Série A bomba e a Guerra Fria mira Putin, mas acerta os EUA, por Carolina Maria Ruy

O que salta aos olhos é como os EUA faz tudo para se manter como o país mais poderoso e mais ameaçador do mundo.

Série A bomba e a Guerra Fria mira Putin, mas acerta os EUA

por Carolina Maria Ruy

O século 20 consagrou os EUA como uma superpotência mundial através das duas Grandes Guerras que devastaram a Europa. Um fato determinante, tanto para a consagração do perfil imperialista do país, quanto para a lógica de guerra que passaria a vigorar, foi a detonação da bomba atômica no Japão, em 1945.

A série documental Ponto de virada: A bomba e a Guerra Fria, lançada em 2024, pela Netflix, enfatiza a ameaça nuclear que atravessa a história desde aqueles ataques que colocaram fim na Segunda Guerra apontando para a chegada da Guerra Fria.

Cada um dos nove capítulos, de pouco mais de uma hora cada, começa com o conflito entre Rússia e Ucrânia, ressaltando o sofrimento dos ucranianos. Isso não deixa dúvida sobre a mensagem que série quer passar: ela quer criar um fio condutor entre o bombardeio de Hiroshima e Nagazaki e o atual governo de Vladimir Putin.

Mas, embora a intenção seja mostrar o perigo da Rússia, em guerra com a Ucrania, possuir armas nucleares, o que salta aos olhos é como os EUA faz tudo para se manter como o país mais poderoso e mais ameaçador do mundo. Conforme apontaram os jornalistas Andrew Murray e John Wojcik, no jornal People´s World, tanto parlamentares do Partido Republicano, quanto do Partido Democrata, nos EUA, concordam em fornecer dinheiro para o governo de Volodymyr Zelensky já que “a derrota de Vladimir Putin é uma necessidade para os EUA permanecerem como a nação mais forte da terra”.

Não foi para acabar com a guerra, foi para conter o avanço da URSS

O primeiro episódio, que mostra a criação da bomba e a detonação nas cidades de Hiroshima e Nagazaki, é o mais impressionante. Diversas informações ali levantadas proporcionam uma visão aprofundada sobre os eventos que resultaram naquele trágico divisor de águas.

Um deles é que, diferente do que foi divulgado pelo governo americano, a área de teste da bomba nos EUA não era totalmente despovoada, e a primeira detonação afetou, além da fauna e da flora, um grupo de dançarinas hospedadas no raio de ação do armamento. Houve, desta forma, desinformação do governo ao próprio povo americano, alheio aos esforços daquele empreendimento macabro.

Outro ponto que chamou a atenção foi a situação das cidades de Hiroshima e Nagazaki antes do bombardeio. Com cerca de 90% da população civil, o núcleo militar de Hiroshima, que serviu como justificativa para colocar uma cidade em pleno vigor como alvo, era irrisório. Nagazaki, por sua vez, possuía uma forte comunidade religiosa e, no momento do ataque, igrejas repletas de fiéis foram liquidadas.

É também neste episódio que vemos cair por terra a tese de que a decisão do governo americano, de detonar as bombas no Japão, se deu para pôr um fim à guerra, frente à persistente resistência japonesa. A série mostra o avanço da União Soviética de Stalin em direção ao Japão para resolver o conflito. Com isso, o temor americano de haver mais um país comunista, ou dividido como aconteceu com a Coreia, o Vietna e a Alemanha, precipitou o uso das armas nucleares.

Mas, embora este primeiro episódio enfatize de forma contundente o pioneirismo estadunidense no uso da bomba, na sequência o perigo nuclear é colocado sobre os países que desenvolveram e que possuem o armamento.

A série chega a apresentar um Harry Truman, presidente dos EUA que ordenou os bombardeios, pesaroso após conhecer os horrores de sua ação. E registra que ele suspendeu ataques que estavam programados, determinando que aquela arma só poderia ser usada com a autorização do presidente. Nada disso, entretanto, anula o fato de que os EUA foram os únicos no mundo a usarem não uma, mas duas bombas atômicas contra outro país.

Dominar países que possuíssem recursos naturais

Depois do choque inicial é reforçada a “gana” do líder soviético, Joseph Stalin, em construir a bomba. Os EUA não são poupados e os golpes patrocinados na América Latina e no Oriente Médio são mostrados em sua natureza sórdida, com direito à uma fala do Secretário de Estado, John Foster Dulles, que diz que o país deveria intervir e dominar países que possuíssem recursos naturais importantes para o governo americano.

A Revolução Cubana e o vexame de John F. Kennedy na Baía dos Porcos, quando tentou liquidar o governo de Fidel Castro, também são exibidos com franqueza. E isso se passa em um momento de mudanças na URSS, poucos anos após o Primeiro-Ministro soviético, Nikita Kruschev ter feito denúncias contra seu antecessor, Stalin, no 20º Congresso Partido Comunista da União Soviética.  

Fidel aproximou-se de Kruschev, e mísseis soviéticos foram colocados em Cuba, a poucos quilômetros da fronteira estadunidense. Sobre a decisão de retirar esses mísseis, a série revela um acordo que por muitos anos permanecera secreto. Segundo documentos do Pentágono, o Primeiro-Ministro soviético concordou em retirar os mísseis mediante um acordo feito com Robert Kennedy, Procurador Geral e irmão do presidente americano, segundo o qual os EUA também retirariam mísseis posicionados na Turquia.

Fim da URSS e da Guerra Fria

A série coloca a emergência do líder sindical polonês Lech Wałęsa no início de um processo que resultou no desmoronamento da União Soviética. Wałęsa projetou-se no fim da década de 1970 com um discurso pela criação de “sindicatos livres” e uma postura anticomunista. Apoiado pela CIA, pela igreja católica do Papa João Paulo 2º e pela AFL-CIO, ele protagonizou greves massivas e conseguiu apoio popular. Com o desmoronamento do comunismo no leste europeu, o sindicalista pôde se candidatar e venceu as eleições presidenciais na Polônia em 1990.

São confusos os eventos, mostrados na série, que se desdobraram na queda do Muro de Berlim. Em uma entrevista coletiva, o último presidente da Alemanha Oriental, Egon Krenz, leva a entender que o Muro seria aberto “imediatamente”. A notícia se espalha e, em meio a informações desencontradas, a população acaba protagonizando aquele episódio tão crucial para a história recente que foi a queda do Muro de Berlim, em novembro de 1989. Àquela altura a ordem bipolar que perdurava desde 1947 estava praticamente destruída.

Embora as principais etapas que resultaram no fim da União Soviética, como a Glasnost e a Perestroika, tenham ocorrido durante os governos de Mikhail Gorbatchov, na URSS, e Ronald Reagan, nos EUA, foi nos governos do russo Boris Iéltsin e do americano George H. W. Bush (o pai) que o fim da Guerra Fria foi decretado, com a oficial dissolução da União Soviética, em dezembro de 1991.

Vladimir Putin reconstruiu uma Rússia falida

A situação da Rússia imediatamente pós URSS é devastadora. Sem instituições que mediassem o capitalismo que se estabelecia, a economia degringolou. Boa parte da população que estava empregada pelo Estado, se viu no abandono. Com a disseminação de fome e doenças, a expectativa de vida chegou a cerca de 50 a 60 anos. Por outro lado, formava-se uma classe de magnatas que controlavam os meios de produção, agora privados. Era uma situação que não só Iéltsin não tinha condições de contornar, como ele alimentava para se manter no poder.

Desgastado, Iéltsin não chegou a completar seu segundo mandato e nomeou seu secretário do Conselho de Segurança, Vladimir Putin, como Primeiro-Ministro. A série mostra a trajetória de Putin, desde os tempos de agente da KGB até se tornar presidente. E mostra como ele reconstruiu a Rússia não só econômica, como também culturalmente, resgatando um orgulho nacional.

Mas, de forma maliciosa, isso é colocado como artimanhas de um homem que quer se tornar um magnata, e não como um projeto de nação. A série cria uma narrativa cínica e subjetiva baseando-se, pasmem, em impressões pessoais de autoridades do governo americano.

Por exemplo, a ex-secretária de estado dos Estados Unidos, Condoleezza Rice, que dá depoimentos para a série, chega a dizer que Putin ansiava pela aprovação de George Bush, mas, contradizendo-se, admite que Putin desaprovava os métodos dos EUA e que ele não apoiou os americanos na chamada “guerra ao terror”.

Michael McFaul, que foi embaixador dos EUA na Rússia, assume que na época dos golpes ocorridos na América Latina durante a Guerra Fria, houve interferência da CIA, mas diz que nos conflitos de 2011, 2014 e na atual situação com a Ucrânia, isso não procede.

Ora, mas naquela época, apesar de todas as evidências da intervenção, os EUA também não admitiam manipulação sobre outros países. Isso é de conhecimento público hoje, em grande parte, devido à queda do sigilo de documentos oficiais. Será preciso cair os sigilos para confirmar que os EUA manipulam a geopolítica para manter seu imperialismo?

Crises de 1973 e 2008

A série não menciona as crises do petróleo de 1973 e a crise financeira de 2008, mesmo sendo eventos fundamentais para compreender o mundo na atualidade, especialmente o conflito entre Rússia e Ucrânia.

Para muitos pesquisadores a crise de 1973 foi um ponto final da Era de Ouro do capitalismo pós Segunda Guerra. Vale resgatar a análise de Eric Hobsbawn para pontuar a magnitude da crise. Diz o historiador, em Era dos Extremos (2ª ed. Cia das Letras):

“A história dos vinte anos após 1973 é a de um mundo que perdeu suas referências e resvalou para a instabilidade e a crise”. Segundo ele, os objetos da crítica ao capitalismo antes da Segunda Grande Guerra – pobreza, desemprego em massa, miséria e instabilidade, que foram em grande parte eliminados entre 1945 e 1973, reapareceram após a crise do petróleo.

Aquela crise revelou um enorme desgaste do capitalismo, que nunca se recuperou completamente, entrando em décadas de recessão e de aprofundamento da desigualdade.

Um sintoma do colapso deste sistema ocorreu com força setembro em 2008, quando estourou a Bolsa de Nova Iorque repercutindo internacionalmente. Aquela crise desencadeou um desarranjo em cadeia nas economias de diversos países gerando um contexto de instabilidade que impulsionou protestos massivos como a Primavera Árabe, a partir de dezembro de 2010, e as manifestações na Ucrânia em 2014 (eventos que contaram ainda com a disseminação dos smartphones e das redes sociais, o que aprofundou o caráter liberal das megamanifestações). Embora inicialmente aquelas manifestações parecessem populares, muitas delas foram cooptadas por organizações privadas e de direita, assumindo um caráter antissistema e antipolítica.

A crise de 2008 é fundamental para compreender os recentes conflitos na Rússia e na Ucrania, tanto pelas megamanifestações que ela ensejou, quanto por ter acelerado um rearranjo de forças que já vinha se formando desde pelo menos a década de 1970.

Série procura direcionar a opinião do expectador

A série vale pelo panorama histórico e pelos registros documentais que ela apresenta. Mas deve ser vista com cautela. Ela procura direcionar a opinião do expectador, criando uma determinada imagem do presidente russo, como um homem implacável e disposto a qualquer ação para atingir seus objetivos.

As informações que chegam para nós no Ocidente, através da grande imprensa e de produções culturais, qdo envolvem assuntos sensíveis aos EUA, são muitas vezes enviesadas e filtradas.

No caso desta série, olhando somente os fatos, independente da mensagem subjacente, vemos a reconstrução de uma Rússia devastada, vemos as artimanhas, nas quais até uma série como esta se inclui, para que os EUA perpetuem uma hegemonia bélica, cultural e econômica sobre os demais países, e vemos, sobretudo, a formação de novas forças na geopolítica mundial.

Não há nada que conseguiram revelar sobre a Rússia além de opiniões e impressões pessoais. Certamente nada tão grave quanto ter jogado duas bombas atômicas sobre duas cidades matando milhares de inocentes, como os EUA fez em agosto de 1945.

Carolina Maria Ruy é jornalista e coordenadora do Centro de Memória Sindical

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Redação

3 Comentários

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  1. Não existe poder nacional sem o latrocínio em massa. No mínimo a escravidão de pessoas e até países. Que os gringos contem outra. Essa mentira de defesa da liberdade tá manjada.

  2. Nas séries dos EUA são mestres em acentuar o orgulho de ser americano.
    Tenho dúvidas com coisas que querem mostrar tudo…claro que a pretensão mega acaba ficando rasa3

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