5 de junho de 2026

No dia das mulheres, dona Tereza

Passou a todos os filhos o princípio da defesa dos vulneráveis. E passou, também, um amor imenso pelo Brasil.
Tereza e Luís

Dona Tereza, mãe do autor, desafiou normas sociais e valorizou a independência feminina em sua família.
Ela enfrentou problemas de saúde e deu à luz cinco filhos em casa, mantendo forte ligação com seu lar.
No fim da vida, indignou-se com a falta de sensibilidade médica e deixou legado de valores para sua família.

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Resumo gerado por Inteligência artificial

Nasci em um mundo feminino.

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Minha mãe, Terezinha, tinha 8 irmãs e um irmão. Meu pai tinha 2 irmãs. Fui o primeiro sobrinho homem de uma irmã querida. Depois, o universo feminino aumentou com 4 irmãs e mais 3 primas, criadas na casa vizinha, da tia Rosita. De meninos, apenas eu e o primo Oscar.

Mais tarde, o universo feminino foi ampliado, com 4 filhas e 2 netas. Todas elas, galhos da grande árvore representada por dona Tereza.

Embora de saúde frágil, ela nunca se conformou com o papel de dona de casa. Formou-se professora em Casa Branca. E, desde o noivado com meu pai Oscar, ambicionava uma participação efetiva da sua vida familiar e profissional.

Anos depois de sua morte, recuperei a correspondência de noivado. Minhas tias paternas queriam que ela fosse aprender tênis ou golfe no Country Club. Embora pequena, Poços de Caldas recebia anualmente a elite carioca e emulou alguns dos seus hábitos sociais. Dona Tereza reagia. Não queria oba-oba social. Queria estar ao lado do meu pai no dia a dia.

A herança árabe-mineira do velho a impediu. Pena, porque na época de crise da farmácia, ela tinha as melhores ideias de remodelação do modelo e tentava emplacar através de mim, o primogênito. Mas, desde que me recusei a ser farmacêutico, não tinha nenhuma influência sobre seu Oscar.

Dona Tereza era tinhosa. Quando casou foi aconselhada pelo dr. Rowilson Flora, médico e amigo pessoal da família, a não engravidar. Na infância, teve reumatismo infeccioso e sopro no coração. Dizia ele que, se fosse dar a luz, ou morreria ela, ou o filho.

Já que havia esse risco, que desse à luz em casa. Pelo menos morreria em família. No dia do meu nascimento, havia 15 familiares rezando na sala.

Dona Tereza deu à luz o primeiro filho. Depois, a segunda, a terceira, a quarta e a quinta, sempre em casa.

E tinha uma relação umbilical com a casa, por lá ter nascido seus filhos. A mudança para São Paulo foi um baque terrível.

Fomos morar em uma vila, na rua Eça de Queiroz, em frente tinha a feira. Na feira, a barraca de uma japonesa, que fazia pastéis. Cada vez que a fiscalização dava a batida, a japonesa corria para nossa casa onde dona Tereza já aguardava com o portão aberto que, após a passagem da senhora, era imediatamente fechado.

Passou a todos os filhos o princípio da defesa dos vulneráveis. E passou, também, um amor imenso pelo Brasil.

Passamos a infância ao som de Luiz Gonzaga, Dorival Caymmi, Inezita Barroso, Ivon Cury, em 78 trazidos por meu pai. À noite, ela juntava os filhos em torno da cama, para cantar suas canções, com voz linda.

Era “Chuá Chuá”, “Linda Flor do Ipê”, e, principalmente, músicas paulistas da revolução de 32. Meu avô trabalhava na prefeitura de São Sebastião da Grama e precisou fugir, com a chegada das tropas mineiras. Depois, foi para Poços. Mas a saga paulista sempre esteve presente em dona Tereza. E era motivo para nossa gozação, retribuindo sua ironia frequente.

  • Ê, mãe, é o único estado que comemora uma derrota.

Ela retribuía cantando Guilherme de Almeida: “Eu sou paulista, de uma terra boa / de um povo honrado, feliz e altaneiro….

Passou a todas as filhas a importância da independência, de serem companheiras, jamais dependentes dos maridos. E deu um carreirão nas damas da sociedade poçoscaldense, quando foram em casa tentando convencê-la a permitir que as meninas fossem debutar.

Era uma leoa, defendendo não apenas nossa família, mas a da tia Rosita.

No seu final de vida, internada na Beneficiência, certa noite acordei assustado e fui até o hall da Beneficiência, torcendo por ela. No dia seguinte, os médicos informaram que ela quase havia partido.

Quando melhorou um pouco, entrei na UTI para conversar com ela. Ainda muito agitada, ela apontava dois médicos e fazia um sinal de pescoço cortado. Só quando conseguiu falar, soubemos da história.

Ela disse que estava caminhando por uma estrada, com uma luz forte no fundo. Aí ouviu conversas. Apurou os ouvidos e era um médico comentando com a colega que a sua cama da UTI iria vagar em breve.

Dona Tereza ficou indignada e disse que voltou só para rebater a falta de sensibilidade dos médicos. Ai contou a história para uma amiga nossa, médica da Beneficência, e os dois parlapatões levaram um puxão de orelha.

Dona Tereza se foi. Acabaram as macarronadas de domingo, com toda a família. Mas deixou, de herança, valores e princípios que ficaram firmemente plantados em toda a família, especialmente na área feminina, que é amplamente majoritária.

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Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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