5 de junho de 2026

O carnaval político de Belo Horizonte e a reavivação do rito carnavalesco, por Marcelo Dias

No Brasil, o carnaval costuma cumprir um papel antigo: oferecer alívio a uma sociedade que historicamente evita rupturas reais.
Bloco da Esquina - Flickr

O carnaval de Belo Horizonte nasceu como movimento político e integra a ritualidade da festa, rompendo a ordem social.
No Brasil, o carnaval oferece catarse social temporária, permitindo uma “evolução da liberdade” sem mudanças estruturais permanentes.
BH enfrenta desafios urbanos e sociais graves, enquanto o carnaval político mantém o mito da ruptura anual da ordem vigente.

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O carnaval político de Belo Horizonte e a reavivação do rito carnavalesco

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por Marcelo Dias

Nunca nos esqueçamos: o carnaval de Belo Horizonte nasceu e é fruto de um movimento político. Essa declaração não é apenas sobre o carnaval; ela faz parte do próprio carnaval. Funciona como um elemento da festa, um trecho obrigatório do enredo — tão indispensável quanto o estandarte, o refrão e a fantasia. Porém, vale lembrar que esse “ser político” do carnaval integra a ritualidade central da própria festa carnavalesca: a ideia de que, por alguns dias, a cidade rompe com a ordem e se reorganiza pela alegria.

E isso não é uma invenção de BH. No Brasil, o carnaval — tema explorado pelo antropólogo Roberto DaMatta, em seu clássico Carnavais, malandros e heróis — costuma cumprir um papel antigo: oferecer alívio a uma sociedade que historicamente evita rupturas reais. Em vez de transformação, catarse. Em vez de mudança estrutural, uma licença coletiva — intensa, bonita e, ao mesmo tempo, com prazo de validade. A política do carnaval é exatamente essa: permitir que a sociedade experimente uma “evolução da liberdade” até o dia clarear, sem que isso exija a permanência da liberdade quando amanhece, como com maestria cantou Chico Buarque. A folia aparece como tratamento coletivo para uma enfermidade social que não se resolve na rua — mas se alivia na rua, ao som do samba.

E depois? E depois da quarta-feira de cinzas?

É por isso que, quando se afirma com convicção que o carnaval de BH “nasceu político” e “é político”, se confirma o próprio mito que se pretende celebrar. Porque o mito não precisa negar os fatos — ele só precisa dar sentido a eles.

Nada disso é desprezo pelo carnaval. Pelo contrário: é reconhecer seu caráter ritual. É levar a festa a sério. O carnaval tem força simbólica, reorganiza sensibilidades, cria comunhão, amplia a imaginação do que pode ser a vida pública. Mas, exatamente por ser ritual, ele carrega a sua cláusula de retorno.

Então, quando Belo Horizonte repete que “o carnaval é político”, convém entender o que está sendo dito. Sim, há pauta, há crítica, há resistência, há memória. Mas a própria afirmação do “político” funciona como parte do carnaval: uma encenação necessária para que a festa continue sendo vivida como ruptura — mesmo quando o cotidiano volta, teimoso, ao seu padrão. Por alguns dias, fingimos chegar ao lugar que gostaríamos de ser, mas para o qual não queremos ir. A mudança exigiria conflito, custo real e mudança de hábitos. O cotidiano, afinal, segue confortável para quem aplaude a ideia de ruptura, desde que ela termine com data e horário marcados. Que continue brilhando, sem precisar mudar de endereço.

No mesmo período em que o carnaval “cresceu” e virou marca da cidade, Belo Horizonte também precisa ser lida pela sua trajetória concreta. A privatização dos espaços públicos, denunciada lá no início, continuou; as passagens de ônibus seguiram entre as mais caras do país, a ponto de o número de usuários cair enquanto o trânsito piorou muito. O supermercado pesa no orçamento, e a cidade chegou a figurar como campeã nacional de inflação de alimentos em 2023. Soma-se a isso um quadro de exaustão social: indicadores ruins de saúde mental, com BH entre as capitais com mais diagnósticos de depressão, em segundo lugar. O lazer público segue escasso e precário (a Praça do Papa fechada há dois anos virou símbolo), e até o futebol se afastou do povo — mais espaços “lounge”, menos “gerais”. Persistimos na lógica mais retrógrada de ocupação urbana, a “cidade do carro”: barulho, engarrafamento, exigência de vagas de estacionamento, pressa e gasto público, enquanto a ciclovia da Afonso Pena, ainda que prevista, vira novela. A especulação imobiliária segue espantando as pessoas; o custo de moradia já ultrapassa o da zona sul carioca cantada por Chico Buarque — só que sem praia, sem roda de samba todo dia, sem vida cultural agitada, sem graça. Nesse mesmo intervalo, a capital perdeu cerca de 60 mil moradores, elegeu conservadores com ampla margem para diversos cargos e, passada a folia, assiste a agendas regressivas ocupando o centro do poder local, na cidade da “tradicional família”, aprovada em lei, diga-se.

Onde foi que avançamos, afinal, de dez anos para cá?

O carnaval passa, e o mito precisa ser recontado no ano seguinte.

Se no Natal temos o Papai Noel e na Páscoa temos o Coelho, no carnaval nós temos a Política. E, mesmo sabendo que se trata de uma história necessária para sustentar o ritual, faz parte do nosso papel de adultos reavivar esse mito — e, por alguns dias, acreditar nele — para que a festa continue existindo. O erro está em quem faz a festa continuar acreditando no mito, no longo período que vai da tarde da quarta-feira de cinzas até a próxima sexta-feira de carnaval.

Marcelo Dias – Professor de Biologia, mestre em Ecologia e Fisiologia e doutorando em Ecologia pela UFMG. Atua na Educação de Jovens e Adultos e em iniciativas de alfabetização, além de integrar coletivos ligados ao plantio, à mobilidade ativa e à arborização urbana. Cidadão crítico da cidade, escreve sobre vida urbana e políticas públicas.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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