O buraco, uma fábula neoliberal, por Fábio de Oliveira Ribeiro

Conversas reservadas aqui, concessões políticas acolá e alguns subornos pagos às pessoas certas e voilá, o Prefeito foi autorizado a explorar o potencial turístico do buraco.

O buraco, uma fábula neoliberal

por Fábio de Oliveira Ribeiro

Numa cidade qualquer, que pode muito bem ser a cidade em que você mora ou naquela que você já visitou ou jamais visitaria, começou a aparecer um buraco. Na noite anterior ele não estava lá. Na tarde seguinte ele já havia crescido o suficiente para alguém telefonar para a prefeitura.

O responsável pelas obras públicas foi ao local acompanhando um engenheiro. Ambos concluíram que se tratava de um buraco normal, como qualquer outro buraco que já havia surgido em qualquer outra cidade. O engenheiro fez alguns cálculos, o responsável emitiu as ordens administrativas necessárias.

Algumas hora depois chegaram quatro caminhões de terra e um rolo compressor. Cada motorista despejou o conteúdo da caçamba no buraco, o rolo compressor entrou em ação e voilá, o problema estava temporariamente resolvido. No dia seguinte o local poderia ser novamente pavimentado.

Os operários e caminhões da pavimentação foram despachados para o local bem cedinho. Todavia, o encarregado de terminar a obra foi obrigado a telefonar para o responsável pelas obras públicas. Ele e o engenheiro foram novamente ao local e ficaram muito surpresos. O buraco não só havia reaparecido como havia se tornado maior e mais fundo.

O engenheiro coçou a cabeça. Ele simplesmente não conseguia entender o que estava acontecendo. Em 20 anos de carreira ele nunca havia se deparado com algo parecido. Aquilo não era normal. Por algum motivo o solo naquele local havia se tornado instável.

Ele voltou à prefeitura e, ao consultar os registros públicos, ele descobriu que naquela região nunca havia sido feita qualquer obra subterrânea. O aquífero mais próximo estava a centenas de quilômetros. E nenhuma falha geológica conhecida havia sido registrada até então.

Intrigado, o engenheiro imaginou que numa camada mais profunda da Terra deveria ter ocorrido algum incidente imperceptível na superfície. Então ele voltou ao local, fez novamente alguns cálculos. Algumas horas depois os caminhões de terra começaram a chegar.

Um a um os 15 caminhões despejaram terra no buraco. O rolo compressor entrou em ação e os operários da pavimentação puderam completar o trabalho à tardinha.

No dia seguinte o engenheiro foi pessoalmente inspecionar o local. Ufa. Felizmente esse problema está definitivamente resolvido. Ele estava voltando para o carro quando alguém gritou. Ao se virar o engenheiro viu o buraco reaparecer novamente. A largura dele havia diminuído, mas ao se aproximar da borda o engenheiro foi incapaz de ver o fundo do buraco.

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Alarmado, o engenheiro correu para a prefeitura e relatou o ocorrido ao Prefeito, que mandou interditar aquela área. O encarregado pelas obras públicas entrou em contato com as autoridades do governo do país. Alguns dias depois uma comissão de cientistas e de militares chegou à cidade para inspecionar o buraco.

Todos concluíram que estavam diante de algo incomum. Nenhum cientista foi capaz de formular uma explicação. O buraco teria que ser estudado. Os militares fizeram registros fotográficos e retornaram aos quartéis em silêncio.

A primeira coisa a fazer era medir a profundidade do buraco. Isso era virtualmente impossível, pois não havia corda suficiente para fazer um peso de chumbo chegar ao fundo dele. Drones que foram enviados e transmitiram imagens monótonas de paredes lisas e de um fundo negro que se estendia para além da distância da iluminação artificial montada no equipamento. A partir de uma determinada profundidade os drones sempre paravam de responder aos comandos dos seus operadores.

O buraco não queria revelar seus segredos mais íntimos aos cientistas, então os militares entraram em ação. E eles fizeram aquilo que os soldados sempre fazem numa situação como essa. Primeiro eles criaram uma zona de exclusão: somente o pessoal autorizado poderia chegar perto do burado. Depois eles providenciaram o transporte de algo do quartel até o local.

As operações de guerra foram concluídas quando os militares  jogaram no buraco uma bomba de 1 tonelada armada para explodir assim que chegasse ao fundo. A explosão faria as paredes do buraco colapsar criando uma pequena depressão na região. O problema é que a bomba não explodiu. Imaginando que ela poderia ter falhado, os militares repetiram a operação. Várias bombas depois eles concluíram que a profundidade do buraco era abissal e que, por algum motivo, as explosões não podiam ser sentidas ou elas simplesmente não ocorriam porque a pressão destruía o dispositivo de detonação antes dele ser acionado.

Derrotados, os militares voltaram para os quartéis. Antes disso porém eles fizeram circular boatos de que tudo aquilo havia sido planejado pelo Exército para ludibriar uma potência estrangeira.

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Forçado a conviver com o buraco, o Prefeito fez o que qualquer administrador público faz numa situação como essa. Ele mandou cercar o local para evitar acidentes e a vida seguiu seu curso como se o buraco não existisse. Mas um dia alguém teve uma ideia genial: usar o buraco para atrair turistas para a cidade. Até então a existência dele havia sido mantida em segredo por ordem do governo em virtude da recomendação do Exército.

Modificar a percepção das pessoas sobre algo é uma tarefa fácil, especialmente quando os militares não querem reconhecer uma derrota. Conversas reservadas aqui, concessões políticas acolá e alguns subornos pagos às pessoas certas e voilá, o Prefeito foi autorizado a explorar o potencial turístico do buraco.

Uma grande campanha publicitária nacional e internacional foi organizada. Fundos públicos de despesas sociais foram remanejados para fazer propaganda. Recursos privados foram captados sob promessa de participação nos lucros. Teorias da conspiração as mais variadas foram criadas e divulgadas para explicar a origem do buraco. Os turistas começaram a chegar, o negócio começou a se tornar rentável,  melhorias foram feitas na cidade para acomodar os visitantes. Os comerciantes estavam satisfeitos. Mas então aconteceu uma tragédia.

No primeiro dia do segundo ano do aparecimento comercial do buraco um homem desesperado agrediu os seguranças, transpôs todas as barreiras de proteção e se jogou no buraco.Os gritos dele foram escutados por algum tempo. O silêncio que se seguiu foi geral.

Uma tragédia. A Prefeitura foi obrigada a interditar novamente o local. Ninguém conseguiu descobrir quem era aquele cidadão ou o motivo pelo qual ele havia se jogado no buraco. Um serviço fúnebre para o morto foi realizado. Padres, pastores, xamãs, monges budistas e xintoístas foram chamados para realizar cerimônias expiatórias no local. O prefeito anunciou que o turismo seria retomado duas semanas depois do enterro simbólico da vítima. Os comerciantes protestaram, pois os lucros dele seriam afetados por muito tempo e isso não era justo. Como sempre ocorre nessas disputas, os comerciantes levaram a melhor e o prefeito autorizou o retorno das atividades normais numa semana depois.

No dia marcado para a retomada do turismo a cidade foi sacudida por ondas de indignação. O maldito buraco havia desaparecido. No local onde ele deveria estar estava apenas o corpo do homem que havia se jogado nele. E para a surpresa geral ele estava apenas adormecido. Ao acordar ele foi interrogado e respondeu que não sabia o que havia acontecido.

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Após se jogar no buraco ele se arrependeu e começou a gritar de medo. Ele gritou até ficar cansado, mas continuava caindo e caindo e caindo. E ele continuou a cair até adormecer. Quando acordou descobriu que estava novamente entre os vivos. Os médicos que examinaram o rapaz afirmaram que ele estava bem e não apresentava nenhuma lesão digna de nota.

O desaparecimento do buraco foi noticiado no mundo inteiro e os turistas debandaram, pois aquela cidade, como qualquer outra cidade, não tinha nada de especial. Em razão disso, o Prefeito foi convencido a iniciar um procedimento formal de investigação do misterioso desaparecimento da nova fonte de renda da cidade.

Inquirido uma segunda vez, o homem que se jogou no buraco confessou que fez aquilo porque a vida dele era uma porcaria. Ele estava desempregado, o governo havia suspenso o seguro-desemprego para usar os recursos no projeto de transformação do buraco em atração turística. Ele chegou a passar fome, mas todos só prestavam atenção nos lucros que poderiam ser obtidos com o turismo. Então ele resolveu se vingar do buraco transformando-o em sua sepultura.

Bem… Teria sido melhor ele ter inventado uma outra história. O fato dele ter desejado morrer para se vingar do buraco foi considerado um crime imperdoável, especialmente porque ele estava vivo e havia conseguido exterminar a fonte de renda dos comerciantes da cidade. O cara teve que ser preso temporariamente para não ser agredido e morto por uma turba. Dois dias depois que ele foi preso, o diretor da prisão, que era muito amigo do dono do maior hotel da cidade, mandou colocar ele na solitária (vulgarmente conhecida como buraco) e lá ele foi esquecido.

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