4 de junho de 2026

Platão explicado para jovens no filme “Cidade das Sombras”

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Depois do gnosticismo pop buscar o público adulto através de filmes como “Show de Truman”, “Matrix” e “Vanilla Sky”, agora se volta para o público adolescente. É o exemplo do filme “Cidade das Sombras” (no Brasil veio direto como DVD sem passar pelos cinemas) que faz um notável mix entre o platonismo e o fervor místico do Gnosticismo: da alegoria da caverna de Platão à salvação pelo arrebatamento místico.


O filme “Cidade das Sombras” (City of Ember, 2008) do diretor Gil Kenan (da animação “A Casa Monstro”) e do roteirista Caroline Thompson (de animações como “A Noiva Cadáver” e “O Estranho Mundo de Jack” e o filme “Edward Mãos de Tesoura”, todos do diretor Tim Burton) é surpreendente: a princípio parece que estamos diante de mais uma aventura com heróis adolescentes que desafiam vilões adultos com muita ação e mistério. Mas a narrativa, baseada no livro homônimo de Jeanne Duprau, vai muito mais além. Primeiro pela estética (lembra muito as ficções distópicas do diretor Terry Gilliam como “Brazil, o Filme”). Segundo, e principalmente, pelos simbolismos que vão sendo desenvolvidos pela estória: aqui e ali alusões a filosofia platônica, neoplatonismo e gnosticismo.

Para começar, o próprio argumento do filme, explicitamente inspirado na alegoria da caverna de Platão, tal qual descrita na obra “A República”, um exemplo de como o homem pode se libertar da sua condição de escuridão e alcançar a luz da verdade.

Mas antes, uma breve sinopse: diante de um iminente apocalipse, cientistas e intelectuais constroem uma cidade subterrânea, iniciando-se uma nova geração de pessoas a residir sob a terra, longe das catástrofes. Depois de 200 anos, um dispositivo alertará os habitantes de como voltar à superfície. Mas as gerações se passam e a verdade (e o dispositivo) se perde. Todos esqueceram o propósito daquela cidade e porque vieram parar ali. Para eles, Ember é a única realidade e para além das suas fronteiras só existem trevas.

Orgulham-se das suas luzes (colocadas ali pelos “construtores”, tidos por eles como espécies de deuses de origem desconhecida). Mas, depois de tanto tempo, os geradores começam a falhar ameaçando condenar Ember à total escuridão. Dois adolescentes, Doon Harrow (Harry Treadway) e Lina Mayfleet (Saoirse Ronan), vão procurar a resposta por conta própria, já que o prefeito corrupto (Bill Murray) só pensa em roubar os escassos alimentos da cidade. Aos poucos vão desvendando os mistérios e, principalmente, a saída de Ember.

A cidade de Ember, cercada pelas trevas e as luzes artificiais produzidas por máquinas à beira do colapso de tão velhas, é a própria atualização da caverna platônica. Os moradores tomam as luzes das lâmpadas como a única verdade e ignoram a natureza não autêntica das suas vidas e simplesmente colocam o destino dos geradores nas mãos dos deuses “construtores” (“Eles saberão o que fazer, nunca nos faltaram”).

Ember é uma cópia imperfeita, caricata do que fora um dia a humanidade. Um simulacro do passado. Tal como em Platão, os cidadãos de Ember (a humanidade) tomam o simulacro como a realidade. Toda a memória do passado foi perdida, sobrando apenas reminiscências (a caixa com as instruções para retornar à superfície e um livro escondido pelo prefeito corrupto com a história da cidade). Tudo foi perdido, assim como em Platão que julga a humanidade igualmente prisioneira na caverna do mundo das aparências sensíveis, restando à Filosofia o trabalho de relembrar às conexões perdidas com o mundo das Idéias.


Neoplatonismo versus Gnosticismo


O argumento de “Cidade das Sombras” parte desse platonismo, mas vai além ao acrescentar o élan místico da salvação: o Gnosticismo.

Historicamente, um dos fundamentos das origens do Gnosticismo nos séculos II e III da Era Cristã foi o platonismo. O dualismo platônico entre sensível e inteligível, matéria e espírito, finito e infinito, mundo e Deus é acentuado ainda mais entre os gnósticos, mas, ao contrário dos gregos, não vão buscar a síntese no caminho do racionalismo. Influenciados pelo misticismo oriental, os gnósticos vão buscar algo mais além do que a verdade suprema: a salvação, uma saída de um cosmo dominado pelo Mal e corrupção.

Em Platão ou no Neoplatonismo de Plotino (Egito, 270 DC) não há um mundo do Mal rival do mundo do bem. Para eles o Mal não é uma entidade positiva, mas um “apequenamento da sabedoria, uma alma prisioneira da sua própria ignorância”. Portanto, a busca da verdade se limita a um processo de arrebatamento místico pessoal (no caso de Plotino) ou do questionamento filosófico-racional (Platão). Ao contrário, os gnósticos vão além: se o Mal estrutura o próprio mundo físico e o corrompe, não somos apenas ignorantes, somos prisioneiros de uma ordem perversa que propositadamente cultiva a ignorância e o esquecimento. Portanto, a salvação é a destruição desse mundo para o nascimento de  outro.

A partir do argumento platônico, o filme “Cidade das Sombras” acrescenta o primeiro elemento gnóstico: a salvação através da destruição do Mal. Assim como seus pais no tentaram no passado, o casal adolescente Doon e Lina procura a fuga de Ember e da estrutura corrupta montada pelo prefeito para perpetuar a ordem caótica.

O filme acrescenta ainda dois outros elementos nitidamente gnósticos: o esquecimento representado pelo sono e a melancolia como estado alterado de consciência que abre o caminho para a salvação (gnose).  Os dois personagens mais idosos do filme (o chefe dos reparadores dos dutos – Martin Landau – e a avó de Lina – Liz Smith) que detinham alguma lembrança de como tudo começou estão sonolentos ou pela proximidade da morte ou pelo tédio da rotina. Esqueceram de tudo ou confundem suas memórias com fantasias.

Os protagonistas Doon e Lina são os únicos habitantes da cidade que têm a estranha sensação de serem estrangeiros, deslocados, como se não pertencessem àquele lugar. Pressentindo que há algo de errado e de que o mundo não se limita às trevas que isolam a cidade, melancolicamente tentam conviver com a rotina entediante. Assim como no gnosticismo de Mani (viveu no Irã no século III DC e sua religião floresceu por vários séculos tornando-se a principal fonte de transmissão da tradição gnóstica), o melancólico deve rechaçar todas as formas de consolação ou racionalização (no filme, as oferecidas pelo prefeito para desviar as atenções como as festividades do “Dia da Canção”). Sentir-se como um estrangeiro no próprio país é uma das formas de abrir a percepção para a Verdade.


De Alexandria à Internet


Para pesquisadores como Eric G. Wilson, esse sentimento de ser “estrangeiro”, esse mal estar no mundo que não consegue ser pacificado pela razão sempre parece ressurgir na História:

“Através dos tempos pensadores têm lutado para entender como as efêmeras aparências da realidade podem conectar-se com algo tão estável e duradouro (espírito, alma). Dividiram o mundo entre superfície e profundidade, destino e liberdade, conformidade e conversão. Meditações em torno desse dilema (dos ensaios de Kant e Descartes, passando pelas apologias de Tomas de Aquino e Agostinho até os mitos alquimistas, cabalistas e gnósticos) marcam a história do pensamento ocidental. Tal dilema parece ressurgir sempre em momentos de crise de paradigmas. Na era de Platão as batalhas contra os Sofistas em torno da questão da verdade versus retórica, nos primeiros tempos da era cristã os ataques de Valentim[1] contra a redução do Deus infinito ao Jeová dos judeus e, na atualidade, a crise da distinção entre aparência e realidade com as novas tecnologias”. WILSON, Erik. Secret Cinema: gnostic visions in film, New York: Continuum, 2006, p. vii)

 

As bases do gnosticismo como o neoplatonismo de Plotino, Filon entre outros floresceu no início da Era Cristã na cidade de Alexandria, na época uma cidade cosmopolita na qual viviam romanos, judeus, gregos e egípcios. Desse lugar perfeito para intercâmbios, além de dispor de uma admirável biblioteca onde estava todo o conhecimento da época, surgiu o caráter sincrético da filosofia neoplatônica e, mais tarde, o Gnosticismo.

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Wilson Ferreira

Wilson Roberto Vieira Ferreira – Mestre em Comunição Contemporânea (Análises em Imagem e Som) pela Universidade Anhembi Morumbi.Doutorando em Meios e Processos Audiovisuais na ECA/USP. Jornalista e professor na Universidade Anhembi Morumbi nas áreas de Estudos da Semiótica e Comunicação Visual. Pesquisador e escritor, autor de verbetes no “Dicionário de Comunicação” pela editora Paulus, e dos livros “O Caos Semiótico” e “Cinegnose” pela Editora Livrus.

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