15 de junho de 2026

A Classe, por Luís Fernando Veríssimo

Sugerido por Janah

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Do site da PUC-Rio

A CLASSE

A eliminação gradual da classe média brasileira, um processo que começou há anos mas que de uns tempospara cá assumiu proporções catastróficas, a ponto de a classe média brasileira ser hoje classificada pelas Nações Unidas como uma espécie em extinção, junto com o mico-rosa e a foca-focinho-verde, está preocupando autoridades e conservacionistas nacionais. Estudam-se medidas para acabar com o massacre indiscriminado que vão desde o estabelecimento de cotas anuais – só uma determinada parcela da classe média poderia ser abatida durante uma temporada – até a criação de santuários onde, livre de impostos extorsivos e protegida de contracheques criminosos e custos predatórios, a classe média brasileira se reproduziria até recuperar sua antiga força numérica, e numerária. Uma espécie de reserva de mercado. A tentativa de recriar a classe média brasileira em laboratório, como se sabe, não deu certo. Os protótipos, assim que conseguiram algum dinheiro, fretaram um avião para Disneyworld.

A preservação natural da classe média brasileira evitaria coisas constrangedoras como a recente reunião da classe realizada em São Paulo, à qual, de vários pontos do Brasil, compareceram dezessete pessoas. As outras cinco não conseguiram crédito para a passagem. A reunião teve de ser transferida do Morumbi para a mesa de uma pizzaria, e ninguém pediu vinho. Uma proposta para que a classe fizesse greve nacional para chamar a atenção do país para a sua crescente insignificância foi rejeitada sob a alegação de que ninguém iria notar.

Fizeram uma coleta para financiar a eleição de representantes da classe média na Assembléia Constituinte, mas acabaram devolvendo os 10 cruzeiros. A única resolução aprovada foi a de que, para evitar a perseguição, todos se despojassem de sinais ostensivos de serem da classe média, como carro pequeno etc., e passassem a viver como pobres. Aí não seria rebaixamento social, seria disfarce. No fim os garçons se cotizaram e deram uma gorjeta para os integrantes da mesa.

Cenas lamentáveis têm ocorrido também com ex-membros da classe média que, passando para uma classe inferior, não sabem como se comportar e são alvo de desprezo de pobres tradicionais, que os chamam de “novos pobres”

 _ Viu aquela ali? Quis fazer caneca de lata de óleo e não
sabe nem abrir um buraco com prego. 

 _ E usa lata de óleo de milho. 

 _ Metida a pouca coisa…

 _ Já viram ela num ônibus? Não sabe empurrar a borboleta com a anca enquanto briga com o cobrador.

 _ E não conta o troco! 

 _ Berço é berço, minha filha.

Alguns pobres menos preconceituosos ainda tentam 
ajudar os novos pobres a evitar suas gafes. 

 _ Olhe, não leve a mal… 

 _ O quê? 

 _ É o seu jeito de falar. 

 _ Diga-me. 

 _ Você às vezes usa o pronome oblíquo muito certo. 

 _ Mas… 

 _ Aqui na vila, pronome oblíquo certo pega mal. 

 _ Sei.

 _ E outra coisa… 

 _ O quê? 

 _ Os seus discos. 

 _ O toca-discos foi a única coisa que eu consegui salvar quando me despejaram. 

 _ Eu sei. Mas Julio Iglesias?! 

(Luís Fernando Veríssimo _ Comédias da Vida Pública _ 17/07/85)

Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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