5 de junho de 2026

Documentário sobre os Racionais exalta a cultura de raiz e o povo trabalhador, por Carolina Maria Ruy

Entre outras coisas o documentário tem a qualidade de mostrar as contradições da maior cidade brasileira.
Divulgação

Documentário sobre os Racionais exalta a cultura de raiz e o povo trabalhador

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por Carolina Maria Ruy

Em 2001 em um evento da UJS ouvi do cantor de GOG que uma banda de rap havia sampleado a música Nem um dia, de Djavan. Não conhecia, e ainda conheço pouco esse estilo e seu universo, mas fiquei interessada naquela mistura.

Foi na galeria do rock que encontrei, dias depois, o CD com a música a que GOG se referiu. Eu que nunca curti o rap me liguei naquele som que incorporou de forma supreendentemente graciosa o refrão “um dia frio, um bom lugar pra ler um livro, o pensamento lá em você, eu sem você não vivo”. A letra dura e impiedosa parecia dar sentido àquela melancolia.

A banda chamava-se Realidade Cruel, e a música, Depoimento de um Viciado, relata uma história aterradora. Um jovem viciado que se rende ao crime, contrai aids, é preso e encontra em Jesus a salvação.

Eu com 24 anos, estudante universitária, ao ouvir (repetidas vezes) aquela música me deixava transportar para a um lugar sombrio. Era uma viagem espiritual inversa àquela que Mano Brown disse (no recente documentário Racionais – Das Ruas de São Paulo pro Mundo, de Juliana Vicente) que fazia quando ia da periferia para o centro de São Paulo, “onde as luzes estavam todas acesas”.

Em suas incursões pela cidade os Racionais puderam dimensionar a vida que levavam nas bordas paulistanas. Entre outras coisas o documentário tem a qualidade de mostrar as contradições da maior cidade brasileira. Como a pobreza e o abandono crescem em torno dos centros ricos.

É disso que trata a obra de Mano Brown, Ice Blue, Edi Rock e KL Jay. Da exclusão social, da criminalidade, do racismo. E, principalmente, de transformar em música a situação dos jovens pobres da megalópole.

Uma obra que desde 1987 amadureceu também artisticamente, ganhando complexidade e musicalidade sem abandonar o vínculo com a população pobre da periferia. Ainda que tenham crescido como floresta, nunca deixaram de ser raiz.

O filme mostra como mesmo após a fama não foi fácil a vida dos Racionais. Houve idas e vindas, retorno a condições difíceis mesmo quando todo o país já os conhecia. Uma história reveladora de como a sociedade se fecha para os pretos e pobres. Mesmo com talento, sucesso e público o preconceito e a repressão ainda os acompanhava onde quer que fossem.

Chamou a atenção também como as periferias de cidades como São Paulo são parecidas. O contexto que criou os Racionais é o mesmo da California do filme Collors, de 1987. Ligação que, inclusive, é sinalizada no documentário através da presença do rapper Ice-T (autor da música tema do filme) muito antes da fama de Mano Brown. É também o de Baltimore da série The Wire, de 2002. Em São Paulo, em Los Angeles, em Baltimore, sempre a mesma fórmula: os excluídos do sistema vivendo no improviso. Educação que não chega ou chega precariamente; criminalidade à espreita; drogas; com muita sorte a arte e o esporte; e a igreja, enfim, como salvação.

Os Racionais fazem bem ao país ao trazer a cena deles para onde todos possam ver. E o documentário em nos mostrar, em menos de duas horas, o início, o desenvolvimento e a atualidade desta banda que quebra padrões em todas as frentes.

Se hoje Mano Brown é badalado pela intelectualidade e pela “classe artística” engana-se quem acha que ele se rende a alguma elite. Não seria demais se o documentário mostrasse o fatídico discurso do cantor em um evento da campanha presidencial do PT, no segundo turno, em 2018, quando já estava claro que perderíamos para Jair Bolsonaro. Ao dizer frases como “A cegueira que atinge lá atinge nós também”; “Se em algum momento a comunicação do pessoal daqui falhou, vai pagar o preço” e “Se não tá conseguindo falar a língua do povo, vai perder mesmo” ele jogou realidade no ventilador e foi profético. Mas isso talvez empurrasse o documentário para outro caminho, confundindo a centralidade da transformação da dureza de uma vida em poesia, identidade e comunicação.

Não será esse documentário, muito interessante, por sinal, bem feito e bonito, que acabará com a discriminação tão enrizada que aflige o povo periférico trabalhador. Mas é necessário falar o que ele fala e mostrar o que ele mostra. Que venham outros.

Quando eu ouvia Realidade Cruel em 2001, talvez fosse justamente a universitária que os Racionais rejeitavam como público. Sua música é inspiração para pessoas que conhecem a rejeição muito melhor e em muitos outros setores. Mas, ele não pode negar que a qualidade e a importância de sua música e de sua trajetória como artista são valores que qualquer um, do centro e à periferia, pode reconhecer, sentir e refletir sobre.

Carolina Maria Ruy é jornalista e coordenadora do Centro de Memória Sindical

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected].

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  1. Rita de Cássia Vianna

    9 de dezembro de 2022 9:48 am

    Isso a música é muito boa e a periferia escondida aparece.

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