Máquina de lavar ideias, por Ana Claudia Dantas

 
Por Ana Claudia Dantas
 
Máquina de lavar ideias 
 

Hoje lavei roupas à mão, no tanque e, engraçado, tive uma infinidade de insights filosóficos. Não que eu tenha descoberto uma fonte de inspiração e que vá me recorrer a ela cada vez que estiver esvaziada. Isso não. A intenção é consertar a máquina de lavar. Mas não posso deixar de levar em conta a percepção que tive do acomodamento que nos acomete mediante as facilidades da vida moderna.

As mulheres de Arembepe, com tecidos disformes amarrados à cabeça de uma forma tão magistral (nunca consegui fazer tais amarrações), ajoelhadas nas pedras úmidas da beira do rio que antecede a areia da praia, esfregando, nas mesmas pedras que suportam os seus joelhos, o encardido das roupas sujas que, ali mesmo, naquele instante, se transformam no branco mais reluzente… isto é um quadro depositado na parede da minha sala? Não, isso eu vi, vivi, fotografei enquanto caminhava com o meu filho em direção de um dos meus mares preferidos para um bom banho na água salgada aquecida pelo sol que só brilha na Bahia, terra de Nosso Senhor.

Aquelas mulheres ainda estão lá exercendo a mágica de transformar o encardido em branco translúcido a preço de banana? Ainda se preocupam em clarear o tecido alheio enquanto os joelhos enrugam e pretejam na carne maltratada por solo, umidade e sol, aquele sol que só brilha na Bahia, terra de Nosso Senhor?

As mulheres de Arembepe não estão no facebook. Elas não conhecem as mulheres do facebook. Elas nunca foram ao vão do MASP e não fazem a mínima ideia do que significa o amontoamento de uma gente que clama pela volta do governo militar sob o edifício assinado por Lina Bo Bardi, que teve o cuidado de respeitar outra boa mulher, hoje sem nome, no esquecimento, quem presenteou a Cidade com o terreno ao outro lado da rua, impondo uma única exigência: que o local só servisse para erguerem-se árvores a céu aberto e que, cimento só fosse permitido em bancos feitos para os cidadãos apreciarem a bela paisagem que São Paulo exibia. 

Com efeito, Lina projetou o vão, a vista, o vazio que enaltece o verde arbóreo da região e fixa — com o ar que preenche o espaço entre as duas vermelhas paredes laterais que se postam como flores retas e exóticas sem quase ser percebidas —, o importante edifício onde seriam expostas, para o enaltecimento da cultura do povo, grandes obras de artistas nacionais e internacionais. Grande Lina que se foi deste mundo antes de presenciar as bobagens manifestadas, aos brados, em seu vão não mais tão verde.

Talvez, ali, em algum canto do MASP, uma exposição, talvez de fotos, mostre algumas das mulheres ajoelhadas à beira do rio realizando seus shows milagrosos de transformar o encardido no branco mais translúcido. Assim, o um paulista desavisado pode ver uma roupa sendo lavada à mão sobre pedras, entre uma e outra manifestação absurda, em prol da falta de liberdade.

E enquanto eu esfregava a roupa no ondulado do tanque de louça da minha área de serviço, ouvia, em meus pensamentos, as mulheres paulistas pedindo, aos berros, a volta da ditadura, como se gritassem: Menos liberdade para o povo! Mais censura! Que sejam utilizados novos modelos de tortura! Queremos mais repressão, menos seres pensantes… E meus insights foram se esvaindo, o azul forte do mar de Arembepe, sumindo; um desgosto se agarrou de súbito a jugular e, mesmo que rapidamente a soltando, pôs-se amargar a saliva e a amargurar o coração. 

Pensei em satisfazer-me com a limpeza que conseguia nas minhas modestas peças de roupa que ali eu lavava. Uma pequena mancha de café sumiu ao ser ensaboada e enxaguada. Recuperei aquela blusa tão delicada, por isso senti um sorriso me brotando. Lembrei-me de Walter Benjamin, quem descrevia o homem moderno como algo resultante das técnicas que lhe oferecem o conforto e o afasta das experiências com a natureza, gerando assim, a miséria, a escassez de experiência, a submissão humana em relação à técnica. Ah, que falta me faz minha máquina de lavar! 

Já estava cansada, mas com a roupa limpa e já estendida no meu varal. Aportei minha filosofia na bancada do armário onde pousava, quentinho e cheiroso, o café da cafeteira. Lembrei-me novamente Benjamin que dizia que o cansaço vem da falta de capacidade em concentrar o pensamento em um plano simples, porém vital. Achei que o me concentrar no gole do café quentinho pudesse me trazer um descanso. Mas logo lembrei-me também de que, para não morrer na Alemanha em guerra, o pensador judeu solicitou sua vinda como professor na Universidade de São Paulo — o que lhe salvaria da morte certa que lhe impunha a Gestapo —, mas a aclamada instituição de intelectuais paulistanos o recusou para dar o cargo a um desses que hoje incitam pessoas a clamarem pela volta da ditadura; que são contra o sistema inclusivo de cotas iniciado no governo Lula, pois acreditam numa tal de “meritocracia”.

Voltando ao pensador alemão, que acabou morto por ser judeu, ficamos sabendo que a natureza e a técnica tornaram-se unas, o primitivismo e o conforto se abraçaram como se fossem um só, e as pessoas começaram a se cansar das complicações da vida diária e, fatigadas, não se dão ao luxo da experiência, buscam o modo mais simples, mais cômodo, no qual “um automóvel não pesa mais do que um chapéu de palha, e uma fruta na árvore se arredonda como a gôndola de um balão”, a natureza se distanciou para dar espaço a comodidade. 

Talvez por isso algumas pessoas vão ao vão do MASP pedir pela falta de liberdade. Talvez sintam-se melhor trancadas em seus cômodos com seus eletrônicos, longe de qualquer experiência a se enfrentar. Mas viver não é experimentar?

Ana Claudia Dantas é poeta, professora, desenhista e escritora. Aprendeu com os passarinhos a amar o cheiro do orvalho na grama de manhãzinha e, com os gatos, as delícias da brincadeira despreocupada. Fã incondicional de Quintana, passarinha pela vida, porque não está aqui de passagem.

2 Comentários

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Otavio Barros

- 2015-05-04 23:13:11

Nassif, Escrever um texto é

Nassif,

Escrever um texto é seguir os ensinamentos do imortal Graciliano Ramos. Na beira do riacho, a lavadeira escolhe as primeiras peças, sem muita sujeira. Depois, vem o amontoado de roupa que, ensaboada, exige mais traquejo da lavadeira. Levada ao sol, a roupa retorna para outra lavagem de sabão e, finalmente é levada ao quarador do sol, para finalizar a arte estilística. O autor quiz dizer que em Literatura é preciso escrever o primeiro texto, rever e reescrever o segunodo, terceiro texto... para finalmente conseguir sucesso literário, como foi o caso de Guimarães Rosa (Grande Sertão: Veredas) que foi desclassificado em concurso público na primeira e segunda tentativa. Resolveu dar outra lavagem no texto original e hoje é consagrado escritor brasileiro.  .  

Maria Luisa

- 2015-05-04 19:00:08

"Poesia é quando a tarde esta competente para dalias"*

Lindos e tristes insights. As vezes, naquelas tarefas que considero enfadonhas e perda de tempo, também tenho minhas elucubrações "filosoficas" ou metafisicas. Muitos têm. Ainda assim, como andar num ônibus vazio, o rosto colado à janela, são nesses momentos que respiro mais e penso se o caminho é esse mesmo ou o rumo esta equivocado. Ah! Esse desencanto... 

* Manoel de Barros

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