Limitações, Parte 2
por Rui Daher
Lembram das dificuldades do casal Vitório e Mariazinha por motivos etílicos do marido, pessoa de bom gosto? Claro que sim. É comum em casais jovens ou mais longevos.
E lá se foram! Local? Aonde sempre iam, Santos, cidade do litoral paulista.
Nada de hotéis, pensões, casas de amigos. A hospedagem era regida pelos cânones da época. Cabines improvisadas em que poderiam se desnudar até o traje de banho ou, todas ocupadas, o próprio veículo, movimentos contorcionistas e desconfortáveis.
Valiam os sacrifícios. Banhar-se no mar da Praia do Gonzaga ou de José Menino, furar ondas de 15 centímetros, chupar um picolé de limão, coco ou chocolate da Kibon. No sol forte, torrar-se à vermelhidão. Inevitável:
– Quem mandou não passar o protetor solar? Estou com pena. Vou buscar no quiosque duas caipirinhas para nós.
Quando voltou com os tesouros, Mariazinha trazia embrulhada uma garrafa.
– O que tem no pacote?
– Surpresa!
Fosse o que fosse, a caipirinha já era bênção.
Na volta, antes de pegar a estrada, Vitório, delicadamente, pediu a Mariazinha um caminho diferente. Para sua surpresa, ela topou.
– Qual?
– Quero passar na frente da Vila Belmiro, estádio Urbano Caldeira, sabes que no futebol sou Peixe.
– Tudo bem, amor, vá!
Uai, o que estava acontecendo? Teria sido a caipirinha na praia? O beijo inesperado à beira-mar? A caminhada de mãos dadas pela orla? Os navios aguardando na fila do porto para atracarem?
Bebeu pouco, gostaria mais, mas iria dirigir e os preços à beira-mar são extorsivos.
Na volta, subida da Serra do Mar, o casal costumava parar o fusca 97 na biquinha da Anchieta, subida da Baixada Santista para o rico planalto de São Paulo.
Vitório tomava uns goles de água fresca, pensando em outros sabores líquidos e blasfemando contra a Lei Seca. Aproveitava a ajuda de Mariazinha para encher dois garrafões, daqueles de plástico, para levar água pura para casa (hora em que lembrava de uma “purinha” e voltava a blasfemar).
Como, obrigatoriamente, passaria pela região do ABCD paulista (para leitores de outras plagas, as cidades de Santo André, São Bernardo do Campo, São Caetano e Diadema), chegavam a Vitório pensamentos perfumados, comum a todos nós, homens e mulheres, que se apaixonam por indeterminados (até feiura vale) atores e atrizes do cinema, teatro, TV, circo, ou mesmo imaginários personagens de livros.
Revelo a paixão de Vitório: contava ali encontrar a atriz Lucélia Santos e seu estrabismo. Tudo o que fosse referente à “Escrava Isaura”, ele acompanhara. Novelas, peças, filmes, quadrinhos, entrevistas.
Não galhofo. Dizem que, certo dia, consultou amigo oftalmologista para saber se era possível uma pessoa não estrábica tornar-se estrábica, com cirurgia ou exercícios. Apolítico e apartidário, até de esquerda e petista se tornou.
Na tarde maravilhosa, apenas uma coisa o intrigava. O pacote que Mariazinha não largava. Como trouxe do quiosque, pensava, será que ela resolveu me presentear com uma garrafa de 51, um conhaque, Vodca Smirnoff, qualquer gim ou rum? Uma hora saberei.
Chegam em casa.
– Amor, obrigado pelo passeio. Foi um dia delicioso, como espero seja o que está nesse pacote. Isso é procê, querido.
Sorridente e ansioso, ele abre. Uma garrafa de Fernet, a única bebida alcoólica que ele detestava. Foi quando entendeu o quanto a vida pode ser amarga.
Odonir Oliveira
17 de outubro de 2020 10:42 amAi, Rui, mas que lindeza. Salve, salve, CLEOpatras tantas. Gostei por dimais, sô.
Zé Sérgio
17 de outubro de 2020 2:03 pmIria perguntar se a foto era do Caminho do Mar. Na imagem ampliada a certeza. Onde está a Cidadania Brasileira prometida na Redemocracia de 1980? Onde estão as Escolas? Onde está o País Prometido? A Qualidade de Vida? O Brasileiro e suas lembranças gravadas em Marcas de MultiNacionais Estrangeiras que infestaram esta Nação a partir do Entreguismo, das Privatarias, da Desindustrialização, do Lesa-Pátria de 1930, entre Párias como Getúlio Vargas, o Nepotismo de seus Familiares e Eugênio Gudin (Indústrias são para a Béjgica !! Industrialização Tardia?! Somente no Revisionismo Histórico produzidos pelos Lacaios). Que foi sendo replicado desde então. Nestlé escondida atrás de Kibon. A destruição do Caminho do Mar (‘E na estrada de Santos, eu não vou mais passar…’ Não vai mesmo Roberto Carlos. E se passar, só sendo roubado na extorsão dos Pedágios mais caros do planeta). Caminho do Mar que poderia ser o Caminho e a Praia dos Paulistas e Paulistanos, dentro do maior Parque Florestal Mundial em Área Urbana. O Parque da Serra do Mar. Milhares de riachos, cascatas, cachoeiras, piscinas naturais, água doce na descida rumo ao Litoral e na volta, rumo à Capital. Tudo isto dentro do Bioma com maior BioDiversidade do planeta !!!! Então o canalha Mario Covas destrói o Caminho do Mar, para aglutinar todo o trânsito nas Rodovias e Privatarias do seu Feudo, tumo ao maior porto da América Latina, um dos maiores do mundo, onde nada se mexe sem autorização do seu Clã juntamente com Michel Temer. Será coincidência que o Maior Entreposto de Drogas e Armas das Américas?! Afinal Somos a Pátria das Coincidências !!!! Caminho do Mar dentro do Parque da Serra do Mar, que poderia abrigar centenas de áreas de camping, ciclovias e pistas de caminhada na antiga estrada, rumo aos Manguezais de Cubatão e Bertioga (de paisagens e pescarias fabulosas), chegando ao acesso plano magnífico do Litoral Paulista. Não é sonho de uma noite de verão. É o país que o Articulista e sua geração conheceram. Das descidas para o Litoral através da Ferrovia. Das noites puxando rede junto aos Caiçaras. País que ao invés de evoluir, foi regredindo nestes intermináveis 90 anos. De forma trágica, na “Mediocridade Redemocrática” pós Anistia de 1979. Então o mal cheiro e os abutres ficaram insuportáveis. Está tudo lá, construído por um País e Geração muito mais evoluída, que preservou tamanho Tesouro Natural, que hoje não serve nem de passeio, nem lazer, muito menos “Sala de Aula” para gerações que nasceram na Redemocracia. Onde está o país prometido? “…E na estrada de Santos, eu não vou mais passar…” Não vai mesmo. Graças à Elite do Estado Ditatorial Caudilhista Absolutista Assassino Esquerdopata Fascista que conseguiu destruir até o Caminho do Mar. Pobre país rico. Caminhada maravilhosa. Passeio de Bicicleta rumo ao Litoral em menos de 1 hora. Mas então, para que Pedágios e ‘Correntes Progressistas amarrando suas pernas e sua Liberdade’. Mas de muito fácil explicação.
Zé Sérgio
18 de outubro de 2020 11:11 am“…Que merda é essa, senhoras e senhores, que a proximidade do campo e de seus heróis, nos faz chorar?..” Agora sim a Perfeita Definição : HERÓIS.
Osmar
17 de outubro de 2020 3:23 pmFusca 97 ou 67?