Quem foi que inventou o Brasil?
por Izaías Almada
Quando Cabral aqui aportou com suas naus e começou a distribuir bugigangas aos povos originários (para usar o jargão do momento), deu-se início à política do agrado, do jeitinho. Ganhar a confiança e depois explorar…
Em seguida montou-se o esquema das Capitanias Hereditárias, onde a coroa portuguesa dividiu as terras descobertas, que se saberia depois ter 8.500.000 m2, em imensos latifúndios que seriam administrados por algumas das famílias mais poderosas do reino de Portugal e Algarve. Garantir a propriedade privada e o poder…
Uma das atribuições dos administradores era o poder legal de escravizar os indígenas aqui encontrados. Em outras palavras: muitas terras, poucos donos e índios escravos para o trabalho pesado.
E como não bastassem os índios, poucos anos depois, aí por volta de 1530/35, começaram a chegar as primeiras levas de escravos negros vindos de África.
Uma nova cultura começa a se formar a oeste da ocidental praia lusitana: muitas terras, poucos donos e milhares de escravos tratados com selvageria e desumanidade. Ainda o espírito medieval a gerar nova cultura com a miscigenação de três raças.
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Passados quase quinhentos anos a história foi se repetindo como farsa, drama, tragédia e outros adjetivos impublicáveis. Os “povos originários” e “os afros descendentes”, para usar o jargão do politicamente correto, senão posso ser acusado de racista (o verdadeiro racismo está na mudança de adjetivos ou em nossas atitudes diárias para com essas raças?) continuam a ser tratados dentro da cartilha da colonização branca e europeia.
Qualquer tentativa de mudar essa situação é reprimida com o chicote, a prisão e a tortura. “Duela a quien duela”, já disse um ex-presidente da república.
Lembrarmo-nos da nossa história é um dos requisitos para se adquirir consciência da urgente necessidade de mudanças sociais no Brasil, eliminando a criminosa desigualdade social que carregamos diante do mundo.
A proclamação da República, os movimentos civis/militares dos anos 20, a Coluna Prestes, a Revolução de 1930 e a ascensão de Getúlio Vargas, o Estado Novo, o integralismo de Plínio Salgado, a Revolta Comunista de 35, o Getúlio Vargas dos anos 50 e sua luta pelos trabalhadores e pela criação da Petrobrás, seu suicídio, provocado pelos defensores da cultura medieval, a mesma que depôs João Goulart e deu o Golpe de Estado em 1964, que prendeu, torturou e matou milhares de brasileiros.
E dentro do mesmo pensamento conservador e medieval deu novo golpe em 2016, liberando a ascensão do fascismo no país.
Quando é que teremos vergonha na cara para criar uma democracia com maior participação social dos menos favorecidos? Até quando o preconceito, a ignorância política e a lei do mais forte prevalecerão apoiados pela indigência cultural de quase cinquenta milhões de eleitores? Quem foi que inventou esse Brasil e quem, de fato, ainda o sustenta com acordos e alianças que, na prática se mostraram, ingênuas muitas delas?
Izaías Almada é romancista, dramaturgo e roteirista brasileiro. Nascido em BH, em 1963 mudou-se para a cidade de São Paulo, onde trabalhou em teatro, jornalismo, publicidade na TV e roteiro. Entre os anos de 1969 e 1971, foi prisioneiro político do golpe militar no Brasil que ocorreu em 1964.
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José Carvalho
12 de novembro de 2022 11:41 amO Brasil é um País de faz de conta. Faz de conta que é uma democracia, faz de conta que é um Estado de Direito, faz de conta que é desenvolvido, faz de conta que é civilizado. O fim da escravatura no País não deu um fim para a escravidão. Essa sociedade tem uma definição separatista entre aqueles que podem e os que não podem fazer parte. A evolução da compreensão das sociedades e a construção civilizatória na humanidade, não trouxe nenhuma inspiração e aprendizado para a invenção do País. Existe um País fragmentado, dividido, vivendo dentro de um mesmo espaço físico e territorial, mas que parece não ter nenhuma relação. Não há um caminho comum a todos os que são brasileiros, os nativos e os que adotaram o Brasil como pátria. O País não oferece o direito de participação num eventual progresso àqueles que fazem parte do contingente populacional do Brasil. Uma sociedade de castas que prefere abrir mão de obter progresso social, econômico, organizacional, etc, a incluir todas as partes na construção do País. Com 200 milhões de habitantes o Brasil se recusa a sair do atraso e gerar as soluções que precisa ao próprio desenvolvimento. Está apropriado o conceito de que é gentalha e não dignas de ser aceitas as castas inferiores da sociedade brasileira. São impedidas de ter acesso à educação, saúde, cidadania e prosperidade. Não podem ser solução de um País com tantas carências. Parar de fazer de conta que é aceitável permanecer com essas condições e conseguir se desenvolver assim.