O Rádio como Overdose Ideológica, por Jorge Alberto Benitz

Um taxista e agora o motorista do Uber e Cabify, que tem outro perfil mais diversificado – encontrei até engenheiro nele –, costumam estar com o rádio ligado a todo o tempo.

O Rádio como Overdose Ideológica

por Jorge Alberto Benitz

Nunca deixei de andar de táxi mesmo sabendo que vou pagar mais que os Uber e Cabify da vida. Tive boas e ruins experiências por isso. Muitas foram inspiradoras de contos que estão no meu livro Conversas de Livrarias&Avulsas, Editora Palmarinca. Devido a este costume, mesmo não sendo sociólogo e nem precisando pesquisar tanto, tenho a pretensão de ter desvelado uma das principais causas de grande parte deles ser tão reacionários. Um taxista e agora o motorista do Uber e Cabify, que tem outro perfil mais diversificado – encontrei até engenheiro nele –, costumam estar com o rádio ligado a todo o tempo. Quem conhece um pouco a programação das rádios – quando me refiro a rádio leia-se grandes redes como Jovem Pan, Band, Globo, Gaúcha –  independente do estilo dela, sabe o quanto elas são a voz do patrão e, por consequência, repetem, de modo que pode ser classificado de abusivo e maniqueísta, os ensinamentos da bíblia neoliberal que é o Consenso de Washington.

Não estou dizendo que são só “a voz do patrão”. Em uma programação de uma rádio entra muita coisa boa, de qualidade e de utilidade pública como notícias que importam ao motorista como situação do tráfego da cidade, previsões do tempo, música, esportes, sinônimo de futebol, e noticiário em geral. Tem também notícias que não importam a maioria dos motoristas, nem a maioria dos passageiros sem capital nenhum, como o valor das ações das empresas na Bolsa de Valores e seus chiliques (altas e baixas). Suponho que estas notícias sobre o dia a dia da Bolsa entram na programação, mesmo que os ouvintes em geral não tenham nenhum valor investido nela, como parte do cardápio para acostumar o “cidadão” a dar importância a este ente maior do mundo atual, a este novo bezerro de ouro. Junto com isso também vem os formadores de opinião hiper reacionários cantando as belezas e maravilhas dos valores do mundo neoliberal e baixando o cassete nos hereges de esquerda que os questionam. Inclua também nesta cota os responsáveis por programação que não tem nada a ver com política como futebol, música e fait-divers, mas que usam seu carisma junto ao seu público para puxar o saco do patrão se alinhando ao discurso neoliberal deste ainda que sua opinião política seja de uma superficialidade abissal. Muitos deles cabem perfeitamente naquele clichê que diz ser este tipo de profissional “mais realista que o rei”, isto é, são ideologicamente mais à direita do que o patrão.

Disso tudo quero dizer que a pessoa mediana, normal, recebe já uma dose cavalar de discurso neoliberal, dizendo que a política e os políticos não prestam, que o empresário é por essência um virtuoso, que o Estado deve ser mínimo, que, enfim se deixarmos para o Mercado decidir o que é bom e ruim estaremos indo na direção certa (sic!). Discurso único de toda a imprensa dos coronéis midiáticos que é dona dos jornais, revistas semanais (exceção CartaCapital), TVs e, também, das rádios já citadas. Certa feita, no auge do episódio do mensalão, as manchetes nos jornalões (FSP, Globo e Estadão) eram tão parecidas que pareciam ter sido escritas pelo mesmo autor. Uma espécie de super redator, provavelmente, de um Instituto como o Millenium, núcleo ideológico da direita. No entanto, voltando a questão relativo ao rádio, as programações desta por serem as que atingem, como a TV, o chamado povão, recebem uma atenção maior dos seus donos que se preocupam em fazer uma programação muito bem cuidada no quesito ideológico. Nelas a ordem é, usando um linguajar que seja entendido pela maioria dos ouvintes, que a feitura das notícias escolhidas sejam  formatadas – aquilo que Slavoj Zizek chama de moldura, filtro, que a ideologia faz – de modo a  impactar positivamente quando interessa aos rentistas e banqueiros e negativamente quando se refere aos críticos progressistas, democráticos e de esquerda. Para usar uma linguagem chula, assim o motorista de táxi ou de Uber e similares é, para usar um linguajar chulo, melhor, “emprenhado pelo ouvido”.

Difícil resistir ouvindo e se informando acerca do mundo, do país e da cidade de modo “full time” via rádio e não se tornar um reprodutor do discurso mais reacionário que existe; isto é, se o cidadão comum recebe uma dose cavalar deste tipo de doutrinação a favor dos interesses dos muitos ricos, o taxista e agora o seu concorrente, o motorista de Uber e similares, recebem uma overdose deste discurso devido ao modus operandi deles que implica em estar ligado o tempo todo no rádio para se informar acerca do trafego, principalmente, e de tudo que ocorre na cidade, país e mundo.  Acrescente a isso, a conversa com uma classe média, passageira usual, que pensa igual e tudo se conjuga para o pior dos mundos.

O que torna tudo mais fácil para o trabalho de doutrinação ideológica da direita é que mesmo os com escolaridade superior foram preparados para usar o pensamento racional apenas para se preparar para a vida profissional. Um exemplo que me ocorre para corroborar esta tese é a conversa com o engenheiro (era um engenheiro civil que encontrei como motorista de Uber) citado no começo deste artigo. Seu discurso, a despeito da escolaridade superior, era igual, sem tirar nem pôr, o de qualquer taxista reacionário que me deparei antes. Ele até tentou diferenciar- se deste quando o confrontei acusando de que estava apenas repetindo o ouvido nos programas de rádios e obtive como resposta ser ele, também, um leitor do site Antagonista que estava contra o governo de Bolsonaro, inclusive, como acentuou. Tentou assim despiorar sua situação e apenas comprovou deste modo a exatidão de minha assertiva de que a cultura geral de um doutor, pós- doutor, é, na maior parte das vezes, igual à do bêbado do boteco, do taxista reacionário quando o assunto é política e mesmo costumes.

Costumo dizer que não instalaram neles o antivírus da capacidade crítica. Eles são facilmente convencidos por qualquer um quando o assunto foge da sua especialidade, sua zona de conforto. Considere agora um taxista, com capacidade crítica ( razão crítica que é diferente da razão instrumental segundo os “marxistas culturais” da Escola de Frankfurt) beirando  zero e que são expostos dia e noite ao mesmo discurso, a mesma ladainha,  dita tanto nos noticiários como durante toda a programação e fica fácil entender como eles se tornaram os mais raivosos,  desvairados  defensores das bandeiras de direita que chegaram ao auge  com a vitória do mais tresloucado candidato da história republicana pós-redemocratização. Mais tresloucado e mais à direita que o candidato do “Duela a quien Duela”, Fernando Collor de Mello, outra invenção malograda da elite podre e branca, como diz o conservador Claudio Lembo.

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