O ponto onde estou, por Daniel Gorte-Dalmoro

Ao pensar nas minhas aspirações de infância e adolescência, noto que havia uma ingênua crença numa liberdade classe média: de que meu futuro quem faz sou eu

O ponto onde estou

por Daniel Gorte-Dalmoro

Por estes dias, na casa de minha mãe – que foi a casa de minha infância e adolescente e ainda hoje chamo de “minha casa”, ainda que “minha casa” também seja a casa de São Paulo -, fiquei a me questionar onde eu imaginava que estaria beirando os quarenta anos, quando ainda residia aqui. Que planos tinha aquele adolescente? Que esperava ele do futuro, essa matéria-vácuo da qual é feita a nossa vida, o nada que nos anima a permanecer vivos? Ainda que o corpo preso ao presente, tributário do passado, suportaríamos a existência sem a perspetiva do devir? Uma questão que a necropolítica que toma nossa sociedade nos impõe cada vez mais. 

Penso em Mathieu, do romance de Sartre. Nunca sonhei ser livre – provavelmente porque nunca tivesse parado até então para refletir o quanto estou preso, não só na própria dureza da matéria que nos compõe e nos cerca, como nesse bem intricado jogo de espelhos sociais que oculta de nós nossa verdadeira condição. Talvez porque também nunca tenha estado preso forte o bastante para achar incômodo: e aqui não por ter tido uma falsa consciência de que seria livre, mas por ter tido pais que me autorizavam a experimentar bastante (ainda que menos do que, no fundo, eu gostaria), por ter tido a sorte de estudar a primeira infância numa escola que não me tolhia até o último broto, até me tornar um bruto reprodutor de uma cartilha, de uma cantinela do poder (ainda que toda educação, todo processo civilizatório, implique em renúncias e limitações), por ter sempre voado em pensamentos, esse rincão onde as limitações chegam muito mitigadas (eu nunca soube o que é tédio).

Ao pensar nas minhas aspirações de infância e adolescência, noto que havia uma ingênua crença numa liberdade classe média: de que meu futuro quem faz sou eu – ainda que desde cedo meus pais tenham me ensinado que há limitações, como não ter sido piloto de fórmula 1, porque meu pai não quis comprar um kart (deixa de lado o fato de que ele não tinha condições), ou jogador de futebol, porque meu pai não me autorizou a uma viagem de oito horas sem condições de segurança. Por sorte, trinta anos depois, ao menos eu não corro mais atrás dessa ilusão perversa. 

A criança de cinco anos que tiraniza Mathieu, cobrando deles a realização de suas esperanças, em mim fica restrita ao passado – ainda que o processo de isolá-la sem presentificá-la tenha levado árduos anos no divã, um trabalho complexo para superar a sensação de ser um fracassado a cada renúncia, desistência ou de… fracasso. E é por isso que posso repassar os sonhos daquele adolescente que fazia as tarefas de casa nos intervalos entre as aulas para poder passar a tarde jogando video-game, assistindo à MTV Latina, e indo jogar futebol às cinco e meia no Patão – depois substituído pelo “café com jornal” com os pais -, sem dor ao afirmar: para o Daniel de 1996, o daniel de 2021 é um grande fracasso. Uma retubante coleção de erros que não levaram a nenhuma grandeza (eu mesmo preferi passar a grafar meu nome todo em minúscula, como forma de não me pôr acima de nada), que desembocaram num grande nada a espera do amanhã.

Quando decidira por cursar psicologia, depois de um leque considerável de carreiras que me interessavam – arquitetura e urbanismo, nutrição, estatística, filosofia -, e optara por ser na USP de Ribeirão Preto, tinha posto para mim que minha meta era me tornar um intelectual – que então eu confundia, por ignorância, com a área acadêmica e de escrita. Talvez eu ainda persista com essa meta. Como meu objetivo na psicologia era pesquisa e ensino, e eu fazia questão de ser em algo que eu gostava, desisti do curso para fazer filosofia – dessa vez na Unicamp, por medo de morar em São Paulo, a cidade pela qual hoje sou apaixonado. 

E a vida foi se entortando: participei de projetos de extensão social, da rádio livre dos alunos (a Rádio Muda, e até hoje meu e-mail é o do programa que eu apresentava), fui dar aula de alfabetização para adultos e em cursinho popular. Descobri que leitura vai muito além dos livros, que títulos acadêmicos não tem uma ligação necessária com conhecimento, e que no diálogo com o outro, principalmente o vindo de outra realidade social, é um manancial de conhecimento que nenhum curso consegue suprir. Não só perdi meu preconceito uspiano (e unicamper também) com professor de ensino fundamental (“professor é professor porque não teve capacidade para ser pesquisador”, como disse certa feita um ex-presidente da república que pouco investiu seja em ensino, seja em pesquisa), como vi que a burocracia na academia deixa pouco espaço para o que eu entendia como intelectual: uma pessoa com conhecimentos aprofundados e ao mesmo tempo uma razoável visão de mundo, engajado de alguma forma socialmente – que não na linha neoliberal “fazendo meu melhor estarei contribuindo para a sociedade”. 

Sim, há quem consiga conciliar (como o Vladimir Safatle, Peter Pál Pelbart, Miguel Nicolelis, entre outros), mas são exceções: de meus colegas de faculdade, não sei se algum conseguiu; da minha parte, há tempos reconheci que sou uma pessoa bem mediana (e lenta de raciocínio), sem capacidade de conciliar, e fiz minha escolha – que é mais uma tentativa, já que não há posto a ser alcançado. A escrita virou um hábito, uma forma de eu organizar para mim mesmo meus pensamentos – e pô-los à prova, caso alguém queira ler (além de meus pais). E confesso: tirando os quatro livros que publiquei ([memórias feitas de saudades], Trezenhum. Humor sem graça., Passageiro e Linha de Produção/Linha de Descartes), e alguns poucos textos (a maioria dos quais pretendo lançar em livros), dificilmente encontro algo que escrevi que me agrade. Os próprios livros foram lançados para uma satisfação pessoal, já que suas vendas não vão além de poucos amigos – inquestionáveis fracassos de vendas e crítica.

Me ponho a perguntar: e se o daniel tivesse realizado os sonhos grandiosos do Daniel, onde estaria eu hoje? Provavelmente “casado, fútil, quotidiano e tributável”. Professor universitário em uma cidade média, em um relacionamento monogâmico estável (ou em busca de um), sem filhos, preocupado com burocracias, escrevendo artigos técnicos que só pareceristas leriam, conversando com pessoas sempre muito parecidas, e mal vendo a hora de chegar as férias para fugir do dia a dia (lembro agora que minha primeira namorada uma vez disse que me via no futuro em roupão, lendo jornal pela manhã, indignado com os desvarios do mundo, sem conseguir ir além da sala da minha casa com minha indignação; ela estava certa, se eu tivesse seguido “em linha reta”).

Ter sido um fracassado, um traidor de meus sonhos infantis e adolescentes, me permitiu ser coerente àquela visão de mundo crítica e empática que aprendi com meus pais; me deu oportunidade de fugir de amarras sociais bem camufladas e tentar, sim, uma certa liberdade que aos quinze anos eu nem sonhava existir; me fez ir além da indignação impotente e tentar construir ações efetivas de transformação social em prol de uma sociedade mais justa e igualitária – que o diga cinco anos trabalhando junto à Pastoral dos Migrantes, mesmo sendo ateu; e meu atual trabalho junto a cooperativas de catadores de recicláveis. Me tornei um escritor de domingo (para usar outra expressão de Sartre) que sonha um dia em conseguir redigir uma obra-prima, mas não se cobra por ela – se não vier, não é por ela que estou vivendo -, enquanto planeja qual o próximo curso que vai fazer (corte e costura? palhaço? mais outra graduação ou mestrado?). 

“Só quero saber/ Do que pode dar certo/ Não tenho tempo a perder”, diz uma música de uma banda de sucesso. Por sorte, a condição de classe média me permitiu perder tempo, fazer coisas aleatórias e sem utilidade prática imediata – ou mesmo quando tinham, não consegui seguir na profissão e isso não foi problemático (como iluminador cênico ou marceneiro) -, e pude, em meu trajeto de vida, aproveitar o caminho e a caminhada, sem ter o olhar fixo unicamente no destino – melhor: pude, a partir de certa altura, sequer me impor destino a ser alcançado que não fossem pequenos vitórias, como a publicação do livro ou uma apresentação de dança. Daí eu preferir a letra amargurada de um banda de menos sucesso: “Tudo o que eu sempre sonhei/ Tanto que eu consegui/ É tão bom estar aqui/ Quanto ainda está por vir?”.

Não cheguei onde eu queria, e sim onde nunca imaginara. Tenho várias frustrações, nenhuma delas por ter abandonado os objetivos planejados e as rotas traçadas quando era mais jovem.

19 de setembro de 2021.

* Apenas para salientar: tenho plena consciência de que toda liberdade é limitada e condicionada.

** Para ser mais preciso quanto à frase de FHC que representa o pensamento de muitos acadêmicos: “Se a pessoa não consegue produzir, coitado, vai ser professor. Então fica a angústia: se ele vai ter um nome na praça ou se ele vai dar aula a vida inteira e repetir o que os outros fazem” (Folha, 27/11/2001)

*** Tudo o que sempre sonhei, do Pullovers:

**** O trecho do Sartre que fui atrás para complementar este texto, em tradução lusitana:

“«Uma vida», pensou Mathieu, «é feita com o futuro, como os corpos são feitos com o vácuo». Baixou a cabeça. Pensava na própria vida. O futuro penetrara‑a até à medula. Tudo nela estava em suspenso. Os dias mais recuados da sua infância, o dia em que dissera «Serei livre», o dia em que dissera «Serei grande», apareciam‑lhe, ainda agora, com o futuro particular, como um pequenino céu pessoal e bem redondo em cima deles, e esse futuro era ele, ele tal qual era agora, cansado e amadurecido. Tinham direitos sobre ele e através de todo aquele tempo decorrido mantinham as suas exigências e ele tinha amiúde remorsos esmagadores porque o seu presente negligente e céptico era o velho futuro dos dias do passado. Era ele que tinham esperado vinte anos, era dele, desse homem cansado, que uma criança dura exigira a realização de suas esperanças; dependia dele que os juramentos infantis permanecessem infantis para sempre, ou se tornassem os primeiros sinais de um destino. O seu passado sofria sem cessar os retoques do presente; cada dia vivido destruía um

pouco mais os velhos sonhos de grandeza, e cada novo dia tinha novo futuro; de espera em espera, de futuro em futuro, a vida de Mathieu deslizava docemente… em direcção a quê? Em direcção a nada.”

Daniel Gorte-Dalmoro é bacharel em filosofia e ciências sociais pela Unicamp e mestre em filosofia pela PUC-SP

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