Quando meu pai me apresentou Aristóteles, por Ana Claudia Dantas

Quando meu pai me apresentou Aristóteles, por Ana Claudia Dantas

Eu não tive tanto contato com meu pai em pequena, ele sempre preferiu a excelência do trabalho à família, e eu sempre fui mais chegada às minhocas. Mas tenho infinitas lembranças, muita história de admiração e também de contestação. Lembro que minhas irmãs ficavam muito irritadas nos domingos em que ele era presente e acordava a todos, muito cedo, com o som de discos de vinil no mais alto volume do aparelho que chamávamos de vitrola, e me lembro de mim, quanta alegria vinha quando as primeiras notas musicais me despertavam para me contar que meu pai estava em casa. As músicas que ele cantava, e algumas ele as havia aprendido de pequeno com seu pai, eram músicas que nunca ouvi outra pessoa cantar, mas sei todas, de cor, até hoje.

Eu tinha uma mania besta que a grande maioria das crianças tem: perguntava de tudo. E ele não tinha resposta, improvisava quaisquer palavras sem cabimento e, por vezes, muito me decepcionava. E quando a resposta vinha da consciência, também algumas vezes me decepcionava. Sempre fui assim com o meu pai, muito próxima no gosto e bastante distante no pensamento. Um dia, já perto da adolescência, fui com ele a um lugar bem pobre onde se avistava por entre as folhagens algumas casas de pau a pique e chão de terra batida. 

Sempre que íamos a lugares assim as pessoas do local se enfileiravam como que hierarquicamente, a mulher descabelada de vestido até os joelhos com estampa indefinida, as pernas entreabertas e os pés escurecidos de terra enfiados em chinelos bem gastos, sempre a carregar uma criança de colo, criança nova, magra, mas barriguda, muito barriguda, o nariz sempre escorrendo e os olhos atentos a possíveis maldades como as de moscas ou de mosquitos que viviam por ali a mando do coisa ruim só para infernizar. Ao lado da mulher se alinhavam os outros filhos. Nunca eram poucos, meninas e meninos apenas de shorts desbotados, descalços e com ranhos pelo rosto. Tinham a cor do barro de que foram feitos os homens há milhares de anos, apenas as unhas eram mais pretas porque guardavam, nos vãos, toda poeira daqueles anos de infância. O pai era o único que não se alinhava à mulher e a prole, mantinha certa distância que lhe garantia um destaque, era o chefe da família, mas subalterno frente ao meu. Se fosse mais alto do que o meu, abaixaria a cabeça para falar com ele em sinal de respeito.

Naquele dia, não ouvi o que falavam, tentei saber se as crianças eram de carne e osso como eu. Não que eu estivesse mais arrumada ou coisa assim, e eu também carregava a cor da terra com a qual a larga infância me tingia, mas não parecíamos iguais, algo nos distanciava em muito. Talvez os rostos muito sujos, as bocas entreabertas, os olhos de susto, não sei, ou as barrigas inchadas que destoavam dos magros membros.

Ao sair daquele local, entramos no carro e eu desandei a perguntar: “porque tanta barriga?”, e meu pai: “é verme”; “onde fica a escola deles?”, e meu pai: “eles não vão à escola”; “e o balé, onde é?”, e meu pai “eles não vão ao balé”; “por quê?”, “porque é muito longe”; e por que não vão de carro?”, “não há carro?”; “eles não vão a lugar nenhum?”, “não, filha, eles ficam por ali”; “o que eles fazem ali?”, “trabalham com os pais na lavoura”…

As perguntas se seguiam, as respostas, cada vez mais curtas, e a história toda foi se encalacrando na minha cabeça, meu questionamento ficando atrapalhado aí meu pai me disse: “é assim filha, uns nasceram para pensar, e outros para trabalhar”; então lhe perguntei: “foi Deus quem pregou isso, pai?”, e ele, “não, foi Aristóteles”.

Foi assim que, naquele dia, naquele exato momento, nasceu em mim um grande desprezo por Aristóteles. Com o tempo e com estudos percebi que o trabalho dele era bom, mas meu pai tinha razão, foi exatamente o que aquele homem, que o mundo ainda ouve, disse para justificar a escravidão, que alguns nasceram para servir. Bom para ele que era um funcionário privilegiado a serviço da nata da sociedade.

Ana Claudia Dantas é poeta, professora, desenhista e escritora. Aprendeu com os passarinhos a amar o cheiro do orvalho na grama de manhãzinha e, com os gatos, as delícias da brincadeira despreocupada. Fã incondicional de Quintana, passarinha pela vida, porque não está aqui de passagem.

6 Comentários

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mcn

- 2015-05-14 01:34:19

Bela resposta.
Bela resposta.

Lourdes Nassif

- 2015-05-13 18:07:05

Caro armandolo, por Ana Claudia Dantas

Caro armandolo, como toda carta de amor é ridícula, conforme bem explicou Ferando Pessoa, acredito que toda lembrança de infância é piegas, como meu texto é permeado dessas lembranças da minha infância, agradeço o seu descaso que para mim soou como elogio.

Gostaria que soubesse, ainda, que desconheço, no mundo, alguém que pudesse usar de ingratidão para com o meu pai.

Eu AMO o meu pai, já falecido há dois anos me faz uma falta danada.

Como não tenho nenhum texto de sua autoria, armandolo, para metrificá-lo, julgá-lo e exortá-lo, como vc me fez, e como jamais o faria por ser, esse, um comportamento que não condiz com a minha expectativa humana, só posso esperar que você tenha, pelo seu pai, no mínimo, um tequinho só da gratidão que tenho pelo meu, pois se assim for, já será de bom tamanho.

Desejo que fique bem e que se alegre com a sua vida.

Um abraço.

Ana Claudia Dantas

armandolo

- 2015-05-12 20:02:18

Bom para ele que era um

Bom para ele que era um funcionário privilegiado a serviço da nata da sociedade.

Bom tambem para voce, autora deste texto piegas. Ao menos tenha gratidão para com teu pai.

pinheiro

- 2015-05-12 19:29:00

Pois entao Marcos, o problema

Pois entao Marcos, o problema da dialetica, é que ha seculos, só uma dos lados fala...

Maria Luisa

- 2015-05-12 18:27:25

Desde que o mundo é mundo que ainda é assim

Historias que se repetem nesse nosso Brasil cheio de "intocaveis". Enquanto houver uma classe dominando a outra, havera sempre discursos para legitimar essa dominação e suas consequências. Segundo uma prima bem conservadora - exemplo da classe média-alta brasileira -  pobre é pobre porque é preguiçoso (se aproveita do BF), não estuda e por ai vai.... Depois aplaude o bate-panela e paga salario abaixo da média a sua empregada e seus funcionarios e explora ao maximo. 

Marcos 2015

- 2015-05-12 17:07:22

Brilhante. Mostra como  a

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