Thomas Mann e o Brasil de hoje, por Urariano Mota

Por toda imprensa brasileira  passou sem notícia o 6 de junho, dia do nascimento de Thomas Mann.

Thomas Mann e o Brasil de hoje

por Urariano Mota

Por toda imprensa brasileira  passou sem notícia o 6 de junho, dia do nascimento de Thomas Mann. Para usar um jargão jornalístico, faltou “gancho”, ou seja, um motivo que justificasse a sua inclusão nos jornais. E no entanto, quando  relacionamos o Brasil de hoje ao fascismo, motivos não faltam para lembrar Thomas Mann.

No livro A Gênese do Doutor Fausto, em que ele explica o seu grande romance Doutor Fausto, ao mesmo tempo em que recebemos lições de literatura, ganhamos a visão de um escritor maduro em combate contra Hitler no exílio. Da Gênese do Doutor Fausto, livro tão fundamental quanto o romance, grifamos:

“Lukács chegou a antecipar as relações entre a novela Morte em Veneza e o Fausto. Sua perspicácia está justamente em utilizar o conceito de ‘sinalizar’, de importância primordial em toda literatura e no conhecimento dela. Creio que esta é a única perspectiva correta: reconhecer o poeta, e também o filósofo, enquanto instrumento de sinalização, sismógrafo, intermediário da sensibilidade”.       

E mais adiante, Thomas Mann copia do seu diário, que documenta o Doutor Fausto:

“Há cinco anos, quando a França caiu, Goebbels divulgou a notícia de minha morte. Ele não podia imaginar que seria diferente. Se eu tivesse levado a sério a falsa vitória de Hitler, se ela de fato me tivesse tocado o coração, realmente nada me restaria além de deixar de existir. Sobreviver significava vencer. Eu tinha lutado e, por ter sobrevivido, respondi aos detratores da humanidade com escárnio e maldição; portanto a vitória foi também pessoal”.

Creio que a relação de Thomas Mann com a resistência a um governo de caráter fascista vai clara. A relação ganha a sua realidade no Brasil dos apoiadores de Bolsonaro, que vão da burguesia aos pobres que reproduzem a ideologia de direita. É necessário e urgente que escritores, jornalistas, artistas de todo gênero, professores, músicos, realizem o que mais sabem fazer em todos os campos, sem quartel: uma grande resistência nos romances, nos livros, nas salas de aula, nos palcos, no cinema, nos shows, até nas redações dos jornais e de toda sorte de mídia mostrando o que representa o abismo deste governo brasileiro.  Falemos do abismo e da sua superação. Está em jogo não só a sorte de toda a gente, mas o nosso papel de tribunos, educadores públicos, artistas dignos do seu povo. Não adianta disfarçar, fazer de conta que tudo continua bem. Pegar leve, como alguns falam. Para lembrar Sócrates, que assim respondeu aos discípulos que o aconselhavam a fugir para evitar o cumprimento de uma condenação injusta: “Não, amigos. Em que lugar a morte não me alcançará?”. O nosso lugar é aqui, já, agora.

Como pergunta Thomas Mann em seu diário: “E o que poderíamos fazer na vida além de dar o máximo de nós mesmos?” Aí está o gancho. Aí vai o motivo para a resistência nestes dias.

7 comentários

  1. Jornal de Santa Catarina: “Por que você não considera o venerado Thomas Mann um grande escritor?
    S. E. Castan: Minha bronca com esse venerado homossexual é exclusivamente pelas mentiras contra a Alemanha que ele lançava através da rádio norte-americana durante a guerra. Uma amostra da propaganda de guerra vociferada por este escritor pode ser lida no artigo

    “Discurso de Thomas Mann em novembro de 1941” http://inacreditavel.com.br/wp/discurso-de-thomas-mann-em-novembro-de-1941/

    Fonte http://inacreditavel.com.br/wp/a-primeira-entrevista-de-s-e-castan/

    Entre outubro de 1940 e novembro de 1945, o escritor alemão Thomas Mann contribui com os esforços da propaganda de guerra aliada, transmitindo boletins pela rádio inglesa BBC a todo o território europeu.

    O vale-tudo durante a guerra

    Ouvintes alemães!

    Quem hoje novamente fala a vocês teve o privilégio de fazer alguma coisa pelo prestígio intelectual da Alemanha no decorrer de sua agora longa vida. Fico agradecido por isso, mas não tenho nenhum direito de me vangloriar, pois foi coisa da providência, e não minha intenção. Nenhum artista constrói sua obra para engrandecer a fama de seu país e de seu povo. A fonte da produtividade é a consciência individual, e mesmo que a simpatia que ela desperta venha beneficiar a nação em cuja língua e tradição se baseia, há acaso demais em jogo para que uma pretensão de reconhecimento se justifique. Vocês, alemães, não deveriam, ainda que quisessem, agradecer-me hoje por minha obra! Ela não foi feita por causa de vocês, e sim por uma necessidade pessoal imperiosa.

    Mas há algo que verdadeiramente aconteceu por causa de vocês, por causa de minha consciência social e não privada, e diariamente cresce minha convicção de que virá o tempo, e ele está cada vez mais próximo, em que vocês vão me agradecer e me ter em mais alta consideração que meus livros de histórias: é o fato de eu ter alertado vocês, enquanto ainda não era muito tarde, contra os poderes abjetos sob cujo jugo vocês estão hoje atrelados sem amparo e que os estão conduzindo a uma ruína inimaginável através de milhares de crimes. Conheci esses poderes, e soube que nada além de catástrofe e miséria para a Alemanha e a Europa podia crescer de sua natureza indescritivelmente infame, enquanto a maioria de vocês, num deslumbramento hoje já certamente inexplicável para vocês mesmos, julgava que eles trariam ordem, beleza e dignidade nacional. Será que não devemos pensar nas palavras de Goethe sobre a “devota nação alemã que só se sente sublime quando toda sua dignidade foi jogada fora”? Eu também os conhecia, meus bons alemães, e o quanto eram falíveis para compreender qual seria a verdadeira honra e a verdadeira dignidade de vocês; e que, em outubro de 1930, contra a minha natureza, eu tenha subido na arena política e, na Sala Beethoven, em Berlim, sob as interrupções dos gritos nazistas, tenha feito um discurso de que, talvez, um ou outro de vocês ainda lembre, que chamei de “Apelo à Razão”, embora na verdade fosse um apelo a uma Alemanha melhor – isso serve hoje, mesmo que tenha sido inútil, para acalmar minha consciência muito mais do que tudo que alcancei e realizei como artista.

    Eu procurava, com minha débeis forças, prevenir o que viria e já estava ali há anos: a guerra – pela qual o mentiroso líder de vocês culpa os judeus, os ingleses, os maçons e sabe Deus quem mais, embora, para qualquer um que quisesse ver, ela fosse certa desde o momento em que eles chegaram ao poder e começaram a construir a máquina com a qual tencionavam destruir a liberdade e a justiça. E que guerra essa em cujos grilhões vocês se contorcem! Uma aventura imprevisível, devastadora e sem esperança, um atoleiro de sangue e crime no qual a Alemanha ameaça naufragar. Como estão as coisas na Alemanha? Vocês acham que nós, aqui de fora, não sabemos tão bem quanto vocês? Embrutecimento e miséria se espalham em torno de vocês. Inescrupulosamente, jovens de 18, 16 anos são oferecidos aos milhares, aos milhões ao Moloch da guerra – não há uma casa na Alemanha que não se lamente por um marido, um filho ou um irmão. O declínio começa.

    Na Rússia, faltam médicos, enfermeiros, remédios. Nos hospitais civis e militares alemães, os feridos graves são colocados ao lado de velhos, enfermos e doentes mentais para morrer com gás – de dois a três mil, assim como contou um médico alemão, em uma única instituição. Assim faz o regime que vocifera quando Roosevelt o acusa de querer aniquilar o cristianismo e toda religião e que afirma conduzir uma cruzada da civilização cristã contra o bolchevismo – o bolchevismo do qual ele próprio é apenas uma variação incomparavelmente mais vulgar.A contrapartida cristã dessas execuções em massa por gás são os “dias de acasalamento”, em que soldados de licença são conduzidos a encontros animalescos com jovens da BDM (Associação das Mulheres Alemãs) para produzir bastardos do Estado que possam servir na próxima guerra. Pode um povo, uma juventude decair mais? Horror e injúria da humanidade, por toda parte. Outrora um Herder recolhia, cheio, de amor, as canções populares das nações. Assim era a Alemanha em sua bondade e grandeza. Hoje, só quer saber de assassinar outros povos e raças, de extermínio estúpido.

    É preciso ter muita fantasia para propagar via rádio tais notícias populares como “dias de acasalamento”. O outro lado da história pode ser lido no artigo http://inacreditavel.com.br/wp/lebensborn-fonte-da-vida/

    Trezentos mil sérvios foram mortos não na guerra, mas depois da guerra com a Sérvia por ordem dessa escória infame que governa vocês. Vocês sabem das coisas indizíveis que aconteceram e acontecem na Rússia, na Polônia e contra os judeus, mas preferem não saber pelo justificado horror diante do ódio igualmente indizível que atinge proporções gigantescas e que um dia, quando seus homens e máquinas perderem as forças, cairá sobre sua cabeças. Sim, o horror diante desse dia é oportuno, e seus líderes tiram proveito disso.

    Eles, que seduziram vocês a cometer todos esses atos vergonhosos, dizem: agora que vocês os cometeram, estão inextricavelmente amarrados a nós; agora vocês devem resistir até o último homem, ou o inferno cairá sobre vocês.

    O inferno, alemães, http://inacreditavel.com.br/wp/dresden-um-holocausto-real/ veio para vocês quando esses líderes vieram. Ao inferno com eles e todos os seus cúmplices. Então ainda poderão ter salvação, paz e liberdade. http://inacreditavel.com.br/wp/8-de-maio-de-1945/

    Thomas Mann fez comprovadamente coro com a propaganda anti Hitler

    Nós todos sabemos a história sobre a Segunda Guerra Mundial. Aquela sobre como “The Good Guys” se uniram para impedir que Adolf Hitler e os grandes alemães ruins (e japoneses) dominassem o mundo.
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    Há apenas um problema com esta versão oficial do evento de mudança de história conhecido como Segunda Guerra Mundial.
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    É mentira!
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    Você consegue lidar com a verdade sobre o que realmente aconteceu? http://tomatobubble.com/worldwarii.html

    O livro de Benton Bradberry , ” O mito da vilania alemã ” de 2012 https://archive.org/details/MythOfGermanVillainyBentonL.Bradberry293 é uma leitura obrigatória – de excelente visão revisionista sobre como o povo alemão foi sistematicamente, implacavelmente e mais importante, injustamente vilipendiado como o arqui-criminoso do século XX.

    Hitler e a Alemanha reconheceram o comunismo mundial, com sua base na União Soviética, como uma ameaça existencial à civilização ocidental e cristã, e ele dedicou a si mesmo e à Alemanha a uma luta mortal contra esta ameaça. Longe de ser o perturbador da paz européia, a Alemanha serviu de baluarte que impediu a revolução comunista de invadir a Europa. Pena que os Estados Unidos e a Grã-Bretanha não viram a Rússia comunista na mesma luz, em última análise, com conseqüências desastrosas para a civilização ocidental. O autor aponta que a Grã-Bretanha e os Estados Unidos se juntaram ao lado errado da guerra.

    Sobre o autor Benton L. Bradberry serviu como oficial e aviador na Marinha dos Estados Unidos de 1955 a 1977, a muito tempo começou a duvidar que a ” propaganda ” contasse toda a história, passou anos pesquisando “ o outro lado da história” e agora escreve um livro sobre isso. O autor é formado pela Escola Naval de Pós-Graduação em Monterey, Califórnia, com um diploma em Ciência Política e Relações Internacionais.

  2. Thomas Mann e outros 92 intelectuais aderiram a um manifesto assumindo a proaganda de guerra em outubro de 1914, conforme Wanderley Gulherme do Santos na matéria “Fora do poder, os liberais odeiam a Democracia” publicado em Conversa Afiada. Olhasse para os EUA da Segunda Guerra com a sagacidade e erudição expostos, entre outros, em “A Montanha Mágica” não faria propaganda tão incolumemente pois veria o quão os EUA eram parecidos à Alemanha que condenava.

  3. É impressionante o nível de ignorância histórica ou falsificação histórica dos comentários contra a obra imortal de THomas Mann. A sua posição na primeira guerra mundial é totalmente distinta da sua evolução antes até da segunda guerra. Mais: Rossevelt era um democrata, que acolheu imigranets comunistas nos Estados Unidos, e francamente contra Hitler. Será difícil pesquisar só um pouquinho? O genial romancista foi perseguido por Hitler. Thomas Mann é um grande clássico da literatura alemã. Além de novelas e romances que nos fazem meditar, ele possui ensaios ótimos sobre Tolstoi, Anton Tchekhov e Goethe. Foi amigos de outro clássico, Hermann Hesse . Mas ele é, acima de tudo, um combatente do front contra a barbárie. Recomendo com entusiasmo o seu Doutor Fausto e A Gênese do Doutor Fausto. Para esse último, nenhum amante sério da literatura pode prescindir do seu conhecimento.

  4. “Assim faz o regime que vocifera quando Roosevelt o acusa de querer aniquilar o cristianismo e toda religião e que afirma conduzir uma cruzada da civilização cristã contra o bolchevismo – o bolchevismo do qual ele próprio é apenas uma variação incomparavelmente mais vulgar.”

  5. Com quantos ganchos se faz uma resistência?

    New York, 25 de março de 1949, Waldorf Astoria Hotel, esquina da Park Avenue com a Cinquantesima avenida. Ultimos preparativos para a Conferência cultural e científica sobre a paz mundial promovida pelo National Council of the Arts, Sciences and Professions; fora do hotel um piquete organizado por associações católicas e reacionários denunciava o evento como uma “cobertura dos reds”: paz e intercâmbio cultural coisa nenhuma, o que eles queriam é manipular a opinião pública estadunidense por dentro. Estavam certos. A conferência foi uma iniciativa do Cominform (Centro de informação entre partidos comunistas e operários, criado em setembro de 1946 para substituir o extinto Comintern).

    — Arthur Miller escreveu: «Quem entrava no Waldorf Astoria era blocado por um fila de freiras que orava pela alma do malaventurado desviado pela sedução de satanás». «O conferencista para entrar no Waldorf tinha que passar entre duas freiras ajoelhadas na calçada, uma de frente pra outra, apertando o portão de ingresso».

    Arriscando uma dedada na bunda passaram entre elas Sidney Hook, o filósofo da New York University acompanhando a escritora Mary McCarthy e seu marido, o jornalista Bowden Broadwater; a escritora Elisabeth Hardwick e o marido, o poeta Robert Lowell; Nicolas Nabokov; o jornalista e crítico Dwight Macdonald; o jornalista italiano Nicola Chiaromonte; Arthur Schlesinger; os diretores da «Partisan Review» William Phillips e Philip Rahv; Arnold Beichmann, um reporter amigo de sindicalistas anticomunistas; Mel Pitzele, especialista de questões sindicais; David Dubinsky, da Ladies’ Garment Workers Union (União sindical das confecções para senhora); Lillian Hellman, Clifford Odets, Leonard Bernstein e Dashiell Hammett. Impropérios mais altos foram reservados ao milionário membro da Ivy League, Corliss Lamont, “sponsor” do evento, filho do presidente do banco de investimentos J.P. Morgan & Co..

    A numerosa delegação soviética foi dirigida por A. A. Fadeev, chefe da União dos escritores soviéticos, que contou também com a participação do compositor Dimitrij Sostakovic. O grande número de “companheiros” presentes no Waldorf Astoria justificava o temor dos ideólogos estadunidenses: o fascínio sedutor do comunismo não fora aquebrantado e o sonho comunista, apesar do stalinismo, perdurava.

    Nos dias da conferência T.S. Eliot enviou telegrama de protesto. John Dos Passos com telegrama ainda mais infuriado, instigou os liberais a desmascarar a tirania soviética «que o despotismo morra do próprio veneno». THOMAS MANN que certa vez observara no anticomunismo «a principal tolice do século XX», ao contrário, enviou um cabograma de apoio. Os debates foram rituais e sonolentos até que um jovem Norman Mailer (qualificado como um Frank Sinatra versão estudante) sacudiu a mesa e acusou tanto a URSS quanto os EUA de politicas agressivas que reduziam drasticamente as possibilidades de coesistência pacífica. «Enquanto houver capitalismo, haverá guerra. A paz será possível com um socialismo justo e digno» e concluiu: Tudo o que um escritor pode fazer é de expor a verdade segundo o seu punto de vista e prosseguir escrevendo».

    A casa veio abaixo. Fora o piquete aumentara de circa mil pessoas, bem equipadas de faixas e cartazes. Um observador se perguntava como fosse possível tanto vagabundo à disposição da extrema direita.

    O fato é que o grande publico estadunidense ignorava que os soviéticos assumiam posições obrigadas. No dia 5 de junho de 1947 o general Marshall ao comando do Estado Maior durante o conflito e agora Secretário de Estado do Truman, anunciava seu plano para enfrentar a “grande crise” pronunciando um discurso de dez minutos em Harvard, admoestando que «o mundo inteiro e o modo de vida que conhecemos até esta data está em perigo». A escolha de Harvard não fora casual. A classe dominante estadunidense de pós guerra era plenamente consciente daquele momento e preparava-se para uma vida dedicada inteiramente ao delito, uns assumindo postos de dirigentes e outros o de “evangelistas” de um longo periodo de conquistas globais que tinham à frente.
    Marshall procurou reforçar a chamada às armas ideológica da Doutrina Truman que fizera apelo com linguagem apocaliptica à nova era de interventismo estadunidense: «Cada nação deve escolher entre modos de vida alternativo. Frequentemente essa escolha não é livre. Um modo é conforme a vontade da maioria […] Outro é conforme a vontade da minoria imposta com a violência sobre a maioria, fundado no terror e na opressão, no controle da imprensa e do rádio, com eleições fraudadas ou blocadas e na supressão das liberdades individuais. A politica estadunidense deva sustentar os povos livres que resistem às tentativas de minorias armadas e pressões externas. Creio que devemos ajudar blá blá blá blá.»

    O calhorda da elite estadunidense de nome Dean Acheson, passado por Harvard, um dos cabeças da falsa aliança com a URSS, fez demonstração da sua trouxa de conhecimentos que hoje podemos chamar “de tipo bolsonariana”. Ele disse aos aratacas do congresso: «Chegamos a um ponto sem precedentes na história. Nem mesmo entre Roma e Cartago existiu tamanha polarização de poder sobre a Terra. E para atrapalhar o meio de campo, duas potências separadas por um intransponível abisso ideológico».
    O fato realmente dramático foi que gangsters assumiram o controle da Casa Branca no governo Truman e não saíram mais de lá.

    No Convênio internacional em ocasião dos 7o anos da OTAN, realizado em Florença em abril passado, Michel Chossudovsky fez exposição histórica mostrando um documento oficial do gabinete de guerra estadunidense hoje de domínio público. Diz ele: «A URSS jamais fora ameaça à Europa Ocidental mas já em 1942, época em que EUA e URSS eram aliados, existia um plano para utilizar a bomba atômica contra a URSS. No dia 15 de setembro de 1945, um mes depois de Hiroshima e Nagazaki, foi redigido um documento no gabinete de guerra dos EUA que programava o bombardeio atômico de 66 grandes áreas urbanas dos soviéticos para destruir a inteira população urbana da URSS com 204 (duzentas e quatro) bombas atômicas sobre 66 grandes cidades.»

    Chossudovsky em 00:36:45 – link video:
    https://www.youtube.com/watch?time_continue=2&v=tw7UbPyGdT4

    «Para mim, todavia, a conferência era o esforço de tocar pra frente uma boa tradição que agora era ameaçada — escrevia Arthur Miller — os quatro anos da nossa aliança militar contra as potências do Eixo representaram apenas uma trégua em respeito às hostilidades iniciadas em 1917 com a revolução e que foram retomadas imediatamente após a destruição das armadas de Hitler (ao custo de 20 milhões de mortos russos). Ninguém duvida. Sem a resistência soviética o nazismo teria conquistado a Europa, Inglaterra inclusa, com o governo dos EUA, na melhor hipótese, existir no isolacionismo ou, na pior, e bem mais certa, aceitar um cômodo acordo com o nazifascismo»

    Pearl Harbour deixou na memória coletiva ocidental a imagem dos EUA antifascista, terra de asilo para intelectuais e artistas fugitivos do nazifascismo, mas essa é versão literária e cinematográfica corrigida e revista da realidade: um numeroso grupo de senadores do West, entre os quais Burton Weeler do Montana e William Borah do Idaho, se opunham tenazmente a qualquer programa de reamarmento em auxílio da Inglaterra contra Hitler.

    Padre Coughlin, católico, tranferiu-se nos anos Vinte do Canadá para Detroit e com enorme popularidade radiofônica conquistou dezenas de milhões de ouvintes de rádio sustentando Hitler e Mussolini e atacando os «banqueiros hebreus», chegando a criar um partido político, o Union Party, que teve vida breve mas obteve cerca de 2 por cento dos votos nas presidenciais de 1936. Se Hitler vencesse a guerra, seus simpatizantes estadunidenses, entre eles o seu maior industrial, Henry Ford, e o seu herói nacional, Charles Lindbergh, que não escondiam simpatias pelo regime nazista seriam estimulados a liderar um movimento nazifascista na América.

    «Em 1938, um dos executivos da General Motors, James Mooney, foi condecorado por Hitler. Os nazistas estavam agradecidos. Como disse Bradford Snell, procurador do governo dos EUA, “a GM foi parte integrante do esforço de guerra alemão. Os nazistas não poderiam ter invadido a Polônia e a Rússia sem a GM”. Até hoje, por sinal, a GM se recusa a abrir ao público os seus arquivos da época da guerra», (trecho de “O dia em que Barak Obama despediu o presidente da GM”, Michael Moore, março de 2009).

    Novembro de 1941 – Poucos dias antes dos EUA entrarem na guerra o presidente F.D. Roosvelt baixava o porrete num grupo de industriais seus compatriotas: «mesquinhos e tratantes preocupados unicamente com seus lucros excepcionais. Um bando de mequetréfes “que não estão nem aí” e seguem o próprio business indiferentes a tudo». Naquele mesmo ano operavam 553 empresas estadunidenses na Alemanha nazista, marcas celebres como Coca-Cola, Kodak, American Express, etc. Nenhuma delas era hostil à Hitler, ao contrário, mantinham estreitissimas relações comerciais com os nazi.
    Dirigentes de quatro grandes colossos estadunidenses — GM, Standard Oil, Ford, IBM com as relativas filiais alemãs —, eram considerados amigos do Reich.

    Nos anos Trinta e com a guerra já iniciada, alguns desses grupos industriais tinham estabelecido um pacto de colaboração com Hitler. Foi o caso da Standard Oil, parte do império da criminosa familia Rockefeller (aliada dos grandes banqueiros alemães Warburg, com o beneplácito dos ainda maiores Rothschild), os Rockefeller operavam no mundo sem distinguir democracia ou feroz ditadura. O objetivo deles era criar o monopólio no planeta.

    Em agosto de 1936 Goering discursa em Berlin: «Não tínhamos carburante e contruimos fábricas de carburante; Não tínhamos borracha e construimos fábricas de borracha. Os EUA pensam de haver o monopólio mas a ciência alemã rompeu esse monopólio e hoje possuímos os meios necessários para derrotar o inimigo». Dois anos depois daquele discurso a Alemanha ainda importava 80% do seu petróleo. Goering fizera publicamente a figura de merda, expondo-se antes do tempo: subestimara o chumbo tetraetila, um aditivo para gasolina aeronáutica; sem esse ingrediente a força aérea do Reich não saía do chão e Hitler queria a Luftwaffe pronta pra anteontem. A Standard Oil era o primeiro produtor mundial de chumbo tetraetila.

    Adolf Hitler telefonou pro Hermann Goering que telefonou pro Hermann Schmitz, presidente do colosso quimico alemão IG-Farben, que telefonou pro Walter C. Teagle, manager da Standard, pedindo o know how para iniciar a carissima produção do “jabá sintético”. — Negócio fechado — mas ainda assim em julho de 1938 a produção era insuficiente e somente uma estocagem rápida colocaria o Terceiro Reich a salvo de imprevistos. A filial inglesa da Standard Oil imediatamente forneceu o material por um valor de 20 bilhões de dólares. Hitler pagou, agradeceu e invadiu a Polonia. Pouco antes dessa invasão os ingleses tinham feito entrega suplementar desse aditivo químico no valor de outros $ 15 bilhões. Hitler pagou, agradeceu e armou o barraco na Checoslovaquia. (Detalhe importante que interessa exclusivamente aos ingleses: durante a batalha da Inglaterra os primeiros raids aéreos sobre Londres foram possíveis graças àquela entrega suplementar da filial inglesa da Standard Oil. A BBC faria hoje um documentário sobre isso para cobrar as consequências políticas desse crime hediondo de traição? E’ crime prescrito? São águas passadas? Julian Assange revelou-nos as atrocidades do Governo USA mentiroso e o acusam de traição, sem direito à defesa. Crime de guerra sem prescrição. Dizem que ele não é jornalista. Será abatido ou morrerá na prisão. Os ingleses vão deixar que isso aconteça com ele?).

    A Alemanha continuava dependendo desesperadamente da importação do petróleo e mais uma vez recorreu ao amigo Rockefeller que possuia cerca da metade dos direitos das jazidas de Plesti na Romania, a fonte de petróleo mais importante para os alemães.

    O alemão Tobias Jersak, histórico da economia, faz saber que no arquivo militar de Friburgo estão arquivadas cartas e documentos que provam que os nazistas tinham urgência de receber brightstock mesmo com a guerra em curso. Somente os EUA tinham condições de fornecer esse material e os documentos atestam que forneceram na quantidade solicitada pelas autoridades nazistas. O brightstock é um derivado de petrólio muito precioso, usado também no motor dos tanques.

    Para serenizar o sono dos amigos nazistas (aflitos de pesadelos com o bloqueio naval inglês) Rockefeller dá ordens de esconder petróleo no litoral venezuelano. As petroleiras batem bandeira panamense. Os navios ingleses do bloqueio estacionavam no Atlantico. Passando por Tenerife e outros portos espanhois o diesel dos Rockefeller consegue driblar até o serviço secreto de Sua Majestade. Na calada da noite, navios cisterna no mais absoluto blackout reabasteciam os U-boat alemães diretamente no mar, diante da costa espanhola. Era o que Hitler precisava para dominar e criar o terror no Atlantico. E criou. Hollywood teria coragem de mostrar isso em filme?

    O Japão ataca Pearl Harbor, a Standard Oil prossegue fornecendo combustível aos alemães enquanto o mercado interno estadunidense funciona na base do racionamento duro. Truman, sob pressão da opinião pública americana é obrigado a instituir uma comissão de inquérito e põe Thurman W. Arnold do ministério da justiça no rastro da Standard. Durante a audição no senado, Arnold acusa a Standard Oil de alta conspiração e complot reiterado ao dano dos EUA, das vítimas dos nazistas e em benefício exclusivo de Hitler. Sucessivamente, noutra conferência com jornalistas o Truman fazendo cara de chateado usou a palavra “traição”. Mas tudo acabou em pizza porque as Cortes Supremas e Supremos Tribunais Federais existem para proteger os grandes bandidos, principalmente os banqueiros.

    No início dos anos Trinta a Opel Blitz de Brandenburg, espinha dorsal da Wehrmacht e subsidiária da General Motors, deu início à fabricação de caminhões com financiamento —direto— estadunidense. Graças aos caminhões Opel Blitz e sobretudo ao manager James D. Mooney, vice-presidente da GM alemã, Hitler entra triunfalmente em Viena. A Opel (com financiamento —direto— estadunidense), converte parte da sua produção na construção da fuselagem e do motor do mais aterrorizante bombardeiro de Hitler, o Junker 88. Foi Mooney que viabilizou o acordo direto entre a Opel (GM) e a Luftwaffe. Por isso foi condecorado pessoalmente por Hitler com o título honorífico de Gran Mestre da Malvadeza e Cavaleiro da Ordem do Passaralho Teutônico (que pronunciado com sotaque alemão incute respeito). NOTA – Em 1941 a GM recusara uma oferta de venda da Opel feita pelos alemães justificando total identificação com a sorte da Alemanha (conversa fiada, era para não pagar imposto nos EUA pelo dinheiro da venda).
    A guerra terminou. Eleanor Roosvelt ficou sabendo da putaria. Honrando o finado marido, escreveu indignada no New York Times: «certas maracutaias e mutretas são lesivas do nosso patriotismo e do nosso senso ético». Moral dessa história: sem o capital estadunidense Hitler não teria —de forma alguma— iniciado a Segunda Guerra Mundial.

    Brasil, 1958 – A Carteira de Comércio Exterior do Banco do Brasil – CACEX, anunciou que estudaria a proposta soviética para trocar cacau por duzentas mil toneladas de petróleo. Eisenhower soube e foi ao médico pra curar-se das orticárias. O Wall Street Journal desaprovava o silêncio da imprensa brasileira contra aquelas negociações. Uma delegação de judeus estadunidenses sugeriu ao Governo USA um programa econômico e cultural para combater o perigo iminente da infiltração comunista. A extrema direita no Brasil procurava manter o clima de guerra fria. Os Cardeais D. Jaime de Barros Camara atacava o nacionalismo vermelho e condenava o estabelecimento de relações com socialistas e D.Vincente Scherer acusava Luis Carlos Prestes de falso nacionalista mancomunado com o capeta. O Coronel Danilo Nunes, diretor da Divisão de Policia Politica e Social, recebeu muitas denúncias de casais que avistaram submarinos soviéticos na Barra da Tijuca em noite de lua cheia, como no filme 1941 do Steven Spielberg, onde um piloto da Guarda Nacional (John Belush) passava o tempo esperando submarinos japoneses nas praias de Los Angeles. O coronel Nunes chegou a entregar ao Itamarati um relatório desaconselhando o restabelecimento de relações com os russos. A Embaixadora Odete de Carvalho e Souza, sabotava por dentro, todas as iniciativas de aproximação dos países socialistas.

    Era caça às bruxas: eram seguidos os frequentadores dos parques de diversões que preferiam a montanha russa; jornalistas esportivos que viajavam para paises da Cortina de Ferro e torciam abertamente pela União Soviética eram fichados; teve o caso do funcionário público aposentado de 63 anos que em 1937 abandonara a mulher para se amasiar com uma ucraniana cujo o tio, nascido no Uzbequistão era do KGB e integrava delegações russas.

    John Kennedy sai de cena. O novo presidente Lyndon Johnson nomeia THOMAS MANN para o cargo de Secretário de Estado Assistente para assuntos interamericanos que reitera a orientação de JFK, determinando à Embaixada Estadunidense que ativasse a distribuição de verbas da Aliança para o Progresso entre Governadores de Estado contrários ao Presidente João Goulart, os mais eficientes, conforme suas palavras. Seu objetivo como ele mesmo confessou, era financiar a democracia, não permitindo, porém que qualquer recurso beneficiasse o balanço de pagamentos do Brasil ou o orçamento federal. «Em janeiro, quando assumi o cargo, até mesmo antes, estávamos conscientes de que o Comunismo estava corroendo o Governo Goulart, de forma rápida, e antes de chegar ao cargo já tínhamos uma política destinada a ajudar os Governadores de certos Estados» — Declaração de THOMAS MANN, publicada no Correio da Manhã, 19. 06. 1964.

    As atividades da Embaixada dos Estados Unidos tomaram ostensivamente o caráter de aliciamento e de corrupção, com o objetivo de formar ela própria uma clientela dentro do Brasil. Goulart instruiu ao Itamarati que comunicasse ao Departamento de Estado sua disposição de não mais tolerar aqueles entendimentos que atentavam contra a soberania nacional e a unidade da Federação. O Governo dos Estados Unidos não mais disfarçava sua agressividade.

    Numa reunião com especialistas de questões latino-americanas, THOMAS MANN atacou os politicos inescrupulosos, demagogos que visavam a fins eleitorais, cujos esforços para se colocarem entre o mundo livre e o bloco comunista poderiam levá-los à posição do marisco que se debate entre o mar e o rochedo. Os EUA, salientou, não ajudariam os países que mantinham relações com Havana e desencorajavam os capitais privados, violando convênios vigentes e discriminando sob o manto de um falso nacionalismo, os investimentos estrangeiros. Lamentou por fim que alguns países aos quais os Estados Unidos destinaram centeans de milhões de dólares para desenvolvimento de indústria de base e extração de minerais, anulassem os contratos, sem pagar indenizações, juros e outros encargos. E concluiu: «Na nossa política devemos resolver também esses casos gritantes»

    «Desde os tempos dos desembarques de fuzileiros, nenhum representante do Governo estadunidense proferiu ameaça tão clara e objetiva de intervenção em assuntos internos dos países da América Latina» Osny Duarte Pereira, O Departamento de Estado e o Presidente João Goulart, in O Semanário, n°374, 5 a 11. 03.1964, p. 6.

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    Fontes:

    Moniz Bandeira, Presença dos EUA no Brasil
    Frances Stonor Saunders, Who Paid the Piper? The Cia and the Cultural Cold War
    Dieter e Joachim Schroder, “Hitler e as Indústrias Americanas”, transmitido pela italiana RAI Educational (La Storia Siamo Noi) — citei passagens da Standard Oil e da General Motors. Ficaram de fora IBM e Ford para não ficar ainda mais comprido.

  6. Com quantos ganchos se faz uma resistência?

    New York, 25 de março de 1949, Waldorf Astoria Hotel, esquina da Park Avenue com a Cinquantesima avenida. Ultimos preparativos para a Conferência cultural e científica sobre a paz mundial promovida pelo National Council of the Arts, Sciences and Professions; fora do hotel um piquete organizado por associações católicas e reacionários denunciava o evento como uma “cobertura dos reds”: paz e intercâmbio cultural coisa nenhuma, o que eles queriam é manipular a opinião pública estadunidense por dentro. Estavam certos. A conferência foi uma iniciativa do Cominform (Centro de informação entre partidos comunistas e operários, criado em setembro de 1946 para substituir o extinto Comintern).

    — Arthur Miller escreveu: «Quem entrava no Waldorf Astoria era blocado por um fila de freiras que orava pela alma do malaventurado desviado pela sedução de satanás». «O conferencista para entrar no Waldorf tinha que passar entre duas freiras ajoelhadas na calçada, uma de frente pra outra, apertando o portão de ingresso».

    Arriscando uma dedada na bunda passaram entre elas Sidney Hook, o filósofo da New York University acompanhando a escritora Mary McCarthy e seu marido, o jornalista Bowden Broadwater; a escritora Elisabeth Hardwick e o marido, o poeta Robert Lowell; Nicolas Nabokov; o jornalista e crítico Dwight Macdonald; o jornalista italiano Nicola Chiaromonte; Arthur Schlesinger; os diretores da «Partisan Review» William Phillips e Philip Rahv; Arnold Beichmann, um reporter amigo de sindicalistas anticomunistas; Mel Pitzele, especialista de questões sindicais; David Dubinsky, da Ladies’ Garment Workers Union (União sindical das confecções para senhora); Lillian Hellman, Clifford Odets, Leonard Bernstein e Dashiell Hammett. Impropérios mais altos foram reservados ao milionário membro da Ivy League, Corliss Lamont, “sponsor” do evento, filho do presidente do banco de investimentos J.P. Morgan & Co..

    A numerosa delegação soviética foi dirigida por A. A. Fadeev, chefe da União dos escritores soviéticos, que contou também com a participação do compositor Dimitrij Sostakovic. O grande número de “companheiros” presentes no Waldorf Astoria justificava o temor dos ideólogos estadunidenses: o fascínio sedutor do comunismo não fora aquebrantado e o sonho comunista, apesar do stalinismo, perdurava.

    Nos dias da conferência T.S. Eliot enviou telegrama de protesto. John Dos Passos com telegrama ainda mais infuriado, instigou os liberais a desmascarar a tirania soviética «que o despotismo morra do próprio veneno». THOMAS MANN que certa vez observara no anticomunismo «a principal tolice do século XX», ao contrário, enviou um cabograma de apoio. Os debates foram rituais e sonolentos até que um jovem Norman Mailer (qualificado como um Frank Sinatra versão estudante) sacudiu a mesa e acusou tanto a URSS quanto os EUA de politicas agressivas que reduziam drasticamente as possibilidades de coesistência pacífica. «Enquanto houver capitalismo, haverá guerra. A paz será possível com um socialismo justo e digno» e concluiu: Tudo o que um escritor pode fazer é de expor a verdade segundo o seu punto de vista e prosseguir escrevendo».

    A casa veio abaixo. Fora o piquete aumentara de circa mil pessoas, bem equipadas de faixas e cartazes. Um observador se perguntava como fosse possível tanto vagabundo à disposição da extrema direita.

    O fato é que o grande publico estadunidense ignorava que os soviéticos assumiam posições obrigadas. No dia 5 de junho de 1947 o general Marshall ao comando do Estado Maior durante o conflito e agora Secretário de Estado do Truman, anunciava seu plano para enfrentar a “grande crise” pronunciando um discurso de dez minutos em Harvard, admoestando que «o mundo inteiro e o modo de vida que conhecemos até esta data está em perigo». A escolha de Harvard não fora casual. A classe dominante estadunidense de pós guerra era plenamente consciente daquele momento e preparava-se para uma vida dedicada inteiramente ao delito, uns assumindo postos de dirigentes e outros o de “evangelistas” de um longo periodo de conquistas globais que tinham à frente.
    Marshall procurou reforçar a chamada às armas ideológica da Doutrina Truman que fizera apelo com linguagem apocaliptica à nova era de interventismo estadunidense: «Cada nação deve escolher entre modos de vida alternativo. Frequentemente essa escolha não é livre. Um modo é conforme a vontade da maioria […] Outro é conforme a vontade da minoria imposta com a violência sobre a maioria, fundado no terror e na opressão, no controle da imprensa e do rádio, com eleições fraudadas ou blocadas e na supressão das liberdades individuais. A politica estadunidense deva sustentar os povos livres que resistem às tentativas de minorias armadas e pressões externas. Creio que devemos ajudar blá blá blá blá.»

    O calhorda da elite estadunidense de nome Dean Acheson, passado por Harvard, um dos cabeças da falsa aliança com a URSS, fez demonstração da sua trouxa de conhecimentos que hoje podemos chamar “de tipo bolsonariana”. Ele disse aos aratacas do congresso: «Chegamos a um ponto sem precedentes na história. Nem mesmo entre Roma e Cartago existiu tamanha polarização de poder sobre a Terra. E para atrapalhar o meio de campo, duas potências separadas por um intransponível abisso ideológico».
    O fato realmente dramático foi que gangsters assumiram o controle da Casa Branca no governo Truman e não saíram mais de lá.

    No Convênio internacional em ocasião dos 7o anos da OTAN, realizado em Florença em abril passado, Michel Chossudovsky fez exposição histórica mostrando um documento oficial do gabinete de guerra estadunidense hoje de domínio público. Diz ele: «A URSS jamais fora ameaça à Europa Ocidental mas já em 1942, época em que EUA e URSS eram aliados, existia um plano para utilizar a bomba atômica contra a URSS. No dia 15 de setembro de 1945, um mes depois de Hiroshima e Nagazaki, foi redigido um documento no gabinete de guerra dos EUA que programava o bombardeio atômico de 66 grandes áreas urbanas dos soviéticos para destruir a inteira população urbana da URSS com 204 (duzentas e quatro) bombas atômicas sobre 66 grandes cidades.»

    Chossudovsky em 00:36:45 – link video:
    https://www.youtube.com/watch?time_continue=2&v=tw7UbPyGdT4

    «Para mim, todavia, a conferência era o esforço de tocar pra frente uma boa tradição que agora era ameaçada — escrevia Arthur Miller — os quatro anos da nossa aliança militar contra as potências do Eixo representaram apenas uma trégua em respeito às hostilidades iniciadas em 1917 com a revolução e que foram retomadas imediatamente após a destruição das armadas de Hitler (ao custo de 20 milhões de mortos russos). Ninguém duvida. Sem a resistência soviética o nazismo teria conquistado a Europa, Inglaterra inclusa, com o governo dos EUA, na melhor hipótese, existir no isolacionismo ou, na pior, e bem mais certa, aceitar um cômodo acordo com o nazifascismo»

    Pearl Harbour deixou na memória coletiva ocidental a imagem dos EUA antifascista, terra de asilo para intelectuais e artistas fugitivos do nazifascismo, mas essa é versão literária e cinematográfica corrigida e revista da realidade: um numeroso grupo de senadores do West, entre os quais Burton Weeler do Montana e William Borah do Idaho, se opunham tenazmente a qualquer programa de reamarmento em auxílio da Inglaterra contra Hitler.

    Padre Coughlin, católico, tranferiu-se nos anos Vinte do Canadá para Detroit e com enorme popularidade radiofônica conquistou dezenas de milhões de ouvintes de rádio sustentando Hitler e Mussolini e atacando os «banqueiros hebreus», chegando a criar um partido político, o Union Party, que teve vida breve mas obteve cerca de 2 por cento dos votos nas presidenciais de 1936. Se Hitler vencesse a guerra, seus simpatizantes estadunidenses, entre eles o seu maior industrial, Henry Ford, e o seu herói nacional, Charles Lindbergh, que não escondiam simpatias pelo regime nazista seriam estimulados a liderar um movimento nazifascista na América.

    «Em 1938, um dos executivos da General Motors, James Mooney, foi condecorado por Hitler. Os nazistas estavam agradecidos. Como disse Bradford Snell, procurador do governo dos EUA, “a GM foi parte integrante do esforço de guerra alemão. Os nazistas não poderiam ter invadido a Polônia e a Rússia sem a GM”. Até hoje, por sinal, a GM se recusa a abrir ao público os seus arquivos da época da guerra», (trecho de “O dia em que Barak Obama despediu o presidente da GM”, Michael Moore, março de 2009).

    Novembro de 1941 – Poucos dias antes dos EUA entrarem na guerra o presidente F.D. Roosvelt baixava o porrete num grupo de industriais seus compatriotas: «mesquinhos e tratantes preocupados unicamente com seus lucros excepcionais. Um bando de mequetréfes “que não estão nem aí” e seguem o próprio business indiferentes a tudo». Naquele mesmo ano operavam 553 empresas estadunidenses na Alemanha nazista, marcas celebres como Coca-Cola, Kodak, American Express, etc. Nenhuma delas era hostil à Hitler, ao contrário, mantinham estreitissimas relações comerciais com os nazi.
    Dirigentes de quatro grandes colossos estadunidenses — GM, Standard Oil, Ford, IBM com as relativas filiais alemãs —, eram considerados amigos do Reich.

    Nos anos Trinta e com a guerra já iniciada, alguns desses grupos industriais tinham estabelecido um pacto de colaboração com Hitler. Foi o caso da Standard Oil, parte do império da criminosa familia Rockefeller (aliada dos grandes banqueiros alemães Warburg, com o beneplácito dos ainda maiores Rothschild), os Rockefeller operavam no mundo sem distinguir democracia ou feroz ditadura. O objetivo deles era criar o monopólio no planeta.

    Em agosto de 1936 Goering discursa em Berlin: «Não tínhamos carburante e contruimos fábricas de carburante; Não tínhamos borracha e construimos fábricas de borracha. Os EUA pensam de haver o monopólio mas a ciência alemã rompeu esse monopólio e hoje possuímos os meios necessários para derrotar o inimigo». Dois anos depois daquele discurso a Alemanha ainda importava 80% do seu petróleo. Goering fizera publicamente a figura de merda, expondo-se antes do tempo: subestimara o chumbo tetraetila, um aditivo para gasolina aeronáutica; sem esse ingrediente a força aérea do Reich não saía do chão e Hitler queria a Luftwaffe pronta pra anteontem. A Standard Oil era o primeiro produtor mundial de chumbo tetraetila.

    Adolf Hitler telefonou pro Hermann Goering que telefonou pro Hermann Schmitz, presidente do colosso quimico alemão IG-Farben, que telefonou pro Walter C. Teagle, manager da Standard, pedindo o know how para iniciar a carissima produção do “jabá sintético”. — Negócio fechado — mas ainda assim em julho de 1938 a produção era insuficiente e somente uma estocagem rápida colocaria o Terceiro Reich a salvo de imprevistos. A filial inglesa da Standard Oil imediatamente forneceu o material por um valor de 20 bilhões de dólares. Hitler pagou, agradeceu e invadiu a Polonia. Pouco antes dessa invasão os ingleses tinham feito entrega suplementar desse aditivo químico no valor de outros $ 15 bilhões. Hitler pagou, agradeceu e armou o barraco na Checoslovaquia. (Detalhe importante que interessa exclusivamente aos ingleses: durante a batalha da Inglaterra os primeiros raids aéreos sobre Londres foram possíveis graças àquela entrega suplementar da filial inglesa da Standard Oil. A BBC faria hoje um documentário sobre isso para cobrar as consequências políticas desse crime hediondo de traição? E’ crime prescrito? São águas passadas? Julian Assange revelou-nos as atrocidades do Governo USA mentiroso e o acusam de traição, sem direito à defesa. Crime de guerra sem prescrição. Dizem que ele não é jornalista. Será abatido ou morrerá na prisão. Os ingleses vão deixar que isso aconteça com ele?).

    A Alemanha continuava dependendo desesperadamente da importação do petróleo e mais uma vez recorreu ao amigo Rockefeller que possuia cerca da metade dos direitos das jazidas de Plesti na Romania, a fonte de petróleo mais importante para os alemães.

    O alemão Tobias Jersak, histórico da economia, faz saber que no arquivo militar de Friburgo estão arquivadas cartas e documentos que provam que os nazistas tinham urgência de receber brightstock mesmo com a guerra em curso. Somente os EUA tinham condições de fornecer esse material e os documentos atestam que forneceram na quantidade solicitada pelas autoridades nazistas. O brightstock é um derivado de petrólio muito precioso, usado também no motor dos tanques.

    Para serenizar o sono dos amigos nazistas (aflitos de pesadelos com o bloqueio naval inglês) Rockefeller dá ordens de esconder petróleo no litoral venezuelano. As petroleiras batem bandeira panamense. Os navios ingleses do bloqueio estacionavam no Atlantico. Passando por Tenerife e outros portos espanhois o diesel dos Rockefeller consegue driblar até o serviço secreto de Sua Majestade. Na calada da noite, navios cisterna no mais absoluto blackout reabasteciam os U-boat alemães diretamente no mar, diante da costa espanhola. Era o que Hitler precisava para dominar e criar o terror no Atlantico. E criou. Hollywood teria coragem de mostrar isso em filme?

    O Japão ataca Pearl Harbor, a Standard Oil prossegue fornecendo combustível aos alemães enquanto o mercado interno estadunidense funciona na base do racionamento duro. Truman, sob pressão da opinião pública americana é obrigado a instituir uma comissão de inquérito e põe Thurman W. Arnold do ministério da justiça no rastro da Standard. Durante a audição no senado, Arnold acusa a Standard Oil de alta conspiração e complot reiterado ao dano dos EUA, das vítimas dos nazistas e em benefício exclusivo de Hitler. Sucessivamente, noutra conferência com jornalistas o Truman fazendo cara de chateado usou a palavra “traição”. Mas tudo acabou em pizza porque as Cortes Supremas e Supremos Tribunais Federais existem para proteger os grandes bandidos, principalmente os banqueiros.

    No início dos anos Trinta a Opel Blitz de Brandenburg, espinha dorsal da Wehrmacht e subsidiária da General Motors, deu início à fabricação de caminhões com financiamento —direto— estadunidense. Graças aos caminhões Opel Blitz e sobretudo ao manager James D. Mooney, vice-presidente da GM alemã, Hitler entra triunfalmente em Viena. A Opel (com financiamento —direto— estadunidense), converte parte da sua produção na construção da fuselagem e do motor do mais aterrorizante bombardeiro de Hitler, o Junker 88. Foi Mooney que viabilizou o acordo direto entre a Opel (GM) e a Luftwaffe. Por isso foi condecorado pessoalmente por Hitler com o título honorífico de Gran Mestre da Malvadeza e Cavaleiro da Ordem do Passaralho Teutônico (que pronunciado com sotaque alemão incute respeito). NOTA – Em 1941 a GM recusara uma oferta de venda da Opel feita pelos alemães justificando total identificação com a sorte da Alemanha (conversa fiada, era para não pagar imposto nos EUA pelo dinheiro da venda).
    A guerra terminou. Eleanor Roosvelt ficou sabendo da putaria. Honrando o finado marido, escreveu indignada no New York Times: «certas maracutaias e mutretas são lesivas do nosso patriotismo e do nosso senso ético». Moral dessa história: sem o capital estadunidense Hitler não teria —de forma alguma— iniciado a Segunda Guerra Mundial.

    Brasil, 1958 – A Carteira de Comércio Exterior do Banco do Brasil – CACEX, anunciou que estudaria a proposta soviética para trocar cacau por duzentas mil toneladas de petróleo. Eisenhower soube e foi ao médico pra curar-se das orticárias. O Wall Street Journal desaprovava o silêncio da imprensa brasileira contra aquelas negociações. Uma delegação de judeus estadunidenses sugeriu ao Governo USA um programa econômico e cultural para combater o perigo iminente da infiltração comunista. A extrema direita no Brasil procurava manter o clima de guerra fria. Os Cardeais D. Jaime de Barros Camara atacava o nacionalismo vermelho e condenava o estabelecimento de relações com socialistas e D.Vincente Scherer acusava Luis Carlos Prestes de falso nacionalista mancomunado com o capeta. O Coronel Danilo Nunes, diretor da Divisão de Policia Politica e Social, recebeu muitas denúncias de casais que avistaram submarinos soviéticos na Barra da Tijuca em noite de lua cheia, como no filme 1941 do Steven Spielberg, onde um piloto da Guarda Nacional (John Belush) passava o tempo esperando submarinos japoneses nas praias de Los Angeles. O coronel Nunes chegou a entregar ao Itamarati um relatório desaconselhando o restabelecimento de relações com os russos. A Embaixadora Odete de Carvalho e Souza, sabotava por dentro, todas as iniciativas de aproximação dos países socialistas.

    Era caça às bruxas: eram seguidos os frequentadores dos parques de diversões que preferiam a montanha russa; jornalistas esportivos que viajavam para paises da Cortina de Ferro e torciam abertamente pela União Soviética eram fichados; teve o caso do funcionário público aposentado de 63 anos que em 1937 abandonara a mulher para se amasiar com uma ucraniana cujo o tio, nascido no Uzbequistão era do KGB e integrava delegações russas.

    John Kennedy sai de cena. O novo presidente Lyndon Johnson nomeia THOMAS MANN para o cargo de Secretário de Estado Assistente para assuntos interamericanos que reitera a orientação de JFK, determinando à Embaixada Estadunidense que ativasse a distribuição de verbas da Aliança para o Progresso entre Governadores de Estado contrários ao Presidente João Goulart, os mais eficientes, conforme suas palavras. Seu objetivo como ele mesmo confessou, era financiar a democracia, não permitindo, porém que qualquer recurso beneficiasse o balanço de pagamentos do Brasil ou o orçamento federal. «Em janeiro, quando assumi o cargo, até mesmo antes, estávamos conscientes de que o Comunismo estava corroendo o Governo Goulart, de forma rápida, e antes de chegar ao cargo já tínhamos uma política destinada a ajudar os Governadores de certos Estados» — Declaração de THOMAS MANN, publicada no Correio da Manhã, 19. 06. 1964.

    As atividades da Embaixada dos Estados Unidos tomaram ostensivamente o caráter de aliciamento e de corrupção, com o objetivo de formar ela própria uma clientela dentro do Brasil. Goulart instruiu ao Itamarati que comunicasse ao Departamento de Estado sua disposição de não mais tolerar aqueles entendimentos que atentavam contra a soberania nacional e a unidade da Federação. O Governo dos Estados Unidos não mais disfarçava sua agressividade.

    Numa reunião com especialistas de questões latino-americanas, THOMAS MANN atacou os politicos inescrupulosos, demagogos que visavam a fins eleitorais, cujos esforços para se colocarem entre o mundo livre e o bloco comunista poderiam levá-los à posição do marisco que se debate entre o mar e o rochedo. Os EUA, salientou, não ajudariam os países que mantinham relações com Havana e desencorajavam os capitais privados, violando convênios vigentes e discriminando sob o manto de um falso nacionalismo, os investimentos estrangeiros. Lamentou por fim que alguns países aos quais os Estados Unidos destinaram centeans de milhões de dólares para desenvolvimento de indústria de base e extração de minerais, anulassem os contratos, sem pagar indenizações, juros e outros encargos. E concluiu: «Na nossa política devemos resolver também esses casos gritantes»

    «Desde os tempos dos desembarques de fuzileiros, nenhum representante do Governo estadunidense proferiu ameaça tão clara e objetiva de intervenção em assuntos internos dos países da América Latina» Osny Duarte Pereira, O Departamento de Estado e o Presidente João Goulart, in O Semanário, n°374, 5 a 11. 03.1964, p. 6.

    —–
    Fontes:

    Moniz Bandeira, Presença dos EUA no Brasil
    Frances Stonor Saunders, Who Paid the Piper? The Cia and the Cultural Cold War
    Dieter e Joachim Schroder, “Hitler e as Indústrias Americanas”, transmitido pela italiana RAI Educational (La Storia Siamo Noi) — citei passagens da Standard Oil e da General Motors. Ficaram de fora IBM e Ford para não ficar ainda mais comprido.

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