na poltrona pensando na família e nos elefantes. Ninguém disse nada. A máscara foi colocada em seu rosto. Nesse instante sentiu que estava muito perto do desconhecido. Sentiu um frio na barriga, mais frio do que o do primeiro dia de aula. As portas foram fechadas. A imagem da família reunida, era isso que ela buscava fixar nas retinas. O barulho da porta se fechando era mais forte. O som do cianeto de hidrogênio passando pelos tubos e se aproximando da máscara. A imagem do elefante dirigindo-se ao cemitério. A mão apertada pelo senhor da poltrona ao lado. Os dois se olhando por um segundo. Eles não querem morrer. – Seus olhos não são de elefantes. Nossos olhos não são de elefantes.

[1] Texto escrito a partir do projeto de reforma da previdência do governo Bolsonaro e das notícias sobre os aposentados no Chile. https://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Seguridade/Chile-capitalizacao-da-Previdencia-faz-idosos-morrerem-trabalhando-e-suicidio-bater-recorde/63/43868

Lúcio Verçoza – Sociólogo, professor universitário e autor do livro “Os homens-cangurus dos canaviais alagoanos: um estudo sobre trabalho e saúde” (Edufal-Fapesp, 2018).

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5 comentários

  1. e também de um filme lançado em 1973, Soylent Green, traduzido no Brasil como “No Mundo de 2020”, e em Portugal como “À Beira do Fim”. Acertaram a época?

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