5 de junho de 2026

Em “As Filhas do Fogo” o mundo dos mortos encontra os vivos em plena ditadura militar, por Wilson Ferreira

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por Wilson Ferreira

Muitas vezes acusado de fazer filmes “vazios” ou “sem brasilidade”, em pleno processo da abertura política na ditadura militar o cineasta Walter Hugo Khouri escreveu e dirigiu o filme “As Filhas do Fogo” (1978) com um casal lésbico como protagonista em uma clássica trama gótica na qual os universos dos vivos e dos mortos se encontram, sob a trilha musical sombria e hipnótica do maestro Rogério Duprat. Um momento onde a abertura a temas espiritualistas, místicos e parapsíquicos andou ao lado da abertura política brasileira. Um filme que vale à pena ser revisto, principalmente pela forma como Khouri constrói uma trama que aspira à universalidade nas locações de Gramado e Canela/RS – objetos, personagens e a natureza circundante que parecem encarnar arquétipos tanto freudianos quanto gnósticos. Tudo isso no momento em que a ditadura militar desmontava o cinema brasileiro por meio da Embrafilmes.

No final dos anos 1970 o Brasil passava pelo processo de abertura política que marcaria o início do fim da Ditadura Militar. Mas a abertura não era apenas política. Era também místico-espiritualista. Parapsicologia e espiritualismo começavam a ganhar espaço na mídia brasileira com programas na TV mostrando o israelense Uri Geller ou o brasileiro Thomas Green Morton entortando utensílios de cozinha com o poder da mente; reportagens especiais sobre as fotos Kirlian que supostamente mostravam a aura humana; além das edições da revista Planeta da editora Três que popularizava temas como o Espiritismo, misticismo, magia, ectoplasmaz, materialização de espíritos e ufologia.  

Preparando-se para filmar seu 17o filme e aproveitando o clima no qual esses temas começaram a despertar interesse científico, o diretor Walter Hugo Khouri resolveu aprofundar seu filme anterior Anjo da Noite (1974, também um marco na cinematografia do terror nacional) com o apoio da Editora Três contando com a promoção da revista Planeta, especializada em temas esotéricos e religiosos – na época a revista criou um concurso no qual os melhores autores de textos comentando o filme ganhariam uma viagem para qualquer país do mundo, recebendo 10.000 cruzeiros para as despesas.

O resultado foi múltiplo: no filme As Filhas do Fogo (1978) Khouri conseguiu unir o cinema fantástico, homossexualidade feminina, gótico, parapsicologia, animismo e solidão – vozes de pessoas mortas registradas em equipamentos eletrônicos, premonição, percepção extra-sensorial, elementais e universos paralelos coexistem de forma dramática e verossímil.

Mas ao se tratar de um filme brasileiro que trata de temas tão espiritualistas, Khouri evitou cair naquilo que Osvaldo de Andrade chamava de “macumba para turista”, descambando para o folclore. 

Em busca do “universal”

Ao contrário, o filme persegue uma universalidade: em primeiro lugar a narrativa não faz qualquer referencia ao local ou onde a história se passa. O diretor usou locações em Gramado e Canela, Rio Grande do Sul, para alcançar a iconografia mais universal do gênero – casas góticas, florestas negras, névoas e até neve. O filme não faz nenhuma concessão à brasilidade.

E ainda a trilha musical atemporal de Rogério Duprat (maestro brasileiro expoente do movimento da Tropicália, aproximando os arranjos clássicos do pop) capaz de criar uma atmosfera misteriosa, ao mesmo tempo gélida, hipnótica e onírica.

Essa busca de um tom mais universal, a narrativa eleva os personagens (vivos e mortos) à condição gnóstica de Estrangeiros: as vozes dos mortos chamam os vivos como pedissem ajuda, lamentam, sofrem. Enquanto os vivos vivem uma mesma condição de estranhamento e alienação – tanto em relação à família como em relação à própria Natureza – parece ser sempre hostil, claustrofóbica, como se quisesse prender a todos.

E a própria condição homossexual das protagonistas, cujo lesbianismo criará a típica tensão Edipiana dos filmes góticos e terror – a matriz edipiana, o gerador principal dos conflitos psíquicos no gênero.

O Filme

 Diana (Paola Morra), órfã da mãe Sílvia (Selma Egrei) e abandonada pelo pai, depois de muitos anos, volta à casa de campo da família. Ela aguarda a visita da sua namorada Ana (Rosina Malbouisson). São recebidos pela governanta Mariana (Maria Rosa).

De repente chega um viajante e pedinte (Serafim Gonzalez), sujo e faminto pedindo apenas comida e um lugar para descansar por pouco tempo. O que nos faz lembrar do filme Borgman (2013) no qual um pedinte chega em uma casa para aos poucos destruir a paz pequeno-burguesa de uma família – sobre esse filme clique aqui. De certa forma ele terá um papel parecido, mas não para desestabilizar a ordem de uma família. Mas a própria ordem das relações entre os vivos e os mortos.

Entre os passeios pela floresta ao redor e lembranças da infância de Diana (o avô alemão, o pai obcecado pela I e II Guerra Mundial, os nomes dos empregados que refletem a colonização europeia, um velho revólver da I Guerra Mundial etc.), ela reencontra a vizinha Dagmar (Karen Rodrigues) – uma soturna estudiosa de registros de vozes de pessoas falecidas, captadas em fitas cassete enquanto caminha com um captador de áudio profissional.

Na casa de Dagmar encontram a Tia Gertrudes que lhes informa que está próxima a data da tradicional Festa dos Colonos – uma estranha festa com motivos pagãos e germânicos. Gertrudes se oferece para confeccionar uma fantasia para Diana.

As Filhas do Fogo começa a construir a tensão a partir da governanta Mariana (a única que nasceu lá e está bem estabelecida). Todos ao redor são “estrangeiros”, que experimentam uma estranha sensação de alienação e mal estar – Ana, e a sensação constante de estar sendo observada; Diana e as memórias da mãe e estranhas vozes captadas pelo gravador de Dagmar como se a chamassem do além; o estranho viajante pedinte que aos poucos se infiltra no cotidiano daquela casa de campo.

E a floresta escura ao redor ao som de uma trilha musical, sugerindo alguma coisa entre o realismo, o fantástico, delírio e sonho.

As Filha do Fogo nos oferece uma verdadeira lição de como o horror pode ser construído sem qualquer efeito especial, mas apenas assentado na edição, montagem, deslocamentos de câmera e uma sugestiva trilha musical. O que é demonstrado em duas sequências chave do filme: o momento em que Dagmar revela as vozes dos mortos contidas em gravações da floresta e no final onde a mãe finalmente se materializa para a filha – a beleza assombrosa de Selma Egrei, que jamais fala uma linha de diálogo. Mas apenas sua presença em um vestido negro e o olhar são capazes de gelar a alma.

Elementos de um clássico gótico

Walter Hugo Khouri consegue nos anos 1970, com os parcos recursos de produção na época da Embrafilme e o desmonte do cinema brasileiro pela ditadura militar, construir um clássico filme gótico e gnóstico – cult, é verdade, com pouco apelo popular.

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Wilson Ferreira

Wilson Roberto Vieira Ferreira – Mestre em Comunição Contemporânea (Análises em Imagem e Som) pela Universidade Anhembi Morumbi.Doutorando em Meios e Processos Audiovisuais na ECA/USP. Jornalista e professor na Universidade Anhembi Morumbi nas áreas de Estudos da Semiótica e Comunicação Visual. Pesquisador e escritor, autor de verbetes no “Dicionário de Comunicação” pela editora Paulus, e dos livros “O Caos Semiótico” e “Cinegnose” pela Editora Livrus.

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2 Comentários
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  1. Antonio Uchoa Neto

    24 de novembro de 2016 12:59 pm

    Walter Hugo Khouri foi um

    Walter Hugo Khouri foi um extraordinário cineasta brasileiro.

    Infelizmente viveu num tempo de radicalismo semelhante aos dias de hoje.

    A expressão “patrulha ideológica” surgiu naquela época.

    Já passou o tempo de reconhecer esse grande artista, é necessário que sua obra seja relançada em formatos atuais, pois boa parte dela ou está praticamente inacessível, ou em péssimas condições de visualização.

    O mesmo vale para Glauber Rocha.

  2. Pedro ABBM

    24 de novembro de 2016 4:37 pm

    Eu gostei desse filme

    Eu assisti esse filme na época e gostei muito, mas depois nunca mais ouvi falar dele. Não me admira, porque o clima da época era esse mesmo: filme brasileiro que se prezasse tinha que ter um viés político e uma “brasilidade” terceiromundista, senão os patrulheiros caíam em cima.

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