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A nova classe média não vai ao ‘Xingu’

Juro que eu já tinha decidido nunca mais falar aqui sobre a nova classe média. As duas colunas que dediquei ao assunto já me renderam a cota de aborrecimentos a que me permito a cada ano. Mas aí a
questão virou tema do festival de cinema de Recife, e eu sou irresistivelmente levado a voltar à polêmica.
Fernando Meirelles, um dos mais prestigiados cineastas da História do cinema brasileiro, era o homenageado da festa. Mas ele tratou de pôr uma dose de tristeza na comemoração. Decepcionado com a bilheteria de “Xingu”, o filme de Cao Hamburguer que ele produziu e que, depois de três semanas em cartaz, só tinha conquistado 280 mil espectadores (a expectativa é que chegasse a um milhão), o diretor anunciou que desistiu de filmar “Grande sertão veredas”, a adaptação do romance de Guimarães Rosa que seria seu
próximo projeto brasileiro.
“Xingu” teve um desempenho exemplar no mercado. Lotou as salas de circuitos que ainda podem ser chamados de “de arte” e deixou às moscas os cinemas que ainda podem ser chamados de “da periferia”. No Rio de Janeiro, por exemplo, isso significa filas para ser assistido em cinemas da Zona Sul, e salas va-
zias nos shoppings de subúrbio.
“‘Xingu’ não agradou às classes populares, e, sim, à classe A, sobretudo”, resume, ao jornal “Estado de Minas”, o distribuidor Bruno Weiner. O próprio Meirelles, em entrevista ao mesmo jornal, bate em tecla muito próxima: “Para um filme fazer mais de um milhão de espectadores no Brasil, ele tem necessariamente que interessar à nova classe C, que começa agora a ir ao cinema.” E conclui irônico: “Nossa sociedade parece adormecida ou siderada pela luzinha dos celulares 3G e a magia dos cartões de crédito.”
Que fique claro que esse comportamento do espectador brasileiro não é diretamente ligado a seu envolvimento com o cinema nativo. O mau desempenho de “Xingu”, quando comparado com atrações estrangeiras, é muito relativo. Depois de três semanas em cartaz, ele ocupa uma posição melhor do que a alcançada no mesmo intervalo de tempo por muitas superproduções de fora, como “Cavalo de guerra”, de Spielberg (220.257 espectadores nas mesmas três semanas), “J. Edgar”, de Clint Eastwood (109.349) ou “O artista”, que, mesmo turbinado pelo Oscar de melhor filme, completou sua terceira semana com 151.539
espectadores. Sob este ângulo, “Xingu” é um grande sucesso!
O sucesso no cinema não pode ser simplificado ao que gosta ou não gosta a classe C. O próprio Meirelles, ao detalhar seu desabafo em Recife, disse que, hoje, lançaria “Xi
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