Comentário ao post “Os problemas na formação de engenheiros“
Eis aqui um artigo interessante sobre o tema, que garimpei. Não sei que apito ideológico o autor toca, mas os pontos abordados dizem respeito exatamene ao que discutimos aqui.
Prof. Dr. Mauro Lúcio Leitão Condé – UFMG
Artigo publicado no caderno “Pensar”
Jornal Estado de Minas em 12 de fevereiro de 2005
Em 1959, C. P. Snow publicou um livro que se tornou um clássico: As Duas Culturas, no qual tratava das relações, muitas vezes conflituosas, entre as humanidades, por um lado, e a ciência e a tecnologia, por outro.
Segundo Snow, já naquele momento, era imperativo afirmar a necessidade da aproximação entre as “duas culturas”. O desenvolvimento científico e tecnológico demandava, por assim dizer, uma humanização. Na mesma medida, os humanistas deveriam aproximar-se da ciência e da tecnologia. Contudo, essa aproximação não era uma tarefa fácil em nenhuma das direções. O amplo desenvolvimento científico e tecnológico que se seguiu ao pós-segunda guerra mundial trouxe também a suspeita de filósofos, historiadores, literatos e alguns cientistas sociais quanto ao real papel da ciência e da tecnologia na sociedade. Essas eram vistas por tais humanistas muito mais como um instrumento de controle social e alienação dos indivíduos do que propriamente como uma possibilidade para a emancipação humana. Na outra extremidade, cientistas, técnicos e engenheiros, muitas vezes, colocavam em suspeição a própria legitimidade do conhecimento dessa tradição humanista, vendo essa como um fator de atraso do desenvolvimento da ciência e da tecnologia.
Na realidade, essa não era uma nova querela. Esse debate que confrontou a ciência e a tecnologia com as humanidades, a partir de meados do século XX, reproduziu, em escala menor, o conflito entre o “saber pensar” da tradição “livresca” e teórica dos filósofos e o “saber fazer” prático dos artistas, artesões e técnicos do renascimento. No final do período renascentista, a conciliação gradativa dessas duas tradições culminou na construção da ciência moderna e da transformação da técnica em tecnologia. Entretanto, como ainda hoje podemos perceber, essa conciliação possui algumas difíceis arestas para serem aparadas.
Nos anos sessenta, o ponto ressaltado era, sobretudo, a formação científica e tecnológica extremamente “tecnicista” e “cientifizante”. Se, desde o início do século, esse tecnicismo aparece no mundo do trabalho em concepções como o taylorismo ou o fordismo, na formação científica e tecnológica em nível superior manifesta-se no distanciamento das humanidades. Em outras palavras, a pedagogia da sociedade industrial privilegiou uma formação fragmentada distante de uma visão humanista que permitisse algum tipo de olhar transversal crítico sobre a sociedade. Diferentemente do cientista do século XIX, por exemplo, que costumava ser também um humanista – conhecedor de literatura, filosofia, música, artes, línguas estrangeiras, enfim, com um olhar atento para a cultura e não apenas para a natureza –, o cientista típico do século XX é um “especialista” que não teve espaço em seu currículo para essa formação humanista e “generalista”.
Snow procurou mostrar que esse isolamento não era interessante para as duas culturas. Não era bom para o cientista deixar de conhecer as humanidades, assim também não era bom para o humanista manter-se distanciado do crescente conhecimento científico. Dos anos sessenta para cá, já avançamos no sentido de ter uma formação científica e humanista mais próximas. Evidentemente, muita coisa ainda falta fazer, mas parece que a pedagogia industrial do século XX está sendo substituída por uma que poderíamos chamar de pedagogia sistêmica ou holística na formação científica. As grandes universidades têm cada vez mais consciência dessa necessidade de aproximação das duas culturas.
E, embora as dificuldades para aproximá-las sejam grandes, já possuímos consideravelmente a consciência da necessidade desta aproximação. Entretanto, se a inserção das humanidades na formação científica e tecnológica em nível superior parece ser algo que já se vislumbra no horizonte e, se os humanistas contemporâneos já têm uma visão menos maniqueísta da ciência e da tecnologia, a questão mais preocupante que se coloca em pauta parece ser a da educação para a ciência do cidadão que não tem acesso ao nível universitário, embora seja cada vez mais usuário de ciência e tecnologia. Independente de ter acesso ao ensino superior, o homem moderno é obrigado a dominar uma espécie de politecnia. Em outras palavras, tem que ter o domínio de muitas tecnologias para trabalhar, comunicar-se, estudar, ir ao banco, ou simplesmente ligar seu dvd. Com a ciência não é diferente. Ela está nas nossas vidas quando tomamos um simples comprimido para a nossa dor de cabeça sem perceber o alto grau de complexidade que isso tem por trás.
Essa vivência cotidiana com a ciência e a tecnologia cria-nos a ilusão de que elas são mecanismos naturais. Nos esquecemos que elas têm um caráter histórico e social. Essa falta de compreensão histórica dificulta nosso posicionamento de modo crítico com relação às possibilidades da ciência e da tecnologia. Somos muitas vezes, simples usuários acríticos. Evidentemente, a ciência e a tecnologia são extremamente importantes nas nossas vidas. Não devemos ter fobia delas, mas encará-las de um modo crítico, ético e socialmente responsável. Eis aqui, talvez, a principal colaboração das humanidades hoje: despertar não apenas o cientista, mas o homem comum, da sedução e do encantamento da tecnologia e da ciência. Em outras palavras, as humanidades não devem limitar-se a denunciar um possível mal que a ciência e a tecnologia poderiam nos causar, mas preparar-nos para um convívio saudável com elas, auxiliando-nos em uma reflexão crítica profunda quanto às suas reais possibilidades no presente e no futuro do homem.
Em certo sentido, as antigas humanidades, agora em parte chamadas ciências humanas, são um tipo de tecnologia ou de ciência (aí a própria pretensão de cientificidade das “ciências” humanas). Da mesma forma que as técnicas e as tecnologias constituem um tipo de extensão ou uma “artificialidade” do homem – a palavra ars de onde provêem arte, artefato, artificial também foi usada para traduzir techné (técnica)–, as humanidades também fazem parte desse prolongamento do homem. A compreensão, por exemplo, da historicidade do homem ou do valor da vida humana são desdobramentos desse conhecimento das humanidades. Esses saberes são tão importantes quanto as tecnologias e a ciência que levaram o homem à lua ou ao domínio da energia atômica. Porém, por outro lado, ainda que sejam extensões do homem, as humanidades são “transversais”, operam em um outro sentido, isto é, estabelecem um olhar transversal a essa condição do homem moderno como um ser artificial.
A cultura, enquanto contraposição (não oposição) à natureza expressa essa artificialização humana. Nesse sentido, ciência e tecnologia não são coisas naturais, mas artificiais. São expressões da cultura e importantes instrumentos dessa artificialização da experiência humana. A ciência e a tecnologia tornaram o homem moderno um ser de artifício de modo exponencialmente mais intenso que em qualquer outra época. A eficácia dessa artificialização é tão grande que o mundo visto pela ótica da ciência e da tecnologia parece-nos algo natural e ahistórico. No mundo contemporâneo, a consciência crítica quanto às possibilidades sociais e éticas de usos das novas tecnologias e produtos científicos é algo imprescindível. A sociedade que incorpora a artificialização criada pela ciência e a tecnologia sem o posicionamento crítico – como o que é possibilitado pelas humanidades, também pelas artes e a política – torna seus cidadãos no que Karl Marx qualificou como homem “alienado” ou Herbert Marcuse chamou de homem “unidimensional”.
A tecnologia das humanidades, por assim dizer, particularmente a história da ciência, é esse espaço da reflexão transversal do objeto ciência em seu tempo histórico, social, cultural e intelectual. Ela permite compreender coisas como, por exemplo, a relação entre o homem e a máquina no contexto da revolução industrial e como o mundo contemporâneo ou globalizado, com suas redes tecnológicas, precisa inverter essa relação modificando o posicionamento do homem no mundo do trabalho e nas suas relações de consumo. Se o saber das humanidades é o saber da “transversalidade” ao processo de produção tecnológico, seu papel é, assim, nunca operar paralelamente a essa produção tecnológica. Nesse sentido, constitui um tipo de saber “inútil”, como caracterizado pelo filósofo Bertrand Russell em seu divertido livro Elogio ao Lazer. Em outras palavras, o conhecimento das humanidades no modelo da sociedade industrial não tinha uma “utilidade” direta na engrenagem de produção.
Entretanto, no novo mundo globalizado do trabalho essa relação ganha novas perspectivas. Para compreendermos os processos de produção científica e tecnológica das sociedades contemporâneas torna-se importante a compreensão das várias possibilidades de conexões das múltiplas redes rizomáticas sociais e tecnológicas. A transversalidade das humanidades é uma das ricas possibilidades de compreensão das razões dos ordenamentos (e desordenamentos) dessas redes que crescem em proporções geométricas, dificultando, assim, nossa visão sinóptica.
É preciso cada vez mais educar nas humanidades não apenas a pessoas treinadas em ciência e tecnologia, mas também, os usuários da ciência e da tecnologia. O cidadão poderá ter com o auxílio da reflexão oferecida pelas humanidades, uma chave para compreender questões tais como sua própria condição de homem moderno, ou ainda qual o lugar da ética no processo científico e tecnológico.
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