5 de junho de 2026

Frida Kahlo: exposição em São Paulo, por Walnice Nogueira Galvão

Siga o Jornal GGN no Google e receba as principais notícias do Brasil e do Mundo

Seguir no Google

Por Walnice Nogueira Galvão

Frida Kahlo demorou a ser reconhecida como grande artista, obscurecida que foi pelo brilho dos muralistas mexicanos, um deles seu marido Diego Rivera.

Movimento artístico original e inovador, nascido da Revolução Mexicana, o muralismo  deu a nota nos anos de 20 e 30. De inspiração política, devotou-se a realizar uma arte para o povo, a ser exibida permanentemente em lugares públicos. Cobriram-se as paredes de escolas, palácios, ministérios, igrejas, pátios, etc., com painéisgigantescos versando os afazeres do povo, as lutas contra a opressão dos poderosos, o passado e o presente indígenas. Além de falar ao povo, era uma arte que retratava o povo. Seus nomes centrais foram Rivera, Orozco e Siqueiros: influenciaram o mundo inteiro, aliásinfluenciam até hoje. Quanto a nós, tivemos em Portinari nosso principal muralista. Esses pintores foram marcados não só pelo realismo socialista e pela arte soviética, mas também pelas vanguardas europeias, como o cubismo e o surrealismo.

A fama dos muralistas mexicanos logo ultrapassaria fronteiras. Foi assim que um amador de arte norte-americano, Nelson Rockfeller, veio a encomendar a Diego Rivera  um mural destinado ao Rockfeller Center, em Nova York, então em construção. Mas o resultado desagradou ao mecenas, que o mandou destruir – crime de lesa-patrimônio-da-humanidadeque até hoje escandaliza. Além de exaltar os operários e não os patrões, o painel tinhacomo eixoa efígie de Lenin.

A curadora da presente exposição, Teresa Arcq, fez uma escolha inteligente: apresentar Frida em meio a 15 artistas mexicanas com afinidades estéticas. Não se ateve apenas às pinturas conspícuas, mas incluiu esculturas, esboços, fotos, títeresfeitos com fios de metal, notícias de jornal, cartas,documentos. Incluiu ainda seis trajes completos, típicos das camponesas do país: Frida gostava não só de usá-los como tambémde se retratar neles. São roupas multicores, que combinam tecidos de estampas diferentes, sobrecarregadas de tons, de texturas e de bordados – lindas, em suma.

Estas 15 notáveismulheres imprimiram sua marca nas artes plásticas, na fotografia, no teatro, na dança, na literatura, no jornalismo, no design. Algumas eram nativas, outras  chegaram ao México tangidas pelas convulsões dos anos 30, como nazismo e Segunda Guerra. Entre as locais, destaca-se a figura interessantíssima de Maria Izquierdo, de obras perturbadoras, que mereceu artigo de Antonin Artaud. Partilhando a vocação para a arte popular e os costumes do povo,elas efetuam  perquirições surrealistas pelos domínios do onírico, do inconsciente e do mítico.

País de cultura riquíssima – talvez o mais rico das Américas, nesse sentido -, o México pode se orgulhar de um esplêndido passado, visível por toda parte nos monumentosdas civilizações asteca e maia, a que não ficou alheia a obra dessas mulheres. Vale destacaras releituras do gêneronatureza morta e sua metamorfose em “natureza viva”,com base emexuberantes frutas tropicais: formas voluptuosas, pulsando de seiva, femininas. Contemplaras cores violentas e jubilosas de Frida em meio às outras amplia nossa visão e faz-nos perceber, mais que sua figura isolada, o panorama em que atuou.

Entre os quadros da própria Frida, estão alguns dos mais icônicos: cercada por macaquinhos; ou vestida de noiva camponesa com “resplendor” de renda em torno do rosto; ou com Diego Rivera nu e minúsculo ao colo;ou então aqueles em que aparece desentranhada e mutilada.

O acervo de Frida está conservado na Casa Azul, onde nasceu, viveu, recebeu muita gente inclusive seu amigo Trotsky, e morreu, na Cidade do México. Opulento, afora obras de arte dela e de outros, contémuma vasta coleção dos trajes das índias com que gostava de se paramentar. Uma pequena parte de suas telas encontra-se no Museu Diego Rivera.

A exposição ora em São Paulo é das mais arrebatadoras e, graças à concepção da curadora, uma verdadeira viagem ao mundo maravilhoso de todas aquelas mulheres. Ainda está em tempo de vê-las, até 10 de janeiro no Instituto Tomie Ohtake.

Walnice Nogueira Galvão

Professora Emérita da FFLCH-USP

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Mais lidas

As mais comentadas

Colunistas

Ana Gabriela Sales

Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É...

Carla Castanho

Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

2 Comentários
...

Faça login para comentar ou registre-se.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

  1. altamiro souza

    26 de dezembro de 2015 4:17 pm

    quando vejo algo da arte

    quando vejo algo da arte mutilada de frida,

    isso me corta o coração…

    a histófia de sofrimento dela é marcante na arte universal…

  2. Free Walker

    26 de dezembro de 2015 7:59 pm

    Pena q fica longe, gostaria

    Pena q fica longe, gostaria imensamente que a “explosão” de cores de Frida penetrassem meus olhos..

Recomendados para você

Recomendados