5 de junho de 2026

Sobre a pedofilia

(Comentário ao post O caso dos sutiãs com bojo para meninas)

Siga o Jornal GGN no Google e receba as principais notícias do Brasil e do Mundo

Seguir no Google

Vamos por partes que pode não ser bem assim.

Embora eu não seja nem pedagogo nem psicólogo nem historiador, de várias leituras surgem outras ponderações. Sujeitas a equívocos por escrever de memória.

Não podemos dizer que nunca foi tão comum a pedofilia como na era atual. É muito mais provável o contrário, pois desde décadas se firmou o conceito na nossa sociedade (ocidental, urbana) de que maiores de 18 anos (considerados “adultos”) não devem manter relações com menores dessa idade. O que ocorre mais agora é a identificação desse crime. Também ocorre mais o turismo sexual com esse fim.

Se definimos pedofilia como crime com faixas específicas de idade, sim, agora é mais percebido. Se falamos em relações sexuais entre maiores de 18 e adolescentes, não, ao longo da história humana isso foi muito mais comum que agora.

Em muitas sociedades antes da colonização e disseminação de valores cristãos ocidentais não era incomum que crianças presenciassem os pais em relações sexuais, algumas sociedades como a polinésia não tinham conceito de infância e de passagem para adolescência, as pessoas simplesmente “cresciam”. Em várias culturais parentes mais velhos dos adolescentes participam dos ritos de passagem para a idade adulta.

E em todo o mundo, antes de “o PIB multiplicou por 50” (Delfim Netto, explanando o movimento de 300 anos recentes), o que se via eram unidades familiares minúsculas, não havia nada disso de quartos separados para as várias atividades dos entes familiares. Os conceitos de modéstia e recato, vistos em filmes e lidos em romances históricos são para nobreza, aristocracia e depois burguesia. Não valiam para 99% das pessoas.

Não vamos esquecer das muitas sociedades com casamentos por apresentação, em que os noivos têm 12, 13 anos. Nem vamos esquecer que o conceito de “adulto” é cultural e historicamente determinado. Até o século XIX maioridade aos 15 anos era comum, e até a Idade Moderna jovens dessa idade já eram reis, generais. O que não é de estranhar, pois faleciam aos 30 e poucos…

Com o advento de burguesia comercial, revolução industrial, necessidade de escolarização o que ocorreu nos últimos 300 anos, principalmente nos últimos 100 (Europa) ou 50 (restante do mundo) foi exatamente o contrário : a progressiva infantilização das gerações. A idade de se iniciar o trabalho (junto com a vida sexual outro ícone da passagem para a vida adulta) vai se alargando. 12 anos, 14 anos, 16 anos… 18 anos para quem concluiu o ensino médio. E caminhamos para uma sociedade do futuro onde as pessoas serão consideradas aptas a trabalhar apenas após a faculdade. E mais para a frente será após a pós-graduação (na Europa atual é muito comum isso.)

Não sei datar quando começaram as restrições legais para o sexo adolescente, mas isso é ligado à necessidade de considerar a adolescência como segundo estágio da infância, não mais como fase inicial da vida adulta. (No passado havia outro paradoxo : as pessoas eram “adultas” a partir dos 12-15 anos, mas cresciam fisicamente até os 20-25 anos; hoje é o contrário, atingem o auge de crescimento físico cedo, mas o conhecimento necessário para a vida social tarde.)

Há alguns movimentos reversos, como conceder direito a voto e a dirigir – e também a tentar estabelecer maioridade penal – com 16 anos. Que não alteram a tendência geral à infantilização tardia. Se até não muito tempo atrás a passagem da infância para adolescência determinava a entrada no mundo adulto de várias formas simultaneamente (trabalho, sexo, constituição de família), o que temos agora é uma dicotomia : jovens não conseguem ser considerados adultos para várias coisas importantes, principalmente a atividade econômica, mas têm acesso (não desejado pelos pais) a outros ícones dessa passagem, como a vida sexual. E ficam sem a informação necessária, como exemplo a quantidade de gravidezes não-planejadas. A surpresa relatada por pais ao descobrirem que adolescentes podem, sim, ser homossexuais conscientes é sinal disso tudo, da incompreensão geral do que significa essa etapa da vida.

Não é nossa sociedade atual que é erotizada precocemente. Por milênios foi normal adolescentes serem erotizados a partir dos primeiros sinais de puberdade. É fenômeno recente a “não-erotização” dos adolescentes (todo o conjunto de proibições e vigilâncias criados com o sistema escolar, fazendo parte a divisão de alunos por gênero, muito comum até os anos 1960) e isso até é coerente com a necessidade de manter as pessoas estudando mais e mais para as atividades econômicas modernas.

Só que a puberdade ainda ocorre fisicamente como antes. Talvez ainda mais cedo com as mudanças na alimentação e o crescimento rápido (em nenhum momento da história antes do século XX adolescentes chegavam aos 1,80 de altura aos 13, 14 anos.) No fim temos essa contradição : uma sociedade que precisa/deseja infantilizar as gerações por mais tempo, mas que lida com uma erotização latente.

A publicidade moderna, onde há um esforço para se descobrir formas de se vender mais coisas para mais segmentos, percebe isso e não ajuda em nada, claro. É esse movimento de criar para adolescentes e crianças acessórios de roupas, cosméticos, acesso a bens de consumo como celulares, costumes de tribo, às vezes até tatuagens, e muitas coisas sem relação com ensino convencional que passam essa impressão de erotização precoce. Fazê-lo para crianças de 6 anos é evidente exagero comercial, mas fazê-lo para adolescentes já com sinais de fertilidade é um dilema : como a sociedade pretende lidar com impulsos sexuais existentes sem dar informação para isso e infantilizando para outras atividades? Até o fato de vedar ao trabalho acaba dando tempo e condições para a erotização…

Quanto a adultos (hoje definidos como maiores de 18 anos) também a erotização atual pode ser apenas suposta. Comercialmente é grande, já que até carros são vendidos como acessório para conquistas sexuais. Mas na prática? Se não houvesse tanto silêncio em relação à sexualidade real, e tivéssemos “séries históricas” de frequência de relações sexuais entre adultos, o que poderíamos ter? Meus palpites : há cada vez menos relações extraconjugais (amantes), pois a cultura condena isso, favorecendo antes a dissolução do matrimônio anterior e a estrita monogamia (há uma expressa condenação moral da traição); há um excesso – que leva a menos tempo dispendido em relações íntimas – de atividades de trabalho (agora envolvendo mulheres fora de casa), de pós-graduações quase permanentes (“gurus” dizendo que é necessário para manter a “empregabilidade”), de apelos ao consumo de bens substitutivos de gratificação (quantas pessoas não trocam o sexo pelo consumo?) Há também uma dificuldade crescente das pessoas encontrarem parceiros, o que desemboca em redes sociais para esse fim que não chegam a substituir a facilidade emocional do passado : os parentes arranjavam os compromissos e pronto. E há todo o estresse cotidiano.

Excesso de liberdade e de opções é bom, mas leva a incertezas e indefinições. É claro que eu não sou cego nem surdo e vejo e ouço o bombardeio de apelos sexuais que é comercializado. As mídias são hoje onipresentes e fazem isso. Mas somente eu acho que isso tudo acaba substituindo o sexo real?

Acho que não devemos tentar resolver a adultização precoce para sexo sem observar a simultânea infantilização tardia para a vida social.

Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Mais lidas

As mais comentadas

Colunistas

Ana Gabriela Sales

Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É...

Carla Castanho

Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

...

Faça login para comentar ou registre-se.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Recomendados para você

Recomendados