Por Mara L. Baraúna
Pattápio Silva (Itaocara, RJ, 22 de outubro de 1880 – Florianópolis, SC, 24 de abril de 1907)
Pattápio Silva nasceu na freguesia de São José de Leonissa, Vila de Itaocara, RJ, filho de Amélia Amália de Medina Silva, filha de escravos alforriados, e do barbeiro português Bruno José da Silva e irmão mais velho de Paladina e Peridiano. Sua mãe tinha apenas treze anos quando Pattápio nasceu. Pattápio foi batizado na paróquia de São José de Leonissa, em 23 de janeiro de 1881, tendo como padrinhos Francisco José Medina e Maria Marques da Silva. Aos cinco anos, já demonstrando aptidão artística, ele mesmo fez sua primeira flauta de bambu e dedicou-se com afinco ao instrumento.
O casamento de seus pais durou pouco e, com a separação em 1886, Pattápio foi morar em Cataguases, MG, com o pai e os dois irmãos. Sua mãe permaneceu em Itaocara, vindo a se casar novamente com o comendador Antonio de Souza Menezes por volta de 1895, com quem teve mais sete filhos: Cícero e Lafaiete, violinistas; João Batista, flautista e ganhador da medalha de ouro do Instituto Nacional de Música e um dos fundadores da Orquestra Sinfônica Brasileira; além de Odilon, Urtinê, Antonieta e Maria da Conceição. Sua mãe era chamada de ventre musical, pois todos os filhos tiveram instrução musical. Essa tradição da família atingiu a geração dos netos de Amélia.
Ao chegar em Cataguases, seu pai abriu uma barbearia. Essa atividade tinha grande ligação com a música: como o ofício era de rápida execução, os barbeiros tinham tempo livre para se dedicarem ao aprendizado de velhos e desgastados instrumentos musicais que lhe são passados. Muitos aprenderam com o mestre barbeiro ou a tocá-los de ouvido. Formaram trios e bandas compostas exclusivamente por colegas de ofício, que se tornariam a primeira manifestação urbana e popular da música instrumental, com função de entretenimento, a chamada música de barbeiro. Nesse ambiente Pattápio cresceu, ajudando seu pai e tocando uma flauta de flandres para alegria dos clientes.
Mesmo contra a vontade do pai entrou para a banda de música Aurora Cataguasense e depois para a Sociedade Harpa de David. Bruno queria que Pattápio seguisse sua profissão, que ele chegou a aprender, por isso fez forte oposição à vocação demonstrada pelo filho, por considerar que a carreira de músico era instável. O jovem instrumentista também compunha dobrados, marchas, polcas e valsas. Depois de se desentender com o pai, saiu de casa e nos três anos seguintes passou por diversas bandas do interior de Minas Gerais e do Rio de Janeiro. Quando Pattápio chegou a Campos, em 1898, sua fama já era tão grande na cidade que conquistou o lugar de mestre da Lyra Guarani, transformando-a em pouco tempo numa das melhores bandas da região.
Em 1900 Pattápio vai para o Rio de Janeiro estudar flauta no seletivo Instituto Nacional de Música. Tinha apenas uma nota de dez tostões, mas graças à bondade de um conhecido chefe do trem que dele teve compaixão, viajou de graça num carro de bagagem. Depois de permanecer algum tempo em uma república de rapazes, mudou-se para um sótão à Rua do Carmo, 46. Em seus primeiros tempos no Rio de Janeiro chegou a trabalhar como tipógrafo na Imprensa Nacional e na Casa da Moeda, e voltou até a exercer temporariamente a função de barbeiro. Estudou francês, considerado chique na época, e também canto e harmonia.
No Instituto Nacional de Música fez contato com o professor Paulo Augusto Duque Estrada Meyer que o ouviu entusiasmado, apesar de Pattápio ter usado uma flauta sem grandes recursos. O professor se interessou por aquela revelação passando a ser seu tutor e conselheiro. Pattápio ganhou do mestre uma flauta de qualidade e aceitou o convite para ir à sua casa diariamente tomar lições, antes mesmo de ser matriculado no Instituto Nacional de Música. No exame de admissão, o músico revelou-se uma surpresa ao se apresentar na requintada escola, pois era um mulato mal vestido, de ar acanhado e modesto, e não tinha ainda 20 anos de idade. Ele cumpriu o programa de seis anos em apenas três, formando-se em dezembro de 1903, aprovado com distinção e com louvor. Primeiro prêmio, medalha de ouro, por unanimidade de votos. Pattápio passou da condição de músico de banda para a de famoso concertista em curtíssimo espaço de tempo.
Em 1902, antes mesmo de sua formatura, foi contratado por Fred Figner, da Casa Edison, e realiza gravações fonográficas pioneiras no Brasil, o que lhe traz um grande reconhecimento. Logo depois, Pattápio venceu um concurso para flautistas cujo primeiro prêmio era uma flauta de prata da marca francesa Louis Lot, doada em 1891 pela esposa de um conceituado médico. No dia da entrega do prêmio, na presença de várias autoridades, constata-se que a flauta desaparecera do cofre, dando origem ao caso da flauta encantada.
O desaparecimento da flauta foi desde o início tratado com sarcasmo. Um soneto publicado pelo Correio da Manhã dizia em seu último verso que a flauta do Patápio certamente era uma flauta feita para fugas, trocadilho que ao mesmo tempo fazia referência a um recurso musical e ao sumiço do instrumento. No dia 4 de julho de 1904, a flauta foi encontrada enrolada em jornais num armário da secretaria que já havia sido revirado várias vezes. O enigma permaneceu e deu muita promoção para Pattápio. Desfrutando da inesperada publicidade que o episódio da flauta lhe trouxe, Pattápio e sua flauta foram a principal atração de um concerto no INM, realizado no dia 10 de julho de 1904, recebendo uma sucessão de críticas positivas, chegando a ser chamado de rei da flauta.

O garoto mulato, vindo do interior e sem posses, torna-se um fenômeno de sua época. Para ser socialmente aceito, acrescentou um “T” ao seu nome passando a assinar “Pattápio”, com a finalidade de criar glamour neste nome já tão exótico; passou a vestir-se com elegância, envergando um cigarro entre os dedos; e filiou-se à maçonaria de Cataguases a exemplo de vultos importantes da história política da época.

Pattápio resolve viajar com a intenção de tornar-se conhecido em outras cidades e capitais. Numa das suas primeiras excursões como concertista pelo estado de São Paulo, recebeu a notícia da morte de seu amigo Duque Estrada Meyer, ocorrida em 24 de abril de 1905. Com a morte de seu mestre, ele esperava ser nomeado o novo titular da cadeira de flauta, mas foi preterido em benefício de outro ex-aluno do curso, Pedro de Assis, com trajetória menos brilhante como músico, porém com grande influência política. A decepção de Pattápio deveu-se à perda de acesso a um cargo público, uma das poucas vias de ascensão social para pessoas vindas das camadas mais pobres da população. Ele se via condenado à instável vida de músico sem salário no final do mês. Apesar de ser reconhecido como excelente músico, além das aulas particulares, tocava em operetas para sobreviver.
No dia 11 de junho de 1905, Pattápio apresenta-se no Salão Steinway, às oito e meia da noite, e pelos vibrantes e prolongados aplausos que lhe dispensaram, saboreou o reconhecimento como exímio flautista. Por conta de seu sucesso na cidade e de sua decepção com a nomeação de Pedro de Assis, Pattápio resolve fixar residência em São Paulo, no início de 1906. Passa a lecionar na Casa Bevilacqua, localizada na Rua São Bento.

(Obs. No livro referenciado Patápio Silva – músico erudito ou popular? ocorre um equívoco quanto à localização do Salão Steinway. A página 14 apresenta um cartaz promocional de um concerto de Pattápio a se realizar neste salão com o rodapé que o localizava na cidade do Rio de Janeiro. Ao investigarmos este salão, descobrimos que na verdade ele situava-se em São Paulo – Carmem Sílvia Garcia, Pattápio Silva: flautista virtuose, pioneiro da belle époque brasileira)
Pattápio decide excursionar pelo interior de São Paulo e sul do país para conseguir dinheiro e ir para a Europa. Ele desejava conhecer as fábricas de flautas, com o intuito de contribuir para o aperfeiçoamento mecânico do instrumento. Hospedado no Hotel do Comércio, em Florianópolis, para realizar um espetáculo em 18 de abril de 1907, pouco antes das duas horas da madrugada do dia 24 de abril, aos 26 anos, faleceu em decorrência de uma repentina e misteriosa doença. Foi enterrado no mesmo dia no Cemitério do Morro do Estreito, próximo à ponte Hercílio Luz, na ilha. A cidade, que esperava ansiosa pelo concerto, ficou comovida quando a informação se espalhou. No dia seguinte, a notícia da morte prematura do músico repercutiu dolorosamente em todo o país.
A síntese desse sentimento está em um trecho do livro Clara dos Anjos, de Lima Barreto: De uns tempos a esta parte, porém, a flauta caiu de importância, e só um único flautista dos nossos dias conseguiu, por instantes, reabilitar o mavioso instrumento – delícia, que foi, dos nossos pais e avós. Quero falar do Pattápio Silva. Com a morte dele a flauta voltou a ocupar um lugar secundário como instrumento musical, a que os doutores em música, quer executantes, quer os críticos eruditos, não dão nenhuma importância. Voltou a ser novamente plebeu.
No Rio de Janeiro uma missa é rezada e a parte musical ficou aos cuidados do regente Francisco Braga, tendo sido executada Evocação op. 1, obra de Pattápio dedicada ao seu professor Duque Estrada Meyer.
https://www.youtube.com/watch?v=QkIO4rMLcy8]
Várias versões sobre a morte de Pattápio surgiram, inclusive algumas bem românticas, envolvendo políticos poderosos, amores impossíveis, ciúmes, vingança, envenenamento, todas sem comprovação. Em agosto de 1915 seu pai pede a exumação e remoção do corpo para o Rio de Janeiro e foi, então, sepultado no cemitério São Francisco Xavier.
Embora tenha vivido apenas 26 anos, Pattápio Silva, além de regente e compositor, é considerado um dos maiores flautistas brasileiros de todos os tempos, alcançando a condição de concertista famoso, frequentador dos palcos mais elegantes do país. Tido como sucessor de Joaquim Calado, ficou famoso por ser o primeiro flautista a fazer um registro fonográfico. Sua discografia, apesar de reduzida – são apenas 15 fonogramas, editados pela lendária Casa Edison, está entre as mais consagradas da época, sendo considerada uma referência para musicólogos e pesquisadores da MPB. O flautista deixou algumas composições, principalmente para flauta e piano, muitas das quais gravadas posteriormente.
Pattápio Silva teve o merecido lugar de destaque dentro da história da música brasileira, não só por seu caráter empreendedor, em um momento histórico que não facilitava ao mulato a ocupar a posição de artista virtuose, mas também por seu pioneirismo, ao ter sua obra editada e gravada quase que integralmente, criando desta forma um acervo de valor inestimável.
Pattápio gozava de muita estima na classe musical pelos dotes artísticos, que tanto o distinguiam e pelo seu temperamento alegre e expansivo, que conquistava simpatias e amizades. Entre seus admiradores fiéis, está Altamiro Carrilho que declarou: Ele é nosso espelho, nossa força maior. Se vivesse hoje, certamente estaria no nível dos grandes flautistas eruditos, como Rampal e Moyse. Patápio significa a imagem perfeita de um herói, admirado, seguido, respeitado e idolatrado por mim e pela grande maioria dos flautistas brasileiros. Outro fã do flautista é o produtor musical Ezequiel Neves: Fiquei fascinado logo que o ouvi pela primeira vez, em 1970, quando o cineasta Rogério Sganzerla levou um disco do Pattápio ao me visitar em Londres.
Em 1916, o maestro cubano Francisco Lucas Duchesne fundou em São Fidélis, RJ, uma banda de música chamada Sociedade musical 22 de Outubro, em homenagem à data de nascimento de seu aluno Pattápio. Em 1896, o maestro foi morar em Cataguases e Pattápio passou a seguir seus passos pelo interior mineiro e fluminense.
Comemorando o cinquentenário de sua morte, o flautista Altamiro Carrilho gravou na Copacabana o LP Revivendo Patápio. Um fato marcante que o influenciou musicalmente na infância, foi a primeira vez em que ouviu no gramofone a música Margarida, uma mazurca de Pattápio.
Em 1984, o Projeto Almirante, da Funarte, lança o LP Patápio Silva, com a participação de Altamiro Carrilho, Luizinho Eça, o conjunto Galo Preto e a banda do Corpo de Bombeiros.
Em 2011, o Instituto Cravo Albin lança o documentário Patápio, do cineasta Alexandre Palma com depoimentos de, entre outros, Antonio Waghabi, o Magro do MPB-4, também natural de Itaocara e que começou sua carreira na Sociedade Musical Patápio Silva.
[video:https://www.youtube.com/watch?v=DS2LIKWViyM
Fontes:
Patápio Silva no Dicionário Cravo Abin
Patápio Silva – Estúdio F
Pattápio Silva: flautista virtuose, pioneiro da belle époque brasileira, por Carmem Silvia Garcia
Patápio Silva, o sopro da arte: trajetória de um flautista mulato no início do século XX, por Maurício de Lima Oliveira
JMauricio
22 de outubro de 2015 7:07 pmLindo trabalho. Fico
Lindo trabalho. Fico emocionado porque sou fã do Pattapio desde criança. Meu avô era violonista, e me lembro que curtía-mos juntos as incriveis performances do flautista. Espetacular!
Maria Luisa
22 de outubro de 2015 7:31 pmO rei da flauta
Adorei conhecer a historia de Patapio Silva. Não o conhecia e, ja ao ouvir o primeiro video, achei excelente. Pena ter morrido tão jovem. Mas ficou sua arte, talento e ambições para si e para a musica. Excelente post, Mara Barauna.
Ana Arrigoni
22 de outubro de 2015 8:52 pmValeu Mara!
Suas pesquisas são excelentes. Nesta do Patapio então você se superou. Obrigada Mara!
Mara L. Baraúna
23 de outubro de 2015 2:03 amPattápio
Ana Arrigoni, Maria Luisa, JMaurício
Sabia muito pouco sobre Pattápio e depois dessa pesquisa vi que valia a pena divulgar a história desses grande flautista. Que bom que vocês gostaram! Obrigada
Abraços