6 de junho de 2026

Uma heroína brasileira, por Homero Fonseca

No Dia da Mulher, a história de Francisca de Souza e seu filho vulnerável.

Uma heroína brasileira

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por Homero Fonseca

A cearense Francisca de Souza é uma trabalhadora, analfabeta, mãe solo, moradora no Morro Santa Marta, no Rio. Numa reportagem na tevê[1], ela contou sua saga para criar o filho Amaury:

– Eu sou mãe e pai, desde que ele nasceu. Você não imagina a gente criar um filho numa favela. Eu era uma mãe desesperada. Ele chegava da rua, eu cheirava a roupa dele. Antes dele sair, eu olhava a mochila dele todinha. Tinha medo dele se envolver… você sabe, né? Se eu visse que tava entrando… ia ser no cacete, ia ser mesmo.

Assim, em poucas palavras, ela desvenda, calmamente, um drama extensivo a milhões de mulheres, Brasil a fora.

Sabia que a educação era uma das poucas vias para a salvação do rapaz. Instintivamente, deduzia que um livro, esse objeto misterioso, poderia ser a porta para um mundo melhor. Mas não tinha dinheiro pra comprar um. Até que um dia criou coragem e falou pra patroa:

– A senhora não tem um livro aí pra ele ler, não? Ela disse: pode levar o tanto que você quiser. Eu até chorei de alegria nesse dia, sabe?

Felizmente, o rapaz foi fisgado pelos livros e se enfiou nos estudos. Na pequena casa em que vivem na favela, não tem janelas, mas tem uma estante estufada. Hoje, ele contabiliza que lê uma média de 5 livros por mês, ou 60 por ano.

– Quando ele tinha um curso pra fazer, se fosse muito caro, eu ia lá, contava pra pessoa a minha situação, chorava, até que aquela pessoa dona do curso se comovia…

Resultado: o filho está numa Faculdade de Cinema e já faz alguns trabalhos profissionais, melhorando a renda da família.

É bonita a maneira como ele retribui o esforço da mãe, falando assim:

– Quando fizemos o vestibular…

O plural aí é ele e Francisca.

[Essa é minha homenagem à mulherada, no seu dia.]


[1] Globo Repórter, 07 de maio de 2021.

Homero Fonseca é pernambucano, escritor e jornalista, formado pela Universidade Católica de Pernambuco. Foi editor da revista Continente Multicultural, diretor de redação da Folha de Pernambuco, editor chefe do Diario de Pernambuco e repórter do Jornal do Commercio. Foi também professor de Teoria da Comunicação e recebeu menção honrosa no Prêmio Vladimir Herzog de Direitos Humanos do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo. Atualmente, dedica-se à literatura e mantém um blog em que aborda assuntos culturais.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN

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