
Louis Daniel Armstrong (Nova Orleans, Louisiana, 4 de agosto de 1901 – Nova Iorque, 6 de julho de 1971)
Os 115 anos de Louis Armstrong, por Mara L. Baraúna
Apelidado de Satchmo, é filho de Mary Albert Armstrong (1886 – 1942) e William Armstrong (1881 – 1922) e neto de escravos no século XIX. Armstrong nasceu numa família muito pobre e passou sua juventude num bairro de Nova Orleans, conhecido como “as costas da cidade”. O pai abandona a família durante a infância de Louis que passa os primeiros anos de sua vida vivendo com sua avó paterna, Josephine Armstrong. Aos cinco anos de idade, Louis vive em uma casa de dois quartos com sua mãe e irmã, Beatrice.


Em 1907, forma um quarteto vocal com três outros meninos e toca nas esquinas para ganhar algum dinheiro. Os Karnofskys, uma família de imigrantes judeus russos, contrata Louis para trabalhar em sua carroça de lixo. Compra seu primeiro trompete com dinheiro emprestado pelos Karnofskys, considerando-os como membros da família, visto que cuidaram dele vários dias e noites, enquanto a sua mãe trabalhava. Por essa razão, Louis usou uma Estrela de Davi pelo resto de sua vida.
Em 1912, dispara uma pistola na rua para celebrar o Ano Novo. Um policial nas proximidades o leva a uma casa de correção juvenil, a New Orleans Home for Colored Waifs onde, numa banda amadora, desenvolveu a sua maneira de tocar trompete. O professor Peter Davis instalou disciplina e providenciou educação musical ao rapaz. Eventualmente, Davis fez de Armstrong o líder da banda. A Home tocou por toda Nova Orleans e o rapaz passou a chamar atenção pelo modo como tocava.

Em 16 de junho de 1914 ele conseguiu a liberdade e saiu para viver com o seu pai e a madrasta, mas em seguida retorna para sua mãe. Trabalhava vendendo papéis velhos, carregando peso nas docas e vendendo carvão para ajudar a alimentar a família.
Joe Oliver, um dos melhores trompetistas de Nova Orleans, torna-se professor e mentor de Louis. Com a mudança de Oliver para Chicago, Louis toma seu lugar na banda e também toca ocasionalmente com a Tuxedo Brass Band.
Ganhou o seu primeiro emprego noturno no Henry Ponce’s, onde Black Benny se tornou o seu protetor e tutor. Ele ouviu e aprendeu com os músicos mais velhos sempre que podia, como Bunk Johnson, Buddy Petit, Kid Ori e com Joe King Oliver, que se tornou uma figura paternal para o jovem. Mais tarde, ele tocou nos river boats de Nova Orleans, subindo e descendo o Mississipi. Ele descreveu esse tempo como “indo para a universidade”, o que lhe proporcionou uma experiência única. Na zona da prostituição da cidade, a Storyville, conheceu grandes nomes daquilo que viria a ser o jazz, como Sidney Bechet e Joe Lindsay. Quando a zona foi fechada pela Marinha americana, todos eles se mudaram para Chicago à procura de emprego.
Em 19 de março de 1918, casou-se com Daisy Parker, uma prostituta de Gretna, Louisiana e adotaram uma criança de 3 anos, Clarence Armstrong, cuja mãe, a prima de Louis, Flora, morrera no parto. Clarence era doente mental e Louis passaria o resto da sua vida cuidando dela. Em 1922, separou-se de Dayse e mudou-se para Chicago e entra para a King Oliver’s Creole Jazz Band, onde passou a ser ouvido por públicos maiores.

Em 5 de fevereiro de 1924 casou-se com Lillian Hardin, a pianista da banda de Oliver, que o incentivou a deixar Oliver e entrar para a orquestra de Fletcher Henderson, em Nova Iorque, com quem ficaria pouco mais de um ano. Voltou a Chicago e formou seu próprio grupo, o Louis Armstrong Hot Five, com o qual fez gravações consideradas até hoje clássicas, como Chicago Dixieland. Suas gravações estão entre as primeiras de artistas negros.

Em 1929, mudou-se para Nova York e tocou com a Orquestra Dickerson Carroll. Apareceu no show da Broadway, Hot Chocolates. Tommy Rockwell torna-se gerente de Louis. Grava Is not Misbehavin e I Can’t Give You Anything But Love.
https://www.youtube.com/watch?v=qTnAR_5qzw8]
Em 1930, tocou em Baltimore, Chicago, Detroit, Pittsburgh, e Washington, DC, estabelecendo um padrão de extensas turnês que continuariam no resto de sua carreira. Apareceu em New Cotton Club de Frank Sebastian e as performances são transmitidas na rádio. Grava Blue Yodel No. 9 com Jimmie Rodgers (o Pai da Música Country), e Memories of you.
https://www.youtube.com/watch?v=EA9Y9FkxJZo
Em 1931, apareceu em seu primeiro filme, Ex-Flame. Johnny Collins tornou-se agente de Louis e ele faz duas grandes turnês no Centro-Oeste e no Sul. Tocou no Roof Garden Hotel do Kentucky, em Louisville, tornando-se o primeiro negro americano a fazê-lo. Faz um retorno triunfal a New Orleans, sua primeira visita desde que partiu em 1922. Grava When It’s Sleepy Time Down South, também conhecido como Sleepy Time Down South, que se torna sua música-tema.
[video:https://www.youtube.com/watch?v=S8C8v-ulrXE
No ano seguinte, toca durante três meses no novo Cotton Club de Frank Sebastian. Filma o Rhapsody in Black and Blue, um curta. Aparece em um desenho animado de Betty Boop. Realizou a primeira de muitas excursões à Europa. Sua popularidade cresceu com o rádio, os filmes e mais tarde, com a televisão. É cumprimentado por mais de dez mil pessoas na estação de trem na Dinamarca. A voz grave e um estilo inconfundível de cantar, emitindo às vezes sílabas sem sentido, em vez da letra da canção, como se a voz imitasse um instrumento, tornou-se sua marca registrada, tanto quanto o seu trompete. Durante grande parte de 1934, Louis vive em Paris. Em 1936, é publicada a primeira autobiografia de Louis, Swing That Music.
Divorciou-se de Lillian em 1938, depois de muitos anos de separados, e casou-se com Alpha Smith. Começou com um contrato de seis meses no Cotton Club, em Nova Iorque. Em 1943, após muitos anos na estrada, ele fixou residência em Queens, Nova Iorque, com a sua quarta mulher, Lucille Wilson, uma dançarina do Cotton Club, com quem viveu até o fim da vida.
Em 1947, acaba com sua banda e forma um septeto, Louis Armstrong and the All Stars que estreia em Hollywood no dia 13 de agosto. Faz sua estréia na televisão em uma das suas primeiras transmissões, num show que viria a ser conhecido como o Show de Ed Sullivan. As apresentações de 1957 do All Stars no Brasil, foram parte de turnê pela América do Sul, que incluiu também Uruguai e Argentina.
Em 1949, Armstrong sentiu-se honrado em ter sido escolhido para desfilar em sua terra como o Rei Zulu do Social Aid and Pleasure, a mais antiga organização afro-americana no desfile anual de Mardi Gras em Nova Orleans. Com a cara pintada de branco, vestindo uma fantasia de chefe tribal africano durante o mais famoso carnaval do país, não parecia ser uma imagem condizente com algum tipo qualquer de dignidade racial proposta pelos movimentos de direitos civis. Mas Armstrong não dava a mínima. Ele estava feliz e havia preparado um show para apresentar após o desfile da mais antiga e atuante associação de luta pelos direitos dos negros nos EUA. No show, ele subiria ao palco com Jack Teagarden, um trompetista branco. As lideranças da luta pela igualdade racial cancelaram o show, deixando-o tão magoado, a ponto de dizer que ali não queria ser enterrado.

No dia 27 de novembro 1957, uma terça-feira, o presidente Juscelino Kubitscheck ofereceu no Palácio Laranjeiras, um almoço para Louis Armstrong, em temporada no Brasil. Estavam presentes a nata da música brasileira: Dorival Caymmi, Ary Barroso, Lamartine Babo, Braguinha, Pixinguinha, Humberto Teixeira, Ataulfo Alves, Herivelto Martins, Fernando Lobo e Sivuca. Armstrong se apresentou no Ginásio do Ibirapuera, em São Paulo, ao lado de Ângela Maria.
Como várias crianças, Louis tinham muitos apelidos, todos se referindo ao tamanho de sua boca: Gatemouth, Dippermouth e Satchelmouth. Durante uma visita à Grã-Bretanha, Louis foi recebido por Percy Brooks, o editor da revista Melody Maker, que o cumprimentou, dizendo: Olá, Satchmo! (Ele inadvertidamente contraiu Satchelmouth em Satchmo) Louis adorou o novo nome e o adotou para sua segunda autobiografia: Satchmo: My Live in New Orleans, publicada em 1954, que cobre sua vida até 1922 e também para Satchmo: A Musical Autobiography, pela Decca Records.
Em 1969, Louis fundou The Louis Armstrong Educational Foundation. A Fundação dedica-se a perpetuar os legados de Louis e Lucille Armstrong em todo o mundo para, entre outras iniciativas, promover programas, oficinas e palestras nas escolas sobre a história da educação musical, bem como apoiar o acesso a instrumentos e bolsas de estudo.
As conquistas de Louis Armstrong são notáveis. Ele efetivamente redefiniu o jazz, e foi o seu primeiro grande virtuose. Armstrong expandiu os limites de seu instrumento, ampliando a extensão do trompete até notas consideradas inacessíveis aos executantes anteriores, de tão agudas. Seu som é límpido e quente, com um vibrato absolutamente regular nos finais de frases, como poucos na história do jazz. Foi chamado de a personificação do jazz. Sua imagem e sua voz são inconfundíveis. Armstrong foi o criador do estilo hot do jazz e introduziu a figura do solista-virtuose, que se valia da criatividade acima da técnica dos demais integrantes da banda. Também foi pioneiro na prática do scat, imitação vocal dos instrumentos, no que seria imitado pelos novos jazzistas.
Durante sua carreira gravou canções de sucesso há cinco décadas e sua música ainda é ouvida hoje no rádio, televisão e em filmes; escreveu duas autobiografias, mais de dez artigos de revista, centenas de páginas de memórias e milhares de cartas; apareceu em mais de trinta filmes como um ator talentoso com timing cômico e uma alegria descarada da vida; compôs dezenas de músicas que se tornaram padrões de jazz; realizou uma média de 300 shows por ano, com seus passeios frequentes para todas as partes do mundo, que lhe valeu a alcunha de Embaixador Satch e se tornou uma das primeiras celebridades grandes do século XX.
Através dos anos, Louis entreteve milhões e, apesar de sua fama, permaneceu um homem humilde e viveu uma vida simples em um bairro da classe trabalhadora. Com sérios problemas de saúde, Armstrong foi hospitalizado diversas vezes nos três anos restantes da sua vida. Mas, mesmo assim continuou a tocar e gravar suas músicas. O músico morreu no início da madrugada de 6 de julho de 1971, vítima de um ataque cardíaco, quando dormia em sua casa no Queens, Nova Iorque, poucos dias após ter anunciado a volta às atividades artísticas. O homem conhecido em todo o mundo como Satchmo foi amplamente reconhecido como dos fundadores do jazz. Sua influência, como artista e ícone cultural, é universal e incomparável.
Em 1995, o serviço postal dos EUA lançou um selo comemorativo como parte da série Jazz Musicians.

No centenário do nascimento de Satchmo, a Oris criou um relógio Jazz em duas edições limitadas de 250 e 500 exemplares. Cada relógio numerado individualmente tem gravado o seu trompete no fundo da caixa.

Fontes:
Louis Armstrong, página oficial
Louis Armstrong na Wikipédia
Louis Armstrong no IMDB
The Louis Armstrong Discography
Como uma criança sem mãe, mas num mundo maravilhoso, por José Carlos Ruy
Em livro, ex-diretor da Record conta como Louis Armstrong quase apanhou no Brasil
O gênio bonachão, por François Billard
A história dos All Stars de Louis Armstrong, na Revista Mensal do Jazz, por Pedro Cardoso
Parte 1, Parte 2, Parte 3, Parte final
Gregório Macedo
5 de agosto de 2016 2:43 pmQue trabalho caprichado,
Que trabalho caprichado, Mara! Lugar de honra em meus arquivos implacáveis.
Grande abraço.
Nilva de Souza
5 de agosto de 2016 3:52 pmObrigada, Mara, pelo
Obrigada, Mara, pelo excelente trabalho.
Parabens!
Ivan de Union
5 de agosto de 2016 6:53 pmFantastico, Mara! Superba
Fantastico, Mara! Superba pesquisa e organizacao tematica!!!
Uma nota a respeito de “Porgy and Bess”, no entanto, que a merece:
https://en.wikipedia.org/wiki/Porgy_and_Bess
Primeira folk-opera com elenco totalmente negro, de Gershwin. (Passados os primeiros 12 minutos -falhos, sao pupurri e nao funcionam como introducao- desse album que voce postou, o resto eh fabuloso. A primeira musica todo mundo conhece… na voz de Janis Joplin(!)… a primeira vez que ouvi alguem tocar a versao original num restaurante com um violao somente, eu disse que a versao dele era “startling” (surpreendente) pois nao conhecia o original.
Nao eh surpresa que os dois maiores artistas pretos do mundo aa epoca gravaram esse score.
A historia eh de um mendigo aleijado (Porgy) tentando salvar Bess de seu amante violento e grosso:
https://en.wikipedia.org/wiki/Porgy_and_Bess#Synopsis
Mas termina tragica (sem sangue, sem morte, sem computadores) para Porgy.
O filme (Harry Belafonte disse que a peca era racista e recusou o papel, que foi pra Sidney Poitier) eh -ou estava suposto a ser de acordo com a intencao de Gershwin para o trabalho teatral- estritamente opera-rossa (!!!) e esta aqui, completo:
[video:https://www.youtube.com/watch?v=E6C8dAa4DKI%5D
Mara L. Baraúna
6 de agosto de 2016 8:27 pmSumertime
Ivan, obrigada pela colaboração
Eu vi há pouco o documentário Janis, little girl blue, e a interpretação dela para essa música é arrepiante, mas eu conheci Sumertime antes, com a minha cantora preferida, Billei Holiday
[video:https://www.youtube.com/watch?v=A8eLHZXv-60%5D