10 de junho de 2026

Esses ingleses (2), por Walnice Nogueira Galvão

Sucessos é que não faltam na vida de Richard Curtis, que é também produtor de programas para TV, liderando causas humanitárias

Esses ingleses (2)

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por Walnice Nogueira Galvão

Richard Curtis é roteirista de filmes de êxito, como Quatro casamentos e um funeral, Um lugar chamado Notting Hill e Simplesmente amor. Deste último foi também diretor.

Com o primeiro, emplacou um sucesso de público nunca visto, tirando o cinema inglês do marasmo sem futuro. Exibindo protocolos e rituais da classe dominante, pôs em cena um grupo de seus rebentos trintões, solteiros, sem profissão e fracassados em geral – todos charmosíssimos. Lançou Hugh Grant, lindo e indefeso, que tartamudeia e pestaneja, pois teme, como seus amigos, amadurecer e assumir responsabilidades. Uma modelo americana abastada aparece e o quer para si – coisa que ele custa a crer e que dribla de todo jeito. De cerimônia  em cerimônia na alta sociedade, como o título implica, a câmera vai acompanhando o grupo. A receita infalível repercutiria em outros filmes afiados.

Criticas por seu parti-pris de classe levaram o roteirista a se penitenciar no filme seguinte, Um lugar chamado Notting Hill, transferindo o cenário para as áreas boêmias de Londres, com gente de modesta extração. Outro grupo de amigos, todos trabalhadores de baixos misteres, todos a quem alguma coisa deu errado na vida. Novamente Hugh Grant, que continua lindo, vem tartamudear e pestanejar ante outra americana abastada que o quer: nada menos que a atriz mais bem paga do mundo à época, Julia Roberts. Ele mora em Portobello Road, aquela mesma do esplendor dos anos 60, e é dono de uma pequena livraria de guias turísticos, sempre às moscas. Vemos a personagem de Julia Roberts, até então estrela milionária de filmes vagabundos, nos quais faz astronautas, trabalhando na Inglaterra num filme de época baseado em alta literatura.  Insatisfeita com seu destino de milionária e celebridade, ela está buscando uma vida mais autêntica que ainda se pode encontrar na Inglaterra etc– e, tacitamente, infere-se, não mais nos Estados Unidos. Uma vida em que o dinheiro e a fama não sejam determinantes… E o filme agrega a nota anti-imperialista.

Depois Richard Curtis escreveria o roteiro e dirigiria Simplesmente amor, com o indefectível Hugh Grant, que se mandara para Hollywood para ganhar dinheiro e se tornara uma estrela de primeira grandeza. Não mais um fracassado como nos dois filmes supracitados, ele – e vejam só como subiu na vida – é o Primeiro Ministro da Inglaterra. Coalhado de estrelas,  dá-se outro sucesso. Mas sucessos é que não faltam na vida de Richard Curtis, que é também produtor de programas para TV, liderando causas humanitárias e iniciativas beneficentes de largo alcance. Todos conhecem seus inúmeros trunfos: as Bridget Jones, as séries de Mr. Bean com Rowan Atkinson etc.

O que pode aproximar Richard Curtis e Ian Fleming, cujos livros têm como protagonista o espião James Bond? A estilização da Inglaterra como o contrário da materialista e vulgar América do Norte – é claro. O curioso é que toda a série James Bond seja nitidamente compensatória, criada justamente quando a Inglaterra acabou de perder para os Estados Unidos a hegemonia imperialista a partir da Segunda Guerra.

Ian Fleming também passou por Eton e Sandhust, como todos eles, mas a Segunda Guerra impediu que fosse para Oxford e Cambridge. Entretanto, por família e relações, era um membro do old boy system. Basta ver o acentuado esnobismo da série James Bond, o que nunca impediu seu êxito, muito pelo contrário: 100 milhões de exemplares no mundo todo, 26 filmes até hoje. Além de seus hábitos refinadíssimos em matéria de carros, tabaco, bebidas, indumentária e mulheres, há grandes tiradas. Como a cena em que as investigações de Bond o levam ao Instituto de Heráldica, onde ele, tão rápido na réplica quanto no gatilho, se identifica como: “James Bond, dos Bond de Bond Street…” E a única vez em que ele se casou, foi com uma condessa.

Ian Fleming foi agente secreto, em diferentes posições, e utilizou o tirocínio em benefício de seu espião. Sua vida foi tão cheia de aventuras mirabolantes que causaria inveja a 007… Por isso rendeu tanto no cinema e na TV. Pode-se conferir em Spymaker – A vida secreta de Ian Fleming e na série de TV em 4 episódios Fleming, de 2014.

Walnice Nogueira Galvão é Professora Emérita da FFLCH-USP

Walnice Nogueira Galvão

Professora Emérita da FFLCH-USP

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  1. AMBAR

    10 de abril de 2023 1:34 pm

    Maravilha, depois de 3 filmes Hugh Grant já fica indefectível. No mais, a nobre Inglaterra jamais perdeu seu esnobismo, ar sombrio e senso de superioridade de quem ainda se sabe hegemônica por “status reflexo” de seus colonizados americanos.

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