8 de junho de 2026

“Em Busca de Iara” resgata história da companheira de Carlos Lamarca

Ficções, documentários. Flávio Frederico é autor de uma obra pequena, mas importante, que o tem levado a investigar a história recente do País e da cidade. Seu primeiro longa, Urbânia, de 2001, discute a decadência do centro de São Paulo. Apesar de tentativas de reerguimento, a situação só piorou desde então. Vieram depois o longa sobre o lendário Hiroito – um dos criminosos que fizeram história em São Paulo – e as suas incursões pelo tema da guerrilha.

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Com Caparaó, em 2007, ele venceu o É Tudo Verdade. Com Em Busca de Iara, no ano passado, recebeu o prêmio especial do júri na competição brasileira do Festival Internacional de Documentários. Flávio Frederico não tem planos imediatos de seguir contando a história da resistência à ditadura, mas não descarta que no futuro volte ao tema. “Nunca se sabe”, diz. Caparaó começou a nascer em 2003, quando fazia um documentário sobre a Serra da Mantiqueira. Flávio Frederico descobriu que o maciço do Caparaó era considerado o final da serra. Ouviu muitas histórias sobre a guerrilha que ali se instalou, e a gigantesca operação montada pelo Exército para erradicar os guerrilheiros.

Pesquisando sobre o assunto, que conhecia de forma genérica, descobriu que havia pouquíssimo material, em livros e jornais. O documentário nasceu de um duplo desejo – o de se informar, e o de informar. Garimpando, desencavou documentos inéditos e confidenciais nos antigos arquivos do Dops, em São Paulo e no Rio de Janeiro. Em Busca de Iara não deixa de dar prosseguimento ao tema da guerrilha, mas o envolvimento agora é muito maior. Através de uma investigação pessoal de sua mulher, Mariana Pamplona, o filme resgata a vida da guerrilheira Iara Iavelberg. Mariana é sobrinha da companheira do lendário ex-capitão Carlos Lamarca.

Nós que nos amávamos tanto, Iara e Lamarca. Nós que amávamos a revolução, Iara, Lamarca e toda uma geração de militantes. Embora não seja um grande circuito, a estreia foi projetada para ocorrer o mais próximo possível da data que assinala os 50 anos do golpe militar. Em Busca de Iara soma-se à discussão sobre a herança sinistra da ditadura.

 

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  1. IV AVATAR

    29 de março de 2014 5:33 pm

    Uma bela história essa de Iara e Lamarca

    Deu na Isto É: O guerrilheiro apaixonado

    As cartas escritas pelo capitão Carlos Lamarca à sua amada Iara Lavelberg dias antes das trágicas mortes de ambos, em 1971, revelam o lado passional de revolucionário implacável.

    Por Hugo Studart

     

    Reprodução

    Iara Iavelberg tinha o rosto lindo, a cabeça brilhante e o coração revolucionário. Era a musa da esquerda brasileira em 1969, quando um capitão do Exército, Carlos Lamarca, desertou de armas em punho para se tornar comandante da Vanguarda Popular Revolucionária, a VPR. Logo tombaria de encantos por Iara. A paixão do capitão pela guerrilheira virou lenda entre a intelectualidade pátria, nossa melhor versão de Tristão & Isolda ou de Garibaldi & Anita. Há 35 anos ambos, Lamarca & Iara, morreram nas mãos dos militares. Caíram na Bahia, em locais e datas distintas. O que poucos sabem é que Lamarca deixou um diário como legado, redigido durante seu exílio na caatinga baiana. São 39 trechos, redigidos entre 8 de julho e 16 de agosto de 1971 (um por dia), endereçados a Iara e obtidos por ISTOÉ através de um oficial de alta patente. O diário é um documento singular. Os textos se parecem muito mais com uma longa lírica romântica do que com registros racionais de um revolucionário. Guardam impressionante paralelo com as cartas da revolucionária alemã Rosa Luxemburgo a Leo Jogiches, onde ela discute a revolução, mas dedica-se principalmente a falar do amor colossal que sente pelo amante. Nas cartas de Lamarca, como nas de Rosa, há trechos marxistas, mas os pontos fortes desse documento são as declarações de amor que revelam o imaginário do nosso mais conhecido guerrilheiro:

    – Neguinha, a fôrça da coletivização é espantosa, fico a imaginar uma fazenda coletiva – e me babo só de pensar! (A grafia original foi mantida)

    Lamarca passou seus últimos dias escrevendo para a amada. Isso se tornara uma estranha obsessão. Alguns trechos dessas cartas vazaram em 1980, mas eram relacionados às convicções ideológicas do capitão; nada sobre Iara. Os originais do diário se encontram até hoje em poder dos militares. Ainda são considerados documentos “reservados” das Forças Armadas. ISTOÉ teve acesso a uma cópia datilografada pelos militares, totalizando 41 páginas. O diário começou a ser escrito em resposta a uma carta enviada pela guerrilheira.

    Reprodução

    MUSA Filha de família abastada, Iara mergulhou 
    na militância política, mas destoava dos padrões 
    tradicionais da esquerda

    – Sonhei com você. Acordei num misto de alegria e tristeza – compreendi que te desejava. (…) Sinto-me ôco. Esse estado não posso superar, o que posso fazer? No fim, um cocô atolado.

    Em sua carta a Lamarca, lara cobra mais firmeza do amado, diz que ele deveria fazer-se respeitar mais pelos companheiros. Em sua resposta, o capitão se esforça para mostrar à musa sua disposição revolucionária e seu valor intelectual. Tece longas análises sobre a situação política na China, na Mongólia, em Cuba, na Jordânia e no Paquistão. Em meio disso, desanda a escrever sobre o amor. Começa heróico, em idílio marxista, para já na segunda frase revelar, de forma sutil, seu grande temor – o de que Iara termine nos braços de outro homem:

    André Dusek

    SEGREDOS A atual ministra Dilma Rousseff ouviu confissões de Lamarca

    – O nosso amôr é uma realidade que veio sendo transformada – hoje atinge um nível nunca por mim sonhado, mas vamos continuar transformando. Sonho com êle numa fazenda coletiva – juro não ser ciumento e lutar junto contigo pela tua liberdade – e vou te amar mais intensamente, isto é possível, sinto que é. Nosso amôr não está isolado na realização de nós dois, nem nos milhares de filhos que teremos, êle nasceu e estará umbilicalmente ligado à Revolução e construção do Socialismo.

    Depois escorrega a falar de solidão.

    – Quando estou longe de você, tudo muda. É outro mundo, falta aquele calor que só emana de você mesma – fico imaginando e me delicio com tua lembrança, tôda viva, junto de mim.

    – Continuo então aguardando ansiosamente a oportunidade de te encontrar, olhar dentro de teus olhos lindos (perguntadores e atentos olhos), te abraçar, te beijar (queridinha) e amar. Já vi que não sei mais passear, só após a guerra poderemos passear – qualquer pedaço de rua, ainda teremos, é visto por mim taticamente como um campo de luta.

    Sérgio Dutti/AE/Its Press

    ROMANCE José Dirceu, então líder estudantil, foi namorado de Iara

    Ele chegou a cometer dois poemas socialistas. O suor e as lágrimas e Isolado. Este último começa assim:

    – Ouço ao longe/ um campona cantar/ triste, lamentos/ risos de crianças/ no rio se banhando/ fim de tarde, de/ trabalho/ Gritos de mãe,/ filho chamando.

    Depois de 30 dias no sertão, longe de lara, Lamarca está enlouquecido de solidão. De dia, discute com os companheiros sua necessidade psicológica de reencontrar lara. E registra tudo no diário:

    – Sonhando com você, acordo no meio da noite e volto a sonhar. Sonhei com você até nas vias de fato, pode? Ora, porque o sonho? Necessidade sexual não pode ser só, já sonhei inclusive nêsse nível com você. Como, até mesmo dormindo contigo sonhei, só posso concluir que a minha cuca é mais complicada do que eu pensava.

    Hélcio Nagamine

    PORTADOR César Benjamim deveria entregar 
    as cartas a Iara. Foi preso sem cumprir a missão

    Lamarca e Iara se conheceram em abril de 1969, dois meses depois de ele desertar do Exército. Foi paixão fulminante. Ele era casado e tinha dois filhos. Nascido em 1937 no morro do Estácio, no Rio de Janeiro, era filho de um sapateiro e de uma dona-de-casa. Adolescente, já se mostrava disciplinado nos hábitos, do tipo que mantém o sapato engraxado e o uniforme engomado. Casou-se com a própria irmã de criação, Maria Pavan. Foi criado na moral proletária; depois adestrado no moralismo da caserna; por fim, na ortodoxia stalinista. Jamais gostou da dialética socialista – era, como se diz, um “homem de ação”.

    Ela nasceu em 1944, em uma abastada família de judeus paulistanos. Casou-se em 1960, aos 16 anos, com Samuel Halberkon, um médico da comunidade. Separou-se três anos depois e aderiu à militância política. Estudou psicologia na Universidade de São Paulo e virou professora. Era alta, loira, tinha os olhos claros, grandes, e um rosto com sardas. Vaidosa, cuidava muito bem do corpo, dos cabelos e das roupas, hábitos inusitados para a esquerda da época. Separada, passou a exercitar o amor livre e as relações fugazes – entre seus namorados, o então líder estudantil José Dirceu. Era o comportamento comum entre as elites em Paris, Ipanema e Jardins. Chamava-se revolução sexual e fazia parte do contexto de libertação da mulher.

    Tornou-se público na VPR que a relação extraconjugal incomodava o capitão. Confessava aos companheiros uma enorme culpa por ter arrumado outra depois de submeter a família ao exílio em Cuba. Mas logo começaram a viver juntos. Passaram dez meses trancados em aparelhos clandestinos. O romance foi testemunhado pela guerrilheira Vanda, codinome de Dilma Rousseff, hoje ministra da Casa Civil. “Eu e Lamarca lavamos muitos pratos juntos”, revela Dilma a ISTOÉ. “Era nessas horas que ele me fazia inconfidências sobre sua paixão por Iara.”

    O diário revela o conflito entre esses dois mundos tão distantes, mas ligados pela fé na revolução. O encontro entre Lamarca e Iara foi um choque social, cultural e político. A relação enfrentou pressões dentro da VPR e das demais organizações marxistas, quase todos condenando aquele amor. No início de 1970 os dois começaram o treinamento militar. Caçados pelo Exército, espalharam-se pelas ruas do País cartazes com fotografias dos dois e os seguintes dizeres: “Bandidos terroristas procurados pelos órgãos de Segurança Nacional.” Lamarca escreveu no diário:

    Sérgio Dutti/AE/Its Press

    PRECOCE Aos 16 anos, Iara se casou com Samuel Halberkon

    – Sem você tudo teria desabado, e não sei como me encontraria perante a mim mesmo. Aprendi a lutar com você, e posso estar todo errado e estar fraquejando nessa luta. Mas quero que você compreenda que quero lutar, vou lutar pelo relacionamento.

    No início de 1971, a VPR já estava completamente destruída, com seus militantes mortos, presos ou exilados. Os farrapos da organização foram incorporados a uma outra, o MR-8, Movimento Revolucionário Oito de Outubro. Lamarca foi rebaixado a militante de base e enviado para se esconder no interior da Bahia. Iara foi alçada à cúpula da nova organização e alocada em Salvador. O capitão tinha fama de ser intelectualmente despreparado. A imagem de Iara, ao contrário, era a de ser o cérebro do casal. Talvez por essa razão ele tenha tentado exibir dotes intelectuais ao redigir em seu diário análises sobre a conjuntura econômica e a política internacional.

    Em Salvador, Iara morava num apartamento com o militante Félix Escobar Sobrinho, 20 anos mais velho. A idéia era um disfarce de pai e filha. Lamarca começou a escrever seu diário logo depois que soube, através daquela carta da amada, que ela morava com outro. Demonstra no diário que, desde o início, ficou com ciúmes. Primeiro tenta se mostrar compreensivo. Depois escreve sobre a distância e as necessidades físicas de ambos; chega a liberar Iara para novos relacionamentos.

    – A tua situação é terrível, e a sua necessidade afetiva muito grande, e se não houver possibilidade de nos encontrarmos mais, tenho de abrir mão do nosso relacionamento no que se refere a você – dar a você a liberdade de relacionar com outro companheiro. No nível que atingiu o meu amôr, não posso admitir a possibilidade de me relacionar com outra pessoa, nunca mais, mas a minha estrutura é diferente da tua, posso viver só com você na cuca.

    – Tenho que admitir as suas necessidades efetivas e comparar com o que a realidade está aos poucos mostrando para nós o que mais tarde será inexorável o aumento de suas necessidades. Não quero estar sendo um puto com você – entenda neguinha, por favor. Sinto-me um cocô sem poder te ajudar.

    Mas Lamarca promete, de sua parte, manter a fidelidade para todo o sempre. Era, em verdade, somente sua tática inicial para não parecer um porco chauvinista:

    – Não te preocupes que não existirá nunca uma cabrita. Te respeito muito e sou feliz por ser o teu amor; sinto saudade de tudo e me alimento das lembranças, penso adoidadamente em ti – é impressionante – nunca pensei amar tanto.

    Shakespeare já afirmava que o curso do verdadeiro amor nunca foi sereno. Rosa Luxemburgo, por exemplo, passou 15 anos cobrando de Leo Jogiches casamento burguês e filhos. Quando, por fim, Rosa se cansou da espera e iniciou um relacionamento com outra pessoa, o amante enlouqueceu de ciúmes e ameaçou matá-la. Por muito menos, Lamarca também perdeu o controle emocional. Em suas anotações, de dia, é compreensivo.

    – Não sei explicar toda essa imensa necessidade – o importante é que existe. Sei que a presença é necessária, que lutaremos pelas oportunidades de estarmos juntos, mas, enquanto separados PELO TEMPO QUE FOR, EM QUALQUER SITUAÇÃO – VOCÊ É MINHA MULHER – só você, sempre.

    De noite, tortura-se de ciúmes:

    – Falei em abertura pelo seu lado (do meu não admito, nem existirá nunca condições) do nosso relacionamento – que é observado – e como última hipótese; pode ser um puta ciúme meu de existir alguém cumprindo a minha função.

    Na anotação de 13 de agosto, o guerrilheiro faz “autocrítica” e admite estar sofrendo de “machismo” e “autoflagelação”. Revela que decidira discutir politicamente com os companheiros uma forma de burlar a segurança para se encontrar com Iara (“Preciso de você, eis a realidade”). Por fim, em 16 de agosto de 1971, em sua última anotação, ele decide acabar com a tormenta, pelo menos na sua imaginação, da forma mais conservadora possível:

    – Peço a você que não se abra diante de conversa mole de ninguém – o relacionamento com todos os companheiros deve ser político e não sentimento e outros bichos. Tome cuidado.

    O diário jamais chegou à destinatária. Foi entregue pelo capitão ao militante João Lopes Salgado, codinome “Fio”, e depois foi repassado ao militante César Queiroz Benjamim, o “Menininho”, na época com 17 anos. Em 21 de agosto, escondido no Rio de Janeiro, Benjamim passou um telegrama para Iara, sem saber que já estava morta. Minutos depois, foi abordado por uma blitz da PM, entre as praias de Ipanema e Leblon. Estava num Fusca, com três outros militantes. Benjamim escapou durante a revista. No Fusca, ficaram os companheiros e uma maleta com roupas, uma arma e um envelope lacrado. “Eu não sabia que o diário estava no envelope”, relata Benjamim, que foi candidato a vice-presidente da República na chapa de Heloísa Helena. “Só sabia que deveria entregar um envelope para a Iara.” O Exército já descobrira que o capitão da guerrilha se escondia na Bahia, mas não tinha idéia do local exato. Ao receber o diário, os militares concluíram, pelas anotações, as coordenadas prováveis do esconderijo. Eis as últimas linhas de Lamarca, uma promessa que não poderia cumprir.

    – Te amo, te adoro. Segue esta carta impregnada de amor – vou te ver nem que seja a última coisa da minha vida e mil beijos do teu amor.

    Jamais se veriam novamente. Iara Iavelberg foi encontrada a 20 de agosto, em um apartamento da Pituba, Salvador. Segundo os militares, quando se viu cercada, conseguiu escapar para o apartamento vizinho e trancou-se no banheiro de empregada. O Exército estava esvaziando todo o prédio para iniciar a caçada. Então, uma criança do edifício voltou para pegar um brinquedo e viu Iara se escondendo. Assustada, avisou os militares. A versão oficial é a de que Iara teria dado um tiro no próprio peito, aos 27 anos, enquanto um soldado tentava arrombar a porta do banheiro. Sua família, contudo, levanta a hipótese de ela ter sido executada. “Há fotos, laudos e depoimentos de que ela não se matou”, afirma Mariana Pamplona, sobrinha de Iara e roteirista de um documentário em produção, Suicídio?, sobre a tia.

    Os militares a mantiveram por um mês na geladeira do IML de Salvador. Só depois que o capitão foi morto os pais de Iara foram avisados. O Exército não deixou que um rabino fizesse a lavagem ritual do corpo, a tahara. Entregou-a em caixão lacrado. Somente a família foi autorizada a comparecer ao enterro. Havia o temor de que a esquerda roubasse o corpo para transformá-lo em estandarte. É possível, também, que se tentasse evitar uma contestação à versão oficial de suicídio. lara passou 32 anos enterrada na ala dos suicidas do cemitério judaico do Butantã, em São Paulo. Samuel Iavelberg, irmão de Iara, tentou removê-la para outro local em 1997, mas os rabinos impediram. “Isso incomodava muito meus pais, eles eram muito religiosos”, relata Samuel. “Mas para mim o essencial é que não prevalecesse a vontade da ditadura.” Em setembro de 2003, por ordem da Justiça, Iara foi exumada. Os rabinos tentaram protelar alegando que seria profanação. Foi preciso ameaçá-los de prisão. Em junho de 2005, o corpo de Iara foi finalmente enterrado na ala sagrada do cemitério, ao lado dos pais.

    Lamarca soube da morte da amada dias depois. Perdeu a vontade de prosseguir na luta. Já havia caminhado em fuga cerca de 300 quilômetros pelo sertão baiano, ao lado do companheiro José Campos Barreto, o Zequinha. Foi encontrado em 17 de setembro por uma patrulha comandada pelo major Nilton Cerqueira, depois deputado federal e secretário de Segurança do Rio de Janeiro. Os comandantes torciam para que resistisse à prisão e não voltasse vivo. Contudo, de acordo com um militar que participou do episódio, as ordens do Centro de Informações do Exército eram para prendê-lo vivo. A idéia era mais tarde desaparecer com o corpo de Lamarca e vazar o boato na esquerda de que ele seria um agente infiltrado. Contudo, Cerqueira decidiu atender ao desejo da tropa.

    O capitão da guerrilha estava desanimado, fraco, desnutrido e doente. Foi encontrado dormindo debaixo de uma árvore. Zequinha ainda tentou reagir; morreu na fuga. Lamarca ficou no chão. O major e o capitão mantiveram então um rápido diálogo. Cerqueira indagou pelo nome: “Capitão Carlos Lamarca!”, identificou-se. A seguir perguntou onde estariam sua mulher e filhos: “Em Cuba”, respondeu. A última das perguntas: “Você sabe que é um traidor do Exército brasileiro?” Lamarca não respondeu, segundo Cerqueira. De acordo com um militar que acompanhou os acontecimentos, a desfeita de Lamarca teria sido pior. Balançou os ombros e braços, no gesto de quem quer dizer “e daí?”, e tentou se levantar dando as costas à patrulha. Terminou fuzilado no chão, aos 33 anos, pelo major Cerqueira. Segundo a autópsia, no estômago e nos intestinos do capitão Lamarca só havia capim. Da aventura, só restaram as mensagens jamais entregues à musa inspiradora.

    – Uma coisa é absoluta, inexorável – você é minha mulher – e isso é o que de mais lindo me aconteceu na vida. Se é antidialético crêr no absoluto, no eterno, eis-me, nesse caso um antidialético ferrenho. Saudade imensa, muito amor; seu só teu.

     

     

     

    1. Anarquista Lúcida

      29 de março de 2014 7:40 pm

      Que relato mais emocionante. Obrigada, Avatar

      1. IV AVATAR

        29 de março de 2014 10:01 pm

        Gente, obrigado digo eu

        Comovente a história dessas mulheres, foi muito doído fazer esse recorte, elas tão ou mais masssacradas que os homens, claro, ainda haviam os estupros, o sadismo, a misoginia, neste post coloquei mais links para textos sobre o horror pelo qual passaram estas mulhres 

        http://www.jornalggn.com.br/noticia/o-martirio-da-jovem-nilda-carvalho-cunha-17-anos-nos-poroes-da-ditadura

    2. CELSO ORRICO

      29 de março de 2014 8:57 pm

      Avatar, pelo relato

       

      Meninos, Eu Vi

      Chico Buarque

      Um grande amor

      Para viver um grande amor

      Eu vi o grande amor no claro olhar da minha amada, eu vi
      Que todo o grande amor ainda é pouco, ainda é nada, eu vi
      Amores que jamais verei
      Meninos, eu vivi
      Vivendo a poesia de verdade

      Também vi a cidade incendiada, eu tive medo
      Eu vi a escuridão
      Eu vi o que não quis
      Amei mais do que pude, eu fiquei cego de paixão
      E acho que enfim eu vi um homem ser feliz

      Juro que um dia eu vi um homem ser feliz

      Eu vi o grande amor escancarado em cada cara, eu vi
      O amor evaporando pelos céus da Guanabara
      Amores de imortal verão
      Meninas, como eu vi
      Vivendo poesia de verdade

      Eu vi uma cidade enfeitiçada, e tive medo
      Eu vi um coração
      Molhando o meu país
      Amei mais do que pude, eu fiquei cego de paixão
      E acho que enfim eu vi o homem ser feliz

      Juro que um dia eu vi o homem ser feliz..

       

      [video:https://www.youtube.com/watch?v=hUeuN2blMmE%5D

       

    3. Marcelo de Sousa Nascimento

      29 de março de 2014 10:36 pm

      A jovem Dilma conviveu com essa turma

      O romance foi testemunhado pela guerrilheira Vanda, codinome de Dilma Rousseff, hoje ministra da Casa Civil. “Eu e Lamarca lavamos muitos pratos juntos”, revela Dilma a ISTOÉ. “Era nessas horas que ele me fazia inconfidências sobre sua paixão por Iara.”

       Que coisa heim gente, a jovem Dilma conviveu com essa turma, foi das poucas que escapou, conseguiu superar as marcas da tortura, as cicatrizes ficam prá sempre

  2. IV AVATAR

    29 de março de 2014 5:39 pm

    Tão jovens

    Poderiam estar servindo ao nosso pais

    http://zonacurva.com.br/iara-iavelberg-e-sua-luta-contra-ditadura-militar

  3. Marcelo de Sousa Nascimento

    29 de março de 2014 5:43 pm

    Em busca de Iara

    http://www.guiadasemana.com.br/cinema/filmes/sinopse/em-busca-de-iara

  4. Marcos RTI

    29 de março de 2014 7:14 pm

    Iara – Comissão da Verdade

    [video:http://youtu.be/M9n-S0GYfs8%5D

  5. IV AVATAR

    29 de março de 2014 9:54 pm

    O martírio da jovem Nilda Carvalho Cunha, 17 anos, na ditadura
     

    PODERIA TER SIDO SUA FILHA, SUA IRMÃ, SUA NAMORADA…

    Nilda Carvalho Cunha foi presa na madrugada de 19 para 20 de agosto de 1971, no cerco montado ao apartamento onde morreu Iara Iavelberg. Foi levada para o Quartel do Barbalho e, depois, para a Base Aérea de Salvador. Sua prisão é confirmada no relatório da Operação Pajuçara, desencadeada para capturar ou eliminar o guerrilheiro Carlos Lamarca e seu grupo.

    Nilda foi liberada no início de novembro do mesmo ano, profundamente debilitada em consequência das torturas sofridas. Morreu em 14 de novembro, com sintomas de cegueira e asfixia. Ela tinha acabado de completar 17 anos quando foi presa. Fazia o curso secundário e trabalhava como bancária na época em que passou a militar no MR-8 e a viver com Jaileno Sampaio.

    […] um pouco do que Nilda contou de sua prisão:

     

    – Você já ouviu falar de Fleury? Nilda empalideceu, perdia o controle diante daquele homem corpuloso. – Olha, minha filha, você vai cantar na minha mão, porque passarinhos mais velhos já cantaram. Não é você que vai ficar calada […]. Dos que foram presos no apartamento do edifício Santa Terezinha, apenas Nilda Cunha e Jaileno Sampaio ficaram no Quartel do Barbalho. Ela, aos 17 anos, ele, com 18. – Mas eu não sei quem é o senhor… – Eu matei Marighella. Ela entendeu e foi perdendo o controle. Ele completava: – Vou acabar com essa sua beleza – e alisava o rosto dela. Ali estava começando o suplício de Nilda. Eram ameaças seguidas, principalmente as do major Nilton de Albuquerque Cerqueira. Ela ouvia gritos dos torturados, do próprio Jaileno, seu companheiro, e se aterrorizava com aquela ameaça de violência num lugar deserto. Naquele mesmo dia vendaram-lhe os olhos e ela se viu numa sala diferente quando pôde abri-los. Bem junto dela estava um cadáver de mulher: era Iara, com uma mancha roxa no peito, e a obrigaram a tocar naquele corpo frio. No início de novembro, decidem libertá-la. […] Na saída, descendo as escadas, ela grita: – Minha mãe, me segure que estou ficando cega. Foi levada num táxi, chorando, sentindo-se sufocada, não conseguia respirar. Daí para a frente foi perdendo o equilíbrio: depressões constantes, cegueiras repentinas, às vezes um riso desesperado, o olhar perdido. Não dormia, tinha medo de morrer dormindo, chorava e desmaiava. – Eles me acabaram, repetia sempre […].

     

    Em 4 de novembro, Nilda foi internada na clínica Amepe, em Salvador […] No mesmo dia, os enfermeiros tentaram evitar a entrada do major Nilton de Albuquerque Cerqueira em seu quarto de hospital, mas não conseguiram. Na presença da mãe, ele ameaçou Nilda, disse que parasse com suas frescuras, senão voltaria para o lugar que sabia bem qual era. O estado de Nilda se agravou, e ela foi transferida para o sanatório Bahia, onde faleceu, em 14 de novembro. No seu prontuário, constava que não comia, via pessoas dentro do quarto, sempre homens, soldados, e repetia incessantemente que ia morrer, que estava ficando roxa. A causa da morte nunca foi conhecida. O atestado de óbito diz: “edema cerebral a esclarecer”.

    (Trecho do livro Direito à memória e à verdade: Luta, substantivo feminino Tatiana Merlino – São Paulo: Editora Caros Amigos, 2010.)

    Nilda não foi violentada apenas por seus torturados. Foi violentada pelos donos dos meios de comunicação que apoiaram e sustentaram o regime militar. Foi violentada também por todos aqueles empresários e políticos reacionários que financiaram a repressão e lucraram com seu sangue, com suas lágrimas e com sua dor.

    Nilda poderia ter sido uma adolescente comum, feliz, cheia de sonhos. Mas a ganância, o egoísmo e a brutalidade de uma elite privilegiada e sem compromisso com nosso país, deram esse trágico fim a sua vida. Esta elite jogou milhares de jovens na clandestinidade, os torturou e os matou.

    Nilda ainda vive em cada um de nós, que acreditamos e lutamos pelos direitos humanos, pela vida, pela justiça e pela igualdade social. Mas ela continua sendo torturada nos dias de hoje. Ela está sendo torturada pela mídia que é contra os julgamentos dos criminosos da ditadura militar. E ela continuará sendo torturada enquanto políticos e empresários que apoiaram esse regime bárbaro continuarem livres. Ela foi torturada pelos atuais ministros do Supremo Tribunal Federal que recusaram o pedido de condenação dos praticantes de violações contra os direitos humanos nos porões do exército.

    Não deixe que aqueles que tentaram apagar Nilda da História tenham êxito. Nosso país somente terá democracia plena quando acertar as contas com seu passado. Apóie a Comissão da Verdade e Reconciliação que irá julgar os crimes praticados pelos órgãos de repressão do regime militar. Crimes contra a humanidade não prescrevem!

     

    Visite o site e baixe os livros do projeto Memórias Reveladas

    http://www.memoriasreveladas.gov.br/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?infoid=17&sid=4

     

    Não consegui identificar a autoria do post mas tudo leva-me a crer que se trata de Eduardo Lima, caso o mesmo apareça por aqui favor se manifestar

    http://www.comunistas.spruz.com/blog.htm?b=&tagged=Nilda+Carvalho+Cunha

  6. IV AVATAR

    29 de março de 2014 9:55 pm

    A história de Aurora, amiga de Iara
    Direitos Humanos
    Memória e EmoçãoUm desfile emocionado de depoimentos de parentes e antigos companheiros marcou a homenagem realizada pelo Conselho Regional de Psicologia de São Paulo, no dia 12 de março, às psicólogas Aurora Maria Nascimento Furtado e Iara Iavelberg. Engajadas na luta armada contra o Regime Militar, ambas foram mortas na década de 1970 pelos órgãos de repressão. “Iara e Aurora foram pessoas vinculadas à Psicologia e que pagaram com a vida a decisão de enfrentar a Ditadura”, disse a conselheira Sandra Sposito, do Comitê de Direitos Humanos do Conselho. “O objetivo do CRP SP foi fazer um resgate histórico e oficializar um reconhecimento a elas.” Um maracá, objeto utilizado por tribos indígenas em rituais de cura e reparação, foi entregue pela direção do CRP SP a representantes dos familiares. 

    A cerimônia encerrou o evento Psicologia e Direitos Humanos na Sociedade Brasileira, realizado na sede do CRP SP, que formulou propostas posteriormente encaminhadas ao VII Congresso Nacional de Psicologia. O encontro contou também com as palestras Direitos Humanos na Atualidade Brasileira, com o professor Emir Sader, e Direitos Humanos e Mídia, apresentada pelo psicólogo Paulo Endo. 

    História revista – A conselheira do CRP SP e Coordenadora Geral de Combate à Tortura, da Secretaria Especial de Direitos Humanos da Presidência da República, Maria Auxiliadora Almeida Cunha Arantes, lembrou o compromisso histórico dos psicólogos com os Direitos Humanos. “Assim como as homenagens que fizemos à ex-reitora da PUC, Nadir Kfouri, e ao jurista Fábio Comparato, essa homenagem a Aurora e a Iara é uma iniciativa importante para recuperar uma verdade histórica que muitos tentam eclipsar sob um manto de silêncio.” 

    “É fundamental legitimar o que Aurora e Iara fizeram e continuar a luta por aquilo que é o núcleo mais profundo daquilo pelo que elas dedicaram suas vidas: uma sociedade igualitária e livre”, disse o jornalista e ex-preso político Alípio Freire, num dos testemunhos feitos ao longo da cerimônia. Alípio falou a pedido de familiares de Aurora ali presentes, como a irmã, a jornalista Laís Tapajós, que ali se encontrava ao lado do marido, José Victor Couto e das filhas, Marina e Flávia. Ele ainda declamou a poe­sia Prenúncios da Aurora, feita em homenagem à “Lola”, como a psicóloga era conhecida em sua antiga organização. 

    Irmão de Iara, o fotógrafo Samuel Iavelberg contou sobre a infância e juventude passados no bairro do Ipiranga, em São Paulo, o envolvimento da irmã com o movimento estudantil e a posterior adesão à luta armada, ao lado do companheiro, também assassinado, Carlos Lamarca. “Iara e Lamarca sabiam que não continuariam vivos se permanecessem no Brasil”, avalia Samuel. Segundo ele, a decisão de ir para o interior da Bahia demonstrou uma fidelidade a valores e um grande respeito aos companheiros de luta. Ainda sobre Iara, falou também, com muita emoção, o sargento Darcy Rodrigues, que atuou ao seu lado na guerrilha do Vale do Ribeira. 
     Prenúncios da Aurora
    I
    Aurora
    eu te diviso
    ainda tímida
    inexperiente
    das luzes
    que vais acender
    dos bens
    que repartirarás
    com todos os homens
    – Pronunciou o poeta gauche
    em seu sentimento do mundo
    Antes
    muito antes
    de nascer
    Aurora.

     
    Aurora

     II
    Quando telefonava
    clandestina
    para encontros
    clandestinos,
    identificava-se
    Luiza Porto
    Lola era afável
    posto que estrábica
    muito levemente estrábica
    atirava bem
    Muito bem
    até que um dia
    não ligou nunca mais.

    Acabou a poesia.

    Alípio Freirehttp://www.crpsp.org.br/portal/comunicacao/jornal_crp/165/frames/fr_direitos.aspx
    Iara

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  7. IV AVATAR

    1 de abril de 2014 3:10 pm

    O documentário

     

    Trecho exclusivo de Em busca de Iara revela intensidade do amor de Lamarca

    http://www.jornalggn.com.br/noticia/trecho-exclusivo-de-em-busca-de-iara-revela-intensidade-do-amor-de-lamarca

  8. Eliza

    11 de dezembro de 2014 4:27 am

    ditadura a ceifa maléfica que assassinou tantos bons jov

    emocionante…poderia ser sua irmã,filha,,,

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