3 de julho de 2026

Pau D’Arco revela o desenvolvimento do crime, por João Claudio Tupinambá Arroyo

O maior mérito da obra de Ana Aranha e sua equipe está em deslocar o olhar do crime em si para as condições que o torna possível.
Pau D'Arco - Divulgação

Documentário “Pau D’Arco” revela chacina de 10 trabalhadores rurais no Pará em 2017 como sintoma de conflito fundiário.
Filme destaca articulação entre concentração de terra, violência institucional e lentidão da Justiça no caso.
Narrativa acompanha vítimas e denuncia modelo de desenvolvimento que legitima expropriação e impunidade no campo.

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Pau D’Arco revela o desenvolvimento do crime

por João Claudio Tupinambá Arroyo

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Em Pau D’Arco, imperdível documentário dirigido por Ana Aranha e disponível na Netflix, a chacina de dez trabalhadores rurais sem-terra no Pará, em 2017, deixa de ser tratada como episódio isolado de violência policial para aparecer como sintoma de uma engrenagem maior: a articulação entre concentração fundiária, expansão predatória do território, criminalização da luta pela terra e lentidão seletiva da Justiça. O filme acompanha sobreviventes, familiares e defensores de direitos humanos em uma narrativa surpreendente que combina investigação jornalística, memória coletiva e denúncia política.

Mas a escolha do título desta crônica me deixou inseguro. Seria melhor “o crime do desenvolvimento”? Mas quem define o que é crime ou o que é desenvolvimento? Nestes últimos 526 anos, temos visto invasores violentos acusando os invadidos de invasores, os agredidos de agressores, os roubados de ladrões, trabalhadores de vagabundos e famintos de acumuladores. Uma série de inversões, inclusive morais, inclusive anti cristãs, para justificar um modelo de desenvolvimento econômico baseado na acumulação desmedida de renda, riqueza e poder.

O maior mérito da obra de Ana Aranha e sua equipe está em deslocar o olhar do crime em si para as condições que o torna possível. A violência no campo não surge como desvio moral de alguns agentes, mas como consequência de um modelo de desenvolvimento que historicamente reduz terra, floresta e gente (para trabalhar) a recursos produtivos a serem apropriados, inclusive sob violência física e institucional, para gerarem lucro desmedido.

Nesse enquadramento, a Amazônia aparece menos como paisagem e mais como fronteira de disputa: de um lado, populações originárias, os verdadeiramente invadidos e trabalhadores empobrecidos que reivindicam sobrevivência, moradia e reforma agrária; de outro, interesses econômicos sustentados de fora, por gente que nem mora aqui mas controla o poder local, submetendo empresários rurais que por ignorância de outros modelos de desenvolvimento mais adequados ao próprio território, assumem o papel de meros operadores do terror para saciar um modelo de desenvolvimento insustentável e imoral, pagando todos os riscos ao recorrerem ao vale tudo da corrupção de agentes públicos, inclusive do judiciário, da intimidação, do controle armado dos espaços sociais e de assassinatos.

Ao retratar a busca por responsabilização, Pau D’Arco evidencia que o crime não termina no momento dos disparos. Ele continua nas versões oficiais “apressadas”, nas tentativas de acobertamento, nas ameaças a testemunhas e na demora processual que converte a passagem do tempo em aliada da impunidade. A “Justiça”, na verdade o judiciário, nesse sentido, é apresentado como campo de disputa: pode ser instrumento de direito e reparação, mas também pode funcionar como mecanismo de esfriamento, adiamento e esquecimento da falta de garantia para o exercício de direitos, o que vai muito além do judiciário para daí alcançar o Modelo de Desenvolvimento Econômico. Aí está a Justiça, ou não. Aí está a Democracia, ou não. Não há Justiça nem Democracia onde a desigualdade, de acesso ao conhecimento e às condições de vida digna, é a base do Modelo.

A força do documentário nasce de sua recusa em reduzir as vítimas a números. Ao acompanhar trajetórias individuais, medos cotidianos e estratégias de resistência, o filme devolve densidade humana a uma história frequentemente tratada pelas instituições como fato isolado, ocorrência ou conflito.

A câmera não busca neutralidade artificial: assume uma posição ética diante da desigualdade extrema entre os atores envolvidos. Essa escolha pode ser vista por alguns como militante, mas é justamente ela que permite ao filme enfrentar uma falsa equivalência entre vítimas desprotegidas e estruturas de poder consolidadas, financiada com recursos privados e públicos, a serviço de um Modelo de Desenvolvimento Econômico.

Como crítica ao modelo de desenvolvimento dominante, Pau D’Arco é contundente porque mostra que progresso, quando medido apenas pela expansão da propriedade, da produção e da infraestrutura, pode ocultar formas brutais de expropriação. O documentário sugere que a modernização econômica, sem democratização da terra e sem proteção efetiva aos vulneráveis, convive perfeitamente com práticas arcaicas: pistolagem, coerção, silenciamento e naturalização da morte de trabalhadores rurais e seus apoiadores.

Assim, Pau D’Arco não é apenas um documentário sobre uma chacina; é uma acusação contra a lógica que transforma “conflito agrário” em caso de polícia e “justiça tardia” em forma de injustiça. Sua relevância está em fazer da memória uma ferramenta política: lembrar para impedir que a violência seja normalizada, narrar para romper o acobertamento e insistir para que “desenvolvimento” não seja confundido com licença para matar.

Sem acesso ao Conhecimento, inclusive do que acontece aqui e agora, não há memória possível que um povo, uma nação, possa ter chance para poder escolher seu destino entre as oportunidades possíveis de construção. Cada decisão política é uma escolha de destino para esta e as próximas gerações. Quando a escolha é pelo rebaixamento da convivência, entre nós, ao mais bruto e violento que os seres humanos podem ser, todos e todas estaremos derrotados.

João Claudio Tupinambá Arroyo, doutor em Desenvolvimento Urbano e Meio Ambiente e mestre em Economia pela Universidade da Amazônia, onde está pró-reitor de Pesquisa e Extensão. Pesquisador e militante da Economia Solidária desde 1999, 11 livros publicados, todos acessíveis como ebook. Pedidos para [email protected]. Siga @joao_arroyo*

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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