1 de julho de 2026

O documentário “Brazil – The Troubled Land” de volta, por Urariano Mota

The Troubled Land havia sido visto nos EUA, onde alcançara grande repercussão, mas nunca passou nos cinemas ou na televisão brasileira.
Reprodução

Fundação Joaquim Nabuco exibiu “Brazil – The Troubled Land” (1964) e “Alexina – Memórias de um Exílio” (2012) em homenagem a Alexina Crêspo.
Documentário da CIA sobre luta pela terra em Pernambuco, filmado em 1961, foi proibido no Brasil e buscado por anos pelo jornalista Urariano Mota.
Filme tornou-se disponível online em 2013, com imagens inéditas e participação de Francisco Julião; voltou a circular em 30 de junho de 2024.

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O documentário “Brazil – The Troubled Land” de volta

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por Urariano Mota

Na homenagem aos 100 anos de nascimento da brava Alexina Crêspo, a Fundação Joaquim Nabuco exibiu os filmes “Brazil – The Troubled Land” (1964), de Helen Jean Rogers, e “Alexina – Memórias de um Exílio” (2012), de Stella Maris Saldanha e Cláudio Bezerra.

Sobre o “Brazil – The Troubled Land”, lembro que há 11 anos publiquei o texto “Descoberto o filme que o Brasil não podia ver“, onde resumia a busca incansável para o documentário. Ao fim do texto publiquei o link livre para o filme, com se pode ver no Portal Vermelho Descoberto o filme que o Brasil não podia ver – Vermelho e no Jornal GGN Descoberto o filme que o Brasil não podia ver, por Urariano Mota – Jornal GGN , os primeiros sites a publicar a nossa descoberta.  “Brazil – The Troubled Land” é um filme que narra a luta pela terra em Pernambuco, realizado para a rede de televisão norte-americana ABC, com imagens de 1961. Na verdade, esse documentário foi uma obra da CIA, que movia mentes e corações para o golpe de 1964, que viu a luta pela terra nas Ligas Camponesas como uma explosão de nova Cuba.

Nas pesquisas que fiz antes, ninguém sabia informar, até parecia uma lenda. Ao fim de muitas buscas, descobri que o filme existia na Universidade Indiana. Agora seria fácil, pensei. Mas a resposta não tardou, no inglês que traduzo aqui livre e mal:

“Agradeço pelo contato para a pesquisa do filme Brazil: The Troubled Land. Ele pertence ao arquivo da coleção da Biblioteca da Universidade de Indiana. Reenvio para a arquivista responsável”, que respondeu:

“Para o acesso ao filme que você pesquisa, o ‘Brazil: The Troubled Land’, nós não o temos digitalizado ou em cópia para ser visto. No momento, o filme está disponível somente nesta biblioteca, ou então, se você desejar obter permissão do proprietário dos direitos autorais, nós poderíamos fazer uma cópia em DVD para você emprestar ao escritor brasileiro. A McGraw Hill é a editora dona do filme”.

Mas a poderosa McGraw Hill, apesar dos meus pedidos, nada me respondeu para a liberação de uma cópia. Em desespero de causa, cheguei a solicitar até mesmo a compra de um exemplar, com a ajuda, é claro, de outros jornalistas brasileiros, que também o procuravam. Nada. Mais uma vez, por razões de Estado primeiro, depois por razões do capital, o Brasil deixava de ver a própria cara, num flagrante das relações históricas de opressão em 1961.

The Troubled Land havia sido visto nos Estados Unidos, onde alcançara grande repercussão, mas nunca passou nos cinemas ou na televisão brasileira. O Conselho de Segurança Nacional o julgara inconveniente para os padrões nacionais.

Mas não desisti. Quase um ano depois, em março de 2013, publiquei um texto cuja introdução observava que a melhor diferença da imprensa na web sobre a do grande capital era a liberdade de pensamento. E que havia um valor a mais de um texto na internet sobre o de papel: era a sua permanência, com acessos infinitos no tempo e espaço para a leitura. Assim havia sido com a coluna “Procura-se um documentário sobre o Brasil”, publicada em agosto de 2012. Ela me fizera receber um presente que eu não imaginava.

Recebi então fotos históricas do filme, e a revelação (perdoem a palavra) de um fotógrafo de 76 anos, em 2013, que os estudiosos do cinema não sabiam existir. Era o espanhol Fernando Martinez Lopez, que me enviara fotos maravilhosas em preto e branco do documentário “Brazil, the troubled land”. Fernando Martinez, a partir das perguntas feitas por este curioso, assim se apresentou:

“Após busca entre 4000 negativos, encontrei as fotos, algumas estragadas pelo tempo. Sou espanhol, casado com brasileira e filhos e netos brasileiros. Trabalhei no filme como Still fotógrafo e também como cinematographer….

Helen (Helen Rogers, a diretora do documentário) era uma americana bonita e muito inteligente, casada com um cineasta, eles deixaram dois filhos. Para mim, ela era pró-Estados Unidos, pois este filme foi feito justamente para que o Brasil não se tornasse uma nova Cuba. (Negrito do colunista) Foi filmado na Zona da Mata de Pernambuco, para filmar a vida de um camponês. Na feira de Carpina encontrou um Severino, cortador de cana, que trabalhava para Constâncio Maranhão. A filmagem demorou aproximadamente 25 dias, tendo a contribuição da Sudene para transporte etc.”.

Então vinham raridades nas fotos: Helen Rogers, Francisco Julião, Eva (tradutora) e Bill Hartigan. Era um flagrante da política traiçoeira dos Estados Unidos, que enviara uma “bem-intencionada” cineasta ao Nordeste do Brasil, para que documentasse uma nova Cuba em território pernambucano. Mas o filme, mesmo, nada. E assim se passaram mais de dois anos.

E agora, faço um reconhecimento público, pois numa pesquisa nunca estamos sozinhos. O resultado feliz da busca somente foi possível com a inestimável ajuda do historiador pernambucano Felipe Genú, que me enviou pelo Face esta mensagem:

“ ‘Senhor Urariano, li um texto seu de 2012, onde o senhor estava à procura do documentário The Troubled Land, da ABC. O senhor já o encontrou?’

Respondi:

‘Não, Felipe, ainda não. Eu desejava mais esse documentário quando escrevia o meu romance ‘O filho renegado de Deus’. Mas o meu interesse continua.’

E o imprescindível pesquisador Felipe Genú:

‘Senhor Urariano, eu sou historiador, e no momento estou escrevendo uma dissertação sobre o Teatro de Cultura Popular do MCP, do governo Arraes. Depois de ouvir falar no The troubled land, fiquei muito interessado, e pesquisando encontrei uma versão dele posta na internet pela School of Cinematic Arts. Eles o postaram num site chamado Vimeo. Basta o senhor se cadastrar e buscar ‘Brazil The troubled land’, que vai aparecer o documentário’ “.

Então, se tornou livre para o público brasileiro o filme, com as imagens de Francisco Julião em 1961, de Celso Furtado na Sudene em entrevista, do latifundiário Constancio Maranhão a se exibir dando tiros para mostrar qual era a sua lei para os camponeses sem terra de Pernambuco.

Esse filme tem muito a ver com a memória salva de Alexina Crêspo, viúva de Francisco Julião. E não só, como se mostrou nos 100 anos do seu nascimento, porque ela foi militante comunista, liderança das Ligas Camponesas, recebeu treinamento de guerrilha em Cuba, teve encontros com Fidel Castro e Mao Tsé-Tung.   

Ontem, em 30 de junho, na homenagem à grande Alexina Crêspo, o filme voltou a circular para todo o mundo. Só nos resta dizer: Viva!

O filme está aqui BRAZIL THE TROUBLED LAND (1964) | Vídeos e Filmes no Vimeo

*Vermelho O documentário “Brazil – The Troubled Land” de volta – Vermelho

Urariano Mota – Escritor, jornalista. Autor de “A mais longa duração da juventude”, “O filho renegado de Deus” e “Soledad no Recife”. Também publicou o “Dicionário Amoroso do Recife”.

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Urariano Mota

Escritor, jornalista. Autor de “A mais longa duração da juventude”, “O filho renegado de Deus” e “Soledad no Recife”. Também publicou o “Dicionário Amoroso do Recife”.

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