Por Carlos Henrique Machado
Não sei, mas acho que o rumo dessa prosa está cheirando a certa falta de profundidade sobre a obra e a alma de Monteiro Lobato. Um eugenista escreveria o que transcrevo abaixo?
“É preciso frisar que o Brasil está no interior, nas serras onde moureja o homem abaçanado pelo sol; nos sertões onde o sertanejo vestido de couro vaqueja; nas cochilas onde se domam poldros; por esses campos rechinantes de carros de boi; nos ermos que sulcam tropas alijeiradas pelo tilintar do cincerro.
Está nas fazendas de ferro, onde uma metalúrgica semi-bárbira revive um passado morto.
Está nas caatingas esturricadas pela seca, onde o bochorno cria dramas, angústias e dores inimagináveis à gente litorânea. Está na palhoça de sapé e barro, está nas vendolas das encruzilhadas, onde, ao calor da pinga se enredam romances e se liquidam pendengas com argumentos de guatambu chumbado.
É desse filão de aspectos que há de sair um punhado de obras afirmativas de nossa individualidade racial. A rota é uma só: fugir à costeria praguejada de imigracionismo espécie de esperanto de ideias e costumes onde a literatura naufraga e as artes plásticas se retransem na frialdade do pastiche e meter o alvião à massa formidável do inédito.
Ali não há a politicagem estética das capitais nem academias amodorrantes, nem dogmas vestidos por figurinos, nem papas pensionadores.
Há a natureza estupenda e, formigando dentro dela, um homem seu filho expoente de sua vis, rude, bárbaro, inculto, heróico sem o saber, imensamente pitoresco e suprema recomendação! Sem um crepúsculo de francesismo a lhe aleijar a alma”. (Monteiro Lobato – Cidades Mortas).
Outro trecho de um artigo da coletânea de “Ideias de Jeca Tatu”, que me parece com bastante clareza repudiando o eugenismo.
“Basta que no “Trianon” entre flores exóticas, encasado à francesa, conversando em argot, comendo foiegras de nantes, ouvindo versos de d’Avray, aspirando perfume de Fre Val, sonhando passeatas chiques pelos Bois de Boulogne e comentando a política de Briand ou a derradeira peça de Bataille, passe na rua um cafageste gemendo no pinho “Luar do Sertão”, para que o Brummel se remexa na cadeira, perca o aprumo, quebre a linha, estale o verniz, arregale o olho e denuncie a mentira viva que ele prega em oito ou dez avós vaqueiros, açucareiros ou tropeiros que lhe circulam no sangue”. (Monteiro Lobato).
Há ainda no mesmo livro, Ideias de Jeca Tatu, um trecho curioso em que os termos “macaquinhos e macacões” são direcionados aos brancos eugenistas, francesistas que sempre receberam fogo cerrado de Lobato.
“Convenhamos: a imitação é, de feito, a maior das forças criadoras. Mas imita quem assimila processos. Quem decalca não imita, furta. Quem plagia não imita, macaqueia. E o que os paredros do “dernier cri” fazem não passa de caretas, guinchos, pinotes de monos glabros em face dos homens e das coisas de Paris.
– Macaquitos, então?
– Upa! Macacões!” (Monteiro Lobato).
Neste livro, a nota dos editores narra: “que Monteiro Lobato aparece em mangas de camisas, integralmente, ele próprio no pensamento e no modo de expressá-lo – Vivo, alegre, brincalhão e com uma ironia às vezes levada até a crueldade. Nunca, como neste livro Lobato foi tão Lobato
Repetindo aqui no fora da pauta o que postei,no assunto sobre Monteiro Lobato que já esta fora da pagina central.
Por José Roberto F. Militão
Prezado CARLOS HENRIQUE,
Reitero, que, sem entrar no mérito literário, a questão ideológica do racismo evidente para um eugenista entusiasmado e militante, é saber se isso está ou não traduzido na literatura infantil, pelo simples e relevente fato de ser destinado ao público infantil. Meus filhos, afrobrasileiros, ganharam e leram, com minha crítica antirrasta, os livros de Lobato.
Porém, o que se pede, é que o estado, expressamente contextualize a obra, já que contemplada por financiamento público, que não admite a pregação racialita – a crença em raças humana – nem pode estimular o ensino da hieraquia racial, base nuclear da ideologia racista.
Mesmo o nacionalismo, semente de conflitos, é um sentimento reducionista da humanidade que deve e merece ser tratada com valores universais.
A propósito de LOBATO e a eugenia, vejamos o que diz a academia, em que destaco a incrível idéia da possibilidade da ´poda´ humana, ou seja, a figura retórica da retirada dos galhos podres ou inférteis como ´solução´ para a humanidade. Isso é a concepção eugenista, a mesma que inspirou Hitler e se realizou na Alemanha nazista. A ´poda´ humana:
“MONTEIRO LOBATO E O CHOQUE DAS RAÇAS”
© ACERVO ICONOGRAPHIA
PIETRA DIWAN é mestre em história pela PUC-SP e autora do livro Raça pura: uma história da eugenia no Brasil e no mundo (Contexto, 2007).
http://www2.uol.com.br/historiaviva/reportagens/eugenia_a_biologia_como_farsa_imprimir.html
Monteiro Lobato: para o escritor, que defendia a eugenia, “a humanidade precisava de poda, assim como a vinha”.
O choque das raças ou o presidente negro é o único romance escrito por Monteiro Lobato. Em 1926, o autor criou uma trama futurista num tempo regido pela eugenia, no qual é eleito o primeiro presidente negro dos Estados Unidos, no ano de 2228.
A partir desse enredo, Lobato faz a defesa dos ideais eugênicos. O entusiasmo com a doutrina aparece também em carta escrita a seu amigo, o médico Renato Kehl:
– “Renato, tu és o pai da eugenia no Brasil e a ti devia eu dedicar meu Choque, grito de guerra pró-eugenia. Vejo que errei não te pondo lá no frontispício, mas perdoai a este estropeado amigo. (…) Precisamos lançar, vulgarizar estas idéias. A humanidade precisa de uma coisa só: póda. É como a vinha. Lobato.”
A ficção de Lobato contém em si a junção de todos os desejos e medos de uma sociedade eugenizada. Segundo o autor, o princípio da eficiência “resolverá todos os problemas materiais dos americanos, como o eugenismo resolverá todos os problemas morais”.
Para Lobato, “a eugenia e a eficiência seriam as chaves para solucionar os males da humanidade.” (P. D.)
abraço, J. Roberto Militão
Por Carlos Henrique Machado
Roberto Militão
Continuo sentindo falta de pontos que identifiquem com clareza o eugenismo em Lobato. Postei esses trechos de Lobato como forma de contribuir para o debate. Da mesma forma, gostaria de salientar o seguinte: quando surge na música brasileira o conceito de músicos nacionalistas, ele aparece justamente como uma contraofensiva à xenofobia ao contrário, ou seja, compositores brasileiros considerados eruditos usavam da estratégia do codinome para assinar as suas peças de caráter mais estreito com a cultura espontânea brasileira, no jargão conceitual nessa escala de valor, peças populares. O conceito nacionalista, pelo menos aqui neste episódio musical do período, nasce de um propósito insurgente que quer não cercear as informações externas, mas a doutrina aplicada a ferro e fogo contra qualquer elemento que pudesse ter como esteio a linguagem da própria sociedade brasileira, ou seja, nacionalismo dentro do reduto musical do começo do século XX tratava de abrir as portas para a sociedade e sua representação cultural, jamais um conceito ufanista ou xenófobo.
Portanto, chamo a atenção para o fato de que precisamos contextualizar determinados conceitos. Se levarmos tudo ao pé da letra, não ficará pedra sobre pedra no Brasil, aonde os demônios já foram deuses, e os deuses nos foram apresentados, prinicpalmente, nessa última eleição, como demônios. Compreendo sim, Roberto, a sua preocupação serena em discutir cada vírgula, cada compasso das informações que chegam aos nossos filhos, melhor, aí te parabenizo, pelo franco debate que tanto necessitamos.
Gostaria de recomendar a última entrevista que Lobato deu a uma rádio (Nassif postou aqui no blog no começo da semana) em que ele ironicamente defende a bomba atômica para todos os países em nome da paz, dependendo da edição, ja ja teremos gente dizendo que Ahmadinejad se inspira em Lobato para destruir o mundo.
Um grande abraço.
Deixe um comentário