Colonialismos Digitais: o diverso na economia do ofuscamento
por Eduardo Figueiredo
I
Focus Imaginarius?
Os estudos que se ocupam com a abrangência do mundo empírico conseguem refletir as implicações dos detalhes. E desse modo se tornam fecundos. As ciências humanas e a teoria social são avessas às proposições apressadas. O empírico se transforma no tempo e carece de exame. Se os historiadores e os sociólogos se encontram sempre às voltas com construções teóricas, o fazem para se orientar, corrigir problemas, revisar hipóteses. Vale considerar: E a filosofia, que é a reflexão elementar sobre os limites do conhecimento, como se debruçou sobre a ilusão transcendental de ser possível tudo compreender? Pode-se indagar: esta ilusão, que antecipa juízos na constituição dos conhecimentos, poderá ter algum papel positivo? Nisso os paradoxos. Eles podem ser superados? Sim, mas tão somente com auxílio do escrutínio da razão, pois há uma ideia transcendental com morada no conhecimento empírico. Esta irá fraturar a unidade.[1]
A razão sempre nos prega peças. As antinomias do pensamento se rendem às elaborações sistemáticas do entendimento. Nesta ideia transcendental, a suposição de unidade possível, que é tão só projeção, está o focus imaginarius, compreendido porImmanuel Kant.[2]Se os esforços da razão devem duvidar da reunião de palavras e das sistematizações orgânicas, em tempos difíceis, apenas merecem atenção indagações que reflitam sobre exemplos atuais, ainda que se traduzam em compreensões fragmentárias e imperfeitas.[3]Do que se trata? Das projeções e desconexões para com o empírico social como antecipação, de nos rendermos às palavras.
Como enfrentar afirmações segundo as quais a sociedade brasileira poderá tornar no futuro sempre projetado, suas possibilidades históricas? Os predicados do Brasil sempre estiveram às voltas com duas danações: a riqueza e a energia perceptíveis nas suas formações sociais, expressas na heterogeneidade étnica e nas suas singularidades geográficas; porém desafiados pelos efeitos de indisfarçada política de contenção, de impedimento, de distensão relativamente àquilo que é danoso aos seus cidadãos. O aprofundamento da política não ocorre. E a exclusão de vários dos seus segmentos sociais se reproduz. E nesta segunda metade da terceira década do século XXI, nos vemos conduzidos e intimidados por explícitos constrangimentos geopolíticos e econômicos.
Cerimonioso em reconhecer seletiva massa de consumo, cujos bens, para existirem, sacrificam o meio ambiente e flertam com trabalho em condições análogas à de escravos, desencadeando desejos irrealizáveis nos mais humildes, o Brasil ‘tecnológico’ é reticente diante dos sobejos virtuais que injetam, por meios das plataformas de tecnologia ou big techs, incalculáveis mensagens, imagens, mecanismos de interação virtuais.
As postagens são diversas. Experiências banais de usuários comuns ou de celebridades, jogos, apostas, serviços de crédito, sexo, entre outras fantasmagorias. Esses aspectos do social-empírico, nesse sentido, impedem o futuro em projeção. Há nele indução de condutas e formas de ofuscamento do real. Mas o que é, aparentemente, diverso nessas expressões humanas e tecnológicas, não é plural.
Na dimensão virtual, do ponto de vista do destinatário de imagens e mensagens, são múltiplas as fontes produtoras. Há periódicos, jornais regionais e locais, além de toda sorte de uploads independentes, tanto individuais quanto de grupos. Os materiais que nas plataformas se tornam disponíveis e que se reproduzem, sendo editados indefinidamente, suprimem, parcial ou integralmente, e é por isso que essa dimensão se robustece, o conhecimento do outro. E o outro está nas relações humanas. As experiências das interações que exigem a vivência e a práxis cognitiva e social estão sendo substituídas.
Há algo de egoístico-passional nas redes sociais. Isso neutraliza o ético-político. No ambiente virtual renunciamos à práxis. A interação se limita às mensagens. Mas a dignidade das pessoas, que se envolve com a ideia ético-política de vida desejável e salutar, é bem coletivo. A vida é inconfundível com retratos privados, cujas disposições negam condições existenciais comuns para existência dos seres humanos. Circunscritas à caricaturização de ações diárias nas redes, as quais se dão por meio de autodescrições, multiplicam-se imagens, sejam em academias, ocasiões de vida privada ou eventos particulares.
Nestas percepções compartilhadas, o que se explicita são mais os equívocos das comparações que o entendimento fruto de vivências. E nisso há mais que afinidades e convergências de sentido. Estudadas pela linguística, os compartilhamentos de sentidos envolvem-se com a erupção do evento semântico.[4] As indagações que a análise linguística cultiva consideram que a construção, também social, dos meandros e trapaças que sabotam nossas percepções residem não apenas na linguagem, mas na cognição.
É importante destacar esse aspecto, o de que as nossas percepções estão sendo limitadas às interações tecnológicas, nas quais ocorrem a fabricação e a reprodução falhas quanto ao discernimento do real.[5] Fabricações e reproduções da realidade colocam em questão os sistemas de crenças e os fatores condicionantes da percepção humana. Pavimentam solo diverso e também mutável. E nele é que incidem os estímulos físicos e sensoriais da percepção. Interpretadas pelos processos mentais[6] e exploradas sobre diversas variações, não é exagero afirmar acentuarem desconexões do mundo humano de referências, outrora recorrente nos moldes das construções dos símbolos e dos significados.[7]
Esses problemas da linguística, especificamente da semiótica, foram estudados por Izidoro Blikstein no instigante livro Kaspar Hauser ou a fabricação da realidade. Envolvente das nossas relações sociais, símbolos e significados dão forma àquilo que irá desencadear os eventos semânticos.[8]
Tudo que a inteligência humana descreve, atribui realidade e conceitua por meio das palavras, detém reservas extralinguísticas. Os semioticistas, para tanto, lidam com o termo referente. O referente não trata de algo que fica de fora dos estudos da linguística. Mas admite-se que pode estar situado atrás ou antes da linguagem, como evento especificamente cognitivo. O referente é produto que é produzido pela nossa percepção.
Das imediações, aproximações ou contatos entre palavras e coisas ou ainda, entre coisas e a realidade e dessas com os significantes, emergem produtos. Os símbolos, os objetos mentais ou as unidades culturais, por meio das quais os seres humanos se comunicam, são formações culturais milenares.[9] Recorrer à dimensão anterior à própria experiência verbal, ensina Blikstein, poderá auxiliar na detecção da gênese dos significados.
E a dimensão para a qual se volta a gênese dos significados, que não se confunde com a realidade enquanto tal como ela se coloca diante de todos, é a percepção-cognição. Nela se fabricam os referentes/objetos mentais/unidades culturais. Por sua vez, nestes é que, embora desprovidos de um estatuto linguístico propriamente dito, se condicionarão os eventos semânticos.[10]
Diante do risco de atrair para a linguística desdobramentos de psicologismos ou de antropologismos, os teóricos da linguagem e os semioticistas […] são refratários ao exame da percepção da coisa extralinguística, muito embora […] a consequência mais danosa causada pelo descarte do referente foi expulsar a dimensão perceptivo-cognitiva do aparelhamento teórico da linguística e da semiologia, como se a percepção/cognição fosse apenas pertinente à psicologia, à filosofia ou a antropologia.[11]
A linguística deveria, – afirma Blikstein – , voltar mais a sua atenção para a natureza da experiência perceptivo-cognitiva e procurar detectar a função e o papel desta na configuração do real, bem como na arquitetura conceitual de nosso pensamento. Seria na percepção-cognição, portanto antes mesmo da própria linguagem, que se desenhariam as raízes da significação.[12]
Nas postagens das redes há terreno fértil para os eventos semânticos condicionados e também, para utilização das ferramentas analíticas da linguística. Entre as inúmeras mensagens socialmente compartilhadas destaca-se a vida, com seus estilos e suas formas. E diante da erosão do reconhecimento da existência humana como algo comum, pertinente à espécie, a vida passa ser retratada em interação acentuada com distinções de si mesma. São exploradas relações com imagens, coisas, consumo e bens. Mas a vida ativa, que é […] a vida humana, na medida em que se empenha ativamente em fazer algo, tem raízes permanentes num mundo de homens ou de coisas feitas pelos homens, um mundo que ela jamais abandona ou chega a transcender completamente. As coisas e os homens constituem o ambiente de cada uma das atividades humanas, que não teriam sentido sem tal localização […].[13]
Nesta passagem célebre de Hannah Arendt, diante das coisas fabricadas e dispostas em organização, o corpo político, sem o qual nem mesmo o selvagem eremita poderia almejar vida possível, as ações humanas se confundem. Nossas ações não podem ser destacadas da vivência em comum, pois esta […] não pode sequer ser imaginada fora da sociedade dos homens.[14]
A vida como construção comum, precisa ser localizada como algo distinto das demais coisas. E ainda que entre as coisas estejam as construções humanas para todos imprescindíveis. Quando a vida se fragiliza, deixa de fluir? Para o sociólogo alemão Norbert Elias, isso se dá diante dos efeitos do padecimento e das limitações. Percebida nas relações de tempo-espaço, a vida se torna frágil. E não raramente, isso ocorre quando as intransponíveis rotinas impactam a solidão dos moribundos.[15]
A exploração das transformações sociais sobre os comportamentos humanos diante da morte revela como nos distanciamos dela e nos aproximamos da vida. Apenas diante da morte biológica a vida é humanizada. Ocorre que Elias percebeu a morte também no isolamento, no envelhecimento e nas limitações que a idade nos impõe. E o fez com várias imagens. Algumas delas são históricas, outras antropológicas e outras até literárias. Mas todas versam sobre as atitudes das pessoas diante da morte. Se a morte não pode ser negada, há várias formas de a vida humana ser negada.
O proposto por Elias não só tematiza a finitude, mas o seu contrário: nos auxilia a compreender que a finitude reside também nas impossibilidades, nos obstáculos diante da existência. A finitude está naquilo que não conseguimos realizar, modificar, transformar. A vida biológica, como itinerário realizador, modificador e transformador é experiência socialmente ativa. Assim percebida, mais nitidamente como sucessão de etapas diante dos desafios do corpo humano, nestes estão as vicissitudes da vida.
A morte biológica é tão só uma delas: “La muerte es um problema de los vivos. Los muertos no tienen problemas. De entre las muchas criaturas sobre la Tierra que mueren, tan sólo para los hombres es morir un problema. Comparten com los restantes animales el nascimiento, la juventude, la madurez, la enfermedad, la vejez y la muerte. Pero tan sólo ellos de entre todos los seres vivos saben que han de morir. Tan sólo ellos pueden prever su próprio final, tienen consciência de que puede producirse em cualquier momento, y adoptan especiales medidas – como indivíduos y como grupos – para protegerse del peligro del aniquilamento.”[16]
As ideias de A Solidão dos Moribundos confrontam os seres humanos com a não percepção cognitiva da finitude. Nas comparações elisianas, os outros, ou melhor, os moribundos, vivenciam condição diversa. Os temores sobre as formas por meio das quais a morte ocorria outrora não tocavam os espectadores no coliseu em Roma[17], vez a morte estar reservada aos gladiadores. E isto era tanto percepção social de distanciamento, quanto indiferença. Não havia existência em comum. Para Elias, talvez seja só mesmo a educação, enquanto experiência, que poderá multiplicar as formas sociais que dignifiquem a morte. E a morte não é, como demonstra Elias, o momento do adeus definitivo à vida: “Muchas personas mueren paulatinamente; se van llenando de achaques, envejecen. Las últimas horas son sin duda importantes. Pero a menudo, la despedida comienza mucho antes. El quebratamiento de la salud suele separar ya a los que envejecen del resto de los mortales. Su decadência los aisla. Quizá se hagan menos sociables, quizá se debiliten sus sentimentos, sin que por ello se extinga su necessidade de los demás.”[18]
Outrora doméstica, familiar e reservada aos mais próximos, hoje a morte é percebida virtualmente. As considerações sobre ela se expressam em mensagens. E das formas de isolamento social que as redes deflagraram, se tornaram mais incisivos os cuidados com a vida, pois a morte amedronta. Embora não com a vida orgânica, mas com a estética da vida, cuidados e preocupações são apresentados confusamente, como antídotos eficazes diante da morte. Na virtualidade da nova forma de empatia imagética, que é aquilo que Manuel Castells denominou de comunicação humana na era digital,[19] a relação com a vida é distante e indiferente ao bem comum.
Novas formas caríssimas de tratamento de doenças são diretamente relacionadas com vida saudável. Nas variadas construções sociais fabricadas e reproduzidas coexistem conhecimentos vulgares e científicos. Fabricação e reprodução almejam serem acessadas, lidas e popularizadas: […] um conjunto de valores e crenças que informam, orientam e motivam o comportamento das pessoas. Portanto, se há uma sociedade em rede específica, deve haver uma cultura da sociedade em rede que podemos identificar como seu marcador histórico.[20]
Neste marcador não há só a compreensão de culturas específicas em temporalidades diversas, como também em geografias diversas.[21] A descrição de Manuel Castells evidencia o terreno das erosões cognitivas. Estas não são passíveis de correção em curto tempo, pois o diálogo cultural das redes é de substância diversa: […] o industrialismo e a cultura da sociedade industrial não exterminaram culturas específicas ao redor do mundo. Houve sim contradições entre as culturas rurais e as tradicionais, que tiveram que aprender a coexistir com núcleos deindustrialização derivados da expansão econômica dos países europeus.[22]
Mas ainda tenha sido assim, a cultura da sociedade em rede é diferente: […] ela se desenvolve em uma multiplicidade de cenários culturais, produzidos pela história específica de cada contexto.[23]Diante de sistemas institucionais e culturais extremamente variados, o núcleo comum da sociedade em rede, como houve na sociedade industrial, contém camada de unidade adicional. Ela existe universalmente e em tempo real.
Suas estruturas deflagram efeitos no mundo todo e a organização em rede é global. Nestas lógica e organização, afirma Castells, se particularizam, em cada sociedade, desdobramentos específicos. Há movimentos de semelhança e de singularidade. No esteio das lições de Castells, as consequências ocorrem na cultura das sociedades.[24]
Semelhanças e singularidades afastam as identidades sociais outrora construídas e instituem novas. Um dos aspectos desse afastamento pode ser exemplificado no aprofundamento da cultura de massas. A cultura de massa assimilou a cultura popular para re-energizar sua penetrabilidade social. O que outrora era cultivado, tornou-se pouco nítido. E o que se cultiva nas formas de afinidades subjetivas são reminiscências. E atingimos outro momento: A inteligência artificial que narra A Era das Revoluções de Eric J. Hobsbawn, reproduzida inclusive com a voz do historiador inglês, faz com o que o estudante universitário não só adote este conteúdo, mas deixe de considerar que o importante teria sido ler o notável livro.
II
Catarsis
Em 2008, o índice de penetrabilidade da internet com suas variantes de comunicação (e-mails, redes sociais, blogs, sites de notícias, etc.) atingiu cifra superior a 60% […] na maioria dos países desenvolvidos e estavam crescendo em ritmo ainda mais rápido nos países em desenvolvimento.[25]
No Brasil, de acordo com estatística recente do IBGE, todas as formas de conectividade observaram aumento em seus índices percentuais, com destaque para as conexões digitais residenciais. Segundo dados da pesquisa: […] em 2023, havia 72,5 milhões de domicílios com Internet (92,5%), aumento de 1,0 p.p, ante 2022.[26]
Outro dado interessante, diz respeito aos domicílios que possuem banda larga e, com isso, o acesso às plataformas digitais por meio de dispositivos móveis, como telefones celulares: De 2022 a 2023, o percentual dos domicílios com Internet que usavam banda larga móvel voltou a subir, indo de 81,2% para 83,3%, mas continuou inferior à banda larga fixa, que variou de 86,4% para 86,9%.[27]
As implicações que derivam das formas de comunicação na era digital e as alterações comportamentais por ela condicionadas são o empírico do nosso tempo. Diante desta constatação, o relevante é não perder de vista que a […] internet, a World Wide Web e a comunicação sem fio não são mídias no sentido tradicional, mas meios de comunicação interativa.[28]
Esta forma de comunicação digital assumiu realidade antropomórfica e assim […]a existência de fronteiras entre meios de comunicação de massa e todas as outras formas de comunicação estão ficando difusas […].[29]
Como explorar o que ocorre com estas formas de comunicação e o que elas fabricam e reproduzem socialmente? Entre os itinerários para o entendimento possível deste aparato tecnológico considere-se sua permanente transformação, estruturação organizacional e institucional. Na dimensão cultural e nas implicações dos processos sociais são envolvidas várias camadas, não apenas tecnológicas, mas sociais e políticas e nestas são observáveis a […] interseção entre dois pares de tendências contraditórias (mas não incompatíveis): o desenvolvimento paralelo de uma cultura global e de uma cultura de múltiplas identidades; bem como o surgimento simultâneo do individualismo e do comunalismo, como dois padrões culturais opostos, mas igualmente poderosos que caracterizam nosso mundo.[30]
Na internet a divulgação e fabricação do real são pares. Vale considerar textos, áudios, imagens ou, em aproximada síntese, tudo o que possa ser digitalizado. Uma vez atrativos, comunidades de seguidores se formam. E isso tornou antiquado o critério da audiência relativamente a este meio de comunicação digital. O aparato internet instituiu outro tempo para as pessoas. Trata-se do tempo nas redes e das plataformas tecnológicas. Muito embora não se assista à internet como se assiste televisão, neste cenário alterado ocorre na dimensão da inter-relação plataformas-sujeitos.
Se os usuários das sociedades pós-industriais, assim como proporção crescente da população do mundo periférico, entre a década dos anos 2000 até o ano 2010, conviviam com ainternet para atividades ligadas às tarefas profissionais, a variedade de aplicações nela disponíveis tornou-a […] o tecido de comunicação de nossas vidas, para o trabalho, para a conexão pessoal, para a formação de redes sociais, para a religião. E na comunicação pessoal se destaca, como se verá, o processo de participação dos indivíduos que se tornam sujeitos do processo, algo compreendido como construção coletiva da autonomia individualista.[31]
Neste abrangente universo de comunicação digital a pluralidade não é reconhecida nas formas desta autonomia de livre expressão. Autonomia e expressão livres são intimidadas pelas configurações comunalistas de individuação. Na rápida sucessão das incompreensões relacionadas com as percepções das comunidades virtuais ocorrem as falhas cognitivas. As pessoas não conseguem atentar para o fato singelo de que na tecnologia os conteúdos são percepções formais. E nesta técnica, residem mensagens formuladas de fácil acesso, imagens sincronizadas e argumentos co-implicados.
No tocante à vida, quem tem acesso à cura, ao tratamento de vanguarda em hospital bem aparelhado? Quem pode cultivar a saúde em academias e consumir marcas esportivas? A quem tão só virtualmente, pertencem essas aparências? Trata-se de fluxo contínuo de percepção unificada e não autônoma, ou daquilo que é a forma de acessar os fatos na dimensão virtual: uma criação social distante do factual, mas que é factual entre aqueles que passam a compartilhar em comunidades virtuais, tais percepções, pois nelas […] a mídia eletrônica destruiu nossa relação com o passado, criando um mundo caótico, vazio, em que a sociedade é influenciada, acima de tudo, por signos e imagens.
Diante dessa crescente proeminência, a mídia de massa erode a fronteira entre a realidade e a sua representação, deixando apenas uma hiper-realidade na qual todos nós vivemos. Em um mundo hiper-real, a nossa percepção dos acontecimentos e a nossa compreensão do mundo social ficam extremamente dependentes de enxergá-los por intermédio de alguma mídia de massas […].[32]
Se as representações que deflagram afinidades entre pessoas serão tão só as hiper-reais e se as identidades interpessoais serão as tecnológicas, isso em um mundo de disposição rápida de coisas e organizações do poder político, nele, nossas ações, que nunca são neutras, serão mais danosas. Os passos dados adiante ainda consideram como humano e comum a todos nós as experiências com a morte biológica, ignorando de modo acentuado os obstáculos que se avolumam para a vida ativa.
Entretanto, como a afirmação da vida é a sua percepção, com as sensações variadas correlatas ao calor, ao equilíbrio orgânico e às oscilações do gozo dos sentidos, permanece inegável serem as percepções sensoriais aquilo que a natureza nos oferece como as traduções cognitivas da vida. Entre elas, o inter-relacionamento com os demais. As percepções limitadas aos sentidos estimulados diante da fabricação do real independem da constituição social da vida que se dá […] em relación com el trabajo, los amigos – y, también y sobre todo, em la forma de comportar-se com los demás.[33]
Os desafios se renovam no empírico do presente. As variáveis estão dispostas nas estruturas tecnológicas da comunicação. De pouco vale, diante delas, mobilizar tradições escapistas.[34] Um futuro utópico, melhor para todos, não poderá ser desentranhado das representações da hiper-realidade, na qual as projeções niemals etwas anders als Worte.[35]
A obra coletiva em intersecção nas redes não se confunde com contextos sociais vivenciados. Se o imaginário social se nutre em tudo que provoca os sentidos humanos, as estruturas de tecnologia estão constituindo a substância do tempo vivido. A certa altura de seu livro O Poder da Comunicação escreveu Manuel Castells: […] a mensagem só é eficaz se o receptor estiver pronto para ela […] e se o mensageiro é identificável e confiável.[36] Nas fabricações da hiper-realidade sobre a vida vale ainda refletir que ela está muito além de imagens, vez que para os homens, como hoje eles são, há apenas uma novidade radical – e esta é sempre a mesma: a morte.[37]
Notas
[1] GIROTTI, Marcio. O focus imaginarius: engano e conhecimento na ‘Crítica da Razão Pura’, Prefácio/apresentação, Cachoeirinha: editora Fi, 2022. Disponível em: https://www.editorafi.org/201marcio, acesso em 26/05/2026.
2 GIROTTI, Marcio. O focus imaginarius: engano e conhecimento na ‘Crítica da Razão Pura’, Prefácio/apresentação, Cachoeirinha: editora Fi, 2022. Disponível em: https://www.editorafi.org/201marcio, acesso em 26/05/2026.
3 ROBLES, Filipe Sampaio. UNGER, Roberto Mangabeira. Depois do Colonialismo Mental: Repensar e Reorganizar o Brasil. São Paulo: Autonomia Literária, 2018. Resenha disponível em: https://periodicos.uff.br/planiciecientifica/article/view/42953/27777.
4 BLIKSTEIN, Izidoro. Kaspar Hauser ou a Fabricação da Realidade, São Paulo: Contexto, 18ª edição, 2018, p.43.
5 BLIKSTEIN, Izidoro. Kaspar Hauser ou a Fabricação da Realidade, São Paulo: Contexto, 18ª edição, 2018, p.48.
6 Op. Cit. p. 52.
7 BLIKSTEIN, Izidoro. Op. Cit. p.43.
8 Op. Cit. p. 43.
9 BLIKSTEIN, Izidoro. Op. Cit. pp. 35 e ss.
10 BLIKSTEIN, Izidoro. Kaspar Hauser ou a Fabricação da Realidade, São Paulo: Contexto, 18ª edição, 2018, p. 40.
11 Op. Cit. pp. 40-41.
12 Op. Cit. p. 40.
13ARENDT, Hannah. A Condição Humana, tradução de Roberto Raposo, Rio de Janeiro: Forense Universitária, 8ª edição, 1997, p. 31.
14 Idem. Ibidem.
15 ELIAS, Norbert. La Soledad de los moribundos, México: FCE, 1989.
16 Op. e Loc. Cit. P.10.
17 ELIAS, Norbert. Op. e Loc. Cit. p.9.
18 ELIAS, Norbert. Op. e Loc. Cit. p.8.
19 CASTELLS, Manuel. O Poder da Comunicação, tradução de Vera Lúcia Mello Joscelyne, São Paulo: Paz e Terra, 2015.
20 CASTELLS, Manuel. Op. e Loc. Cit. p. 82.
21 “But today, because ideas can be instantaneously transmitted to any distance and to any number of people, this geographical integration has been supplemented by many other kinds of grouping, so that persons having the same ideas and interests amy be associated and regimented for common action even though they thousands of miles apart.” BERNAYS, Edward. Propaganda, Desert Books, p.41.
22 CASTELLS, Manuel. Op. e Loc. Cit. p.82 e ss.
23 CASTELLS, Manuel. Op. e Loc. Cit. p.83.
24 CASTELLS, Manuel. O Poder da Comunicação, tradução de Vera Lúcia Mello Joscelyne, Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1ª edição, 2015, p.83.
25 CASTELLS, Manuel. O Poder da Comunicação, tradução de Vera Lúcia Mello Joscelyne, Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1ª edição, 2015, p.109.
26 Para análise mais pormenorizada, consultar: https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-noticias/2012-agencia-de-noticias/noticias/41024-internet-foi-acessada-em-72-5-milhoes-de-domicilios-do-pais-em-2023. Acesso em 24/01/2025.
27 Para análise mais pormenorizada, consultar: https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-noticias/2012-agencia-de-noticias/noticias/41024-internet-foi-acessada-em-72-5-milhoes-de-domicilios-do-pais-em-2023. Acesso em 24/01/2025.
28 CASTELLS, Manuel. Op. e Loc. Cit. p.109.
29 CASTELLS, MANUEL. Op. e Loc. Cit. p. 108-109.
30 Idem. Ibidem.
31 CASTELLS, Manuel. Op. e Loc. Cit.p.111.
32 CASTELLS, Manuel. Op. e Loc. Cit. pp. 83-84-111.
31 CASTELLS, Manuel. Op. e Loc. Cit. p.38.
32 GIDDENS, Anthony e SUTTON, PHILIP W. Conceitos essenciais de Sociologia, tradução de Claudia Freire, São Paulo: Unesp, 2ª edição, 2017, p. 238.
33 ELIAS, Norbert. La Soledad de los moribundos, México: FCE, 1989, p. 45.
34 ROBLES, Filipe Sampaio. UNGER, Roberto Mangabeira. Depois do Colonialismo Mental: Repensar e Reorganizar o Brasil. São Paulo: Autonomia Literária, 2018. Resenha disponível em: https://periodicos.uff.br/planiciecientifica/article/view/42953/27777.
35 … nunca mais do que palavras. Exortação atribuível a Kant. Nesse sentido: SANTOS, Leonel Ribeiro. Kant e a questão da popularidade e da linguagem da filosofia. Marília: Cultura Acadêmica Editora, 2018, p.26. . Disponível em https://ebooks.marilia.unesp.br/index.php/lab_editorial/catalog/download/120/1007/2342?inline=1. Acesso em 26/05/2026.
36 CASTELLS, Manuel. Op. e Loc. Cit. p.20.
37. BENJAMIN, Walter. Parque Central. In: Walter Benjamin – Sociologia, KOTHE, Fávio R. (org.), São Paulo: Ática, 2ª edição, 1991, p. 133.
Eduardo Figueiredo é professor de História do Direito na Universidade Estadual de Londrina.
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