21 de maio de 2026

 Museus universitários funcionam sem planejamento estratégico, por Letycia Bond

A maioria tem equipe muito enxuta e vive sem tombamento e soluções para danos repetidos
Igor Linhares

▸ Museus universitários operam sem planejamento, segurança e prevenção de riscos, revela pesquisa do Ibram com 124 instituições.

▸ Água, pragas e umidade danificam acervos de museus, que sofrem com falta de recursos e avaliação de riscos.

▸ Visitantes de museus ainda são minoria no Brasil, com Sul liderando acessos; interesse educativo motiva visitação.

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Resumo gerado por Inteligência artificial

 Museus universitários funcionam sem planejamento estratégico e antecipação de ameaças

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por Letycia Bond

Grande parte dos museus universitários do país está operando no limite, com equipes extremamente reduzidas, sem programa de segurança, plano museológico, mecanismos preventivos de avaliação de risco nem medidas de enfrentamento às mudanças climáticas. É o que revela uma pesquisa consolidada pelo Instituto Brasileiro de Museus (Ibram) (https://www.gov.br/museus/pt-br/centrais-de-conteudo/publicacoes/relatorios-e-documentos/pesquisa-de-gestao-de-riscos-para-museus-universitarios-resultado-2025.pdf), que abarcou 124 instituições

Quase um quinto (19%) já viu seu acervo ser danificado pela água, 14% tiveram problemas com pragas e 10% com umidade incorreta. A lista dos cinco principais fatores, já em menor proporção, é completada por furto/roubo ou vandalismo (9%) e dissociação (6%).

A maioria (70%) não precisou suspender a visitação, mas 15% tiveram que tomar essa providência enquanto solucionavam os danos provocados. Uma parcela de 9% fechou as portas por dois ou três dias. 

Os pesquisadores ainda levaram em conta outros fatores: luz e radiação ultravioleta (UV) e infravermelha (IV); forças físicas (4%); fogo incêndio (4%) e poluentes (4%). Somente uma instituição afirmou nunca ter sofrido nenhum dano.

Em relação ao impacto que os fatores tiveram nos museus, concluiu-se que quase metade (48%) teve prejuízos pequenos. Um quarto (25%) declarou que seus acervos foram afetados minimamente ou de modo insignificante. Quase a mesma proporção (23%), porém, viu como resultados danos significativos em uma parte específica daquilo que está sob sua guarda. Oito em cada dez (77%) passam por essas situações repetidas vezes, todos os anos

O que mais aflige os museus do Norte são o aumento do volume e da intensidade das chuvas, o aumento da temperatura, do teor de vapor de água no ar, as mudanças no ciclo das estações e a propagação de espécies e pragas invasoras. No caso do Nordeste, algumas das mudanças climáticas associadas são as mesmas da região vizinha, mas figuram também o aumento de tempestades (incluindo furacões e ciclones), acidificação do oceano (impacto direto do aumento de CO2) e ao lençol freático.

No Sudeste, o receio é de haver danos decorrentes do aumento e intensificação das chuvas e da temperatura, quadro que se observa também quanto ao Centro-Oeste. No Sudeste, também foram citados pelas organizações museais, o aumento das tempestades, do vapor de água no ar e da velocidade do vento, além da propagação de espécies e pragas. O Sul, por sua vez, apresentou semelhantes com o Sudeste, com exceção da propagação.

A pesquisa evidencia, paralelamente, o vácuo na esfera da avaliação de riscosCerca de um terço (30%) não utiliza nenhuma ferramenta com essa finalidade, o que faz com que seja ainda mais difícil de contornar danos aos acervos. Ao todo, 28% mantêm inspeções periódicas, 21% fundamentam suas decisões com base em relatórios de vistoria e um quarto (25%) só realiza avaliação de risco depois que se deparam com algum problema.

Panorama dos museus universitários do país

De acordo com a Rede Brasileira de Coleções e Museus Universitários (RBCMU) (https://rbcmu.com.br/sobre-a-rede/), de criação recente, que data de 2017, o boom, no país, de instituições dessa natureza ocorreu nas décadas de 2000 e 2010. De 1950 para 1960, houve um salto expressivo, de 15 para 50 museus, e algo semelhante é constatado ao se analisar a virada de 1970 para 1980 e de 1990 para 2000. 

Igor Linhares, um dos coordenadores do Museu de Arqueologia e Paleontologia da Universidade Federal do Piauí (UFPI) (https://www.instagram.com/mapufpi/), de natureza temática, comenta que o zelo por esse tipo de instituição só foi ganhar um pouco mais de atenção com o incêndio que consumiu o Museu Nacional do Rio de Janeiro, gerido pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), em setembro de 2018 (https://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2018-09/ufrj-incendio-no-rio-e-maior-tragedia-museologica-do-pais). Naquele mesmo ano, houve outros dois incidentes, um registrado um mês antes, que consistiu em uma explosão de menor proporção em um laboratório de metalurgia e deixou três feridos, e outro em junho, no Hospital Universitário Clementino Fraga Filho, conhecido como Hospital do Fundão (https://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2018-09/ufrj-tem-historico-de-incendios-nos-ultimos-anos). Wagner Victer, então secretário estadual de Educação, já havia alertado, em 2004, sobre o sucateamento e a consequente fragilidade da estrutura da instituição, quando comandava a pasta de Energia, Indústria Naval e Petróleo (https://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2018-09/risco-de-incendio-no-museu-nacional-foi-denunciado-ha-14-anos). 

Linhares ressalta que o MAP-UFPI, como os demais museus universitários, tem recursos advindos do orçamento da universidade à qual está vinculado, mas que, no seu caso, conta, como fonte adicional, com contrapartidas de empresas que encaminham materiais obtidos pelas regras vigentes de licenciamento ambiental. Isso, juntamente com o vínculo direto do museu com a reitoria, evita efeitos desastrosos causados por cortes nas verbas da instituição de ensino. 

Com um cobertor um tanto curto de recursos, porém, alguns aspectos ficam um pouco longe do ideal. “A expografia é o espaço de exposição. A gente não pôde, por exemplo, atualizar isso, e não conseguiu colocar materiais excepcionais, de espécies únicas da região, ou materiais arqueológicos muito específicos de determinados sítios arqueológicos, que têm datas e registros interessantes, na atual expografia do museu, em virtude desse orçamento limitado”, pontua Igor Linhares, observando que um projeto arquitetônico foi elaborado para o museu, mas morreu no esboço, pela impraticabilidade financeira.

Invisibilidade de profissionais e espaços

Segundo ele, nem sempre é possível dimensionar o desempenho dos especialistas ligados aos museus. “Há várias pesquisas sendo reconhecidas nacional e internacionalmente, mas, quando a pessoa chega ao museu, não vai ver isso retratado nele, porque a gente não tem o expositor adequado, um processo para fazer com que esse conhecimento chegue. Esse é o nosso grande desafio hoje”, afirma. 

Atualmente, o quadro de funcionários do MAP-UFPI é composto por um único servidor de carreira e dois funcionários que são, na verdade, estudantes cedidos pela graduação. Penosa realidade, aliás, de 68 dos museus que participaram do levantamento do Ibram e têm até cinco funcionários. Para a tomada de decisões na federal piauense, são levadas em consideração colocações resultantes de encontros de um conselho formado por discentes e docentes. 

Em relação ao perfil preponderante de visitantes, Linhares informa que são alunos da rede pública, do nível básico, ou seja, ensinos fundamental e médio. O público, contudo, não fica restrito a habitantes do Piauí, tendo uma parcela expressiva de moradores de municípios maranhenses, como Codó, a três horas de Teresina.

Museus como extensão da sala de aula e algo desconhecido

Conforme destaca o coordenador piauiense, muitas pessoas ainda não veem os museus como uma opção de diversão ou passatempo nem fonte de aprendizagem. Uma pesquisa organizada pela consultoria JLeiva Cultura & Esporte, com patrocínio do Itaú e do Instituto Cultural Vale, por meio da Lei Rouanet, demonstrou que o Sul do Brasil é a região que mais acessa esse tipo de espaço (35%), seguido pelo Sudeste (32%), Norte (25%), Centro-Oeste (20%) e Nordeste (17%) (https://culturanascapitais.com.br/wp-content/uploads/2025/02/Capitais-%E2%80%94-Sao-Paulo.pdf). Foram avaliados os níveis médios de visitação nas capitais. 

No município de São Paulo, as idas aos museus ficam na metade do gráfico (32%) e ficam distantes dos 9% que vão a concertos e dos 66% que se entretêm com livros, algo que não exige deslocamento pela cidade. Ao todo, 30% declararam nunca ter pisado em um museu, em toda sua vida, proporção que é de 66% quanto a concertos e 10% em relação a livros. 

Um total de 26% sinalizou forte interesse em incorporar visitas a museus ao seu rol de atividades culturais e outros 20% médio interesseO que mais moveu metade dos visitantes a fazer esse programa foi aprender/ter conhecimento (50%), o que evidencia a expectativa de terem acesso a uma função importante dos museus: seu caráter educativo. Entre os fatores que impediram a passada da população nesses locais, estão falta de tempo (40%), falta de interesse (26%), questão econômica (15%) e ausência de equipamento museológico perto de sua residência (9%). Para a obtenção dos resultados, a consultoria JLeiva coletou impressões e respostas de 19,5 mil pessoas com idade acima de 16 anos, entre fevereiro e maio de 2024.

Texto enviado pela autora.

Letycia Bond | letyciabond@pm.me | Nascida em 1988. Multiartista, jornalista de direitos humanos e não humanos, poeta, fotógrafa, pesquisadora da Universidade de São Paulo (USP) e designer. Batuqueira, brincante. Cofundadora do Coletivo Shireen Abu Akleh de Jornalistas Contra o Genocídio, rede pró-Palestina. | letyciabond.com

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