Quando Iberê e Portinari sorriram um para o outro, por Maíra Vasconcelos

Quando Iberê e Portinari sorriram um para o outro

por Maíra Vasconcelos

Poderia esse texto ser apenas citações de Iberê Camargo, do que ele escreveu em seu “Um esboço autobiográfico”. “Comecei a desenhar com quatro anos de idade. Sentado no chão, debaixo da mesa, passava horas a fio a rabiscar”. Aí está Iberê, menino e decidido, mesmo sem saber, a ser o pintor que foi.  

Iberê conheceu Oswaldo Goeldi no Rio de Janeiro, no início dos anos 40 do século passado. Parece que Goeldi escolheu um guarda-chuva vermelho para encontrar o amigo, pois necessitava usá-lo como bengala. Eles têm uma diferença de idade importante. Nesse dia, não chovia, Goeldi, então, caminhou com sua bengala. O encontro com Iberê revelou essa bonita imagem, um gravurista com seu enorme guarda-chuva que o ajudava a apoiar os passos.

Se fosse possível viver apenas dentro das realidades, não escreveria. E ao escrever, parece que a voz, o tom e o ritmo determinam a ficção das palavras, como essa voz com a qual escrevo. Gosto muito da fase dos carreteis de Iberê, como também adoro a fase das bicicletas. O pintor gaúcho fez grandes amizades quando morou no Rio. O ponto de encontro era o Café Vermelhinho, contou isso em seu esboço, como também detalhes de algumas de suas fases criativas.

“Seja por esta razão ou por motivos inconscientes, meus quadros começaram pouco a pouco a mergulhar na sombra. O céu das paisagens tornou-se azul escuro, negro, dando ao quadro um conteúdo de drama. Surgem, então, os carretéis sobre a mesa, depois no espaço. Os carretéis são reminiscências da infância”.

O encontro entre Iberê e Portinari foi agradável. Iberê não gostou de sua pintura e lhe disse muito francamente, não gosto. Iberê conta que Portinari nem sequer se importou com suas palavras, apenas as entendeu e o desaconselhou a frequentar a Escola de Belas Artes. Nesse momento, eles sorriram um para o outro. A crítica sem coração é necessária, ambos sabiam muito bem disso. E digo que sabiam, porque ao ler o esboço autobiográfico de Iberê, esse sorriso aparece lá entre as palavras. O que ficou em segredo, foi apenas o encontro com Goeldi, naquele dia, com sua bengala-guarda-chuva.

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