Safatle em nome de todos
Por Monica Stival
Doutoranda em Filosofia – USP
“Melhor morrer de vodca que de tédio”[1]. O agito louvado por Vladimir Maiakóvski não poderia ser mais distante da “calma indiferença” clamada por Vladimir Safatle. Ainda que o nauseante movimento evocado seja imaginado por este como démarche em direção à bucólica imagem da indiferença, nada mais ironicamente decepcionante que vislumbrar como fim da agonística o plácido tédio que, por ser seu contrário imediato, fornecia valor ao embate.
De todo modo, é exatamente assim que Safatle apresenta o dever-ser da esquerda, ou melhor, de todos: “Quando afirmo que devemos ser indiferentes à diferença é por defender que a vida social deve alcançar um estágio no qual a diferença do outro me é indiferente”[2]. Abstraindo o plano imaginário em que se situa o plural dessa primeira pessoa, o fato é que a indiferença, não por acaso, é signo de desinteresse ou desprezo. Mais ainda, conforme o dicionário, sempre instrutivo, significa também “insensibilidade moral” (“inconsciência doentia” pareceu-me demasiadamente pessoal).
Ora, se é plausível dizer que “queremos uma política (…) radicalmente aberta à alteridade”[3], a ideia programática de Safatle, ainda sem programa, vai na exata direção oposta. Se a equívoca unidade que se pode designar como esquerda quer tal política, é porque não se trata de postular o bem para todos como dever-ser da vida social. Essa sociedade da indiferença não pode ser outra coisa que a neutralização absoluta da alteridade.
Mas por benevolência em relação às boas intenções, deixemos o dicionário e o uso habitual para resgatar a definição do autor: “‘Indiferença’ significa, aqui, não querer legislar sobre as diferenças”[4]. Curiosa ideia de indivíduo, atomizado frente toda possibilidade de comunicação, experiência coletiva ou políticas públicas. Não é difícil entender que diferenças são fontes inevitáveis de conflitos, e a gestão desses conflitos, engendrados por certa insociável sociabilidade, coloca-se a todo e qualquer tipo de governo. Assim, a maneira pueril de apresentar o problema do casamento, entre homossexuais ou não, deixa de considerar precisamente a vida em sociedade, a vida em que as diferenças estão em relação. À aberrante pergunta “Mas por que não ir além e afirmar que o ordenamento jurídico deve ser indiferente ao problema do casamento?”[5] um governo de esquerda responde: essa ideia absurda leva necessariamente à opressão violenta de grupos da sociedade, e por isso é preciso garantir que a diferença sobreviva sem ônus.
Na prática, essa hipótese implica desregular completamente todas as relações econômicas vinculadas, ao menos no mundo em que vivemos, ao casamento e, consequentemente, à organização da propriedade. Um exemplo de como uma política de esquerda se estabelece, no plano real, em função de instituições que a geração 68 ajudou perigosamente a dissolver, ao invés de redefinir, está na determinação jurídica segundo a qual os imóveis adquiridos por meio do programa “minha casa, minha vida” devem ficar, em caso de separação, com a mulher. Ou entre tantos “deveres” devemos abstrair completamente a história e a condição sociológica de certos grupos sociais?
É evidente que isso significa disputar a “gestão de modelos” desprezada por Safatle[6], a fim de ressaltar a importância vital das políticas públicas que asseguram certo equilíbrio entre as diferenças inevitavelmente em conflito – portanto, trata-se de universalidade – em detrimento do democratismo de direita para o qual deve reinar a maioria. Só se pode “ir além”, mantendo-se à esquerda, aprofundando a equalização da diferença, nunca por um salto desta à abstrata igualdade definida por Safatle. O tédio desta tranqüila indiferença é idêntico à atomização absoluta dos indivíduos, em um onírico estado em que a relação entre os homens é contemplativa e descomprometida.
Antes e para sermos “universalistas” é preciso que certo horizonte seja comum pelo menos à esquerda. Para isso, não basta desdenhar daqueles que reivindicam o fim da distinção política em termos de esquerda e direita[7]. Num plano anterior, é a diferença em relação ao que situa alguém do lado esquerdo da corda que se trata, afinal, de disputar. Desnecessário notar que isso justifica este comentário. Afinal, não parece razoável resignar-se à indiferença quando o horizonte em questão só pode ser dito “político” porque põe em jogo um interesse, uma ideia. Em meio a tantas idéias diferentes, a unidade equívoca de um ideal precisa ser equalizada por meio de certa gestão (sic!) não apenas governamental ou jurídica, mas social das diferenças.
E se o que se quer propor como unidade ideal à esquerda é a “indiferença à diferença”, no sentido radical de vislumbrar o fim de toda polêmica, e com ela de toda política, em uma orgia de totalitarismo moral, dissolvidas para tanto todas as instituições que, bem ou mal, estabilizam o antagonismo nessa vida social na qual estamos historicamente situados, se for isso, então só resta, creio, a denotativa indiferença.
Há muitos pontos a discutir sobre a auto-nomeação da esquerda corajosa, mas é hora de abrir uma vodca.
[1] Epígrafe do livro “A esquerda que não teme dizer seu nome”, de Vladimir Safatle, São Paulo: Três estrelas, 2012.
[2] Trecho da coluna “Indiferença”, publicada pelo autor no jornal Folha de SP, 12 de junho de 2012.
[3] Idem.
[4] Idem.
[5] Idem.
[6] Cf. Introdução ao livro “A esquerda que não teme dizer seu nome”, especialmente p. 14-15.
[7] Esta é a tese que justifica a abordagem de Safatle, conforme se pode ler na introdução ao livro citado.
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