22 de junho de 2026

Bioeconomia para quem?, por Augusto Rocha

Não precisa muita perspicácia ou crítica para ver que o nome Amazônia entra muito mais como marca do que como impacto econômico.
Ronaldo Rosa - Embrapa

Bioeconomia para quem?

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por Augusto Cesar Barreto Rocha

Temos alguma dificuldade para conceituar e operacionalizar o que é a bioeconomia na Amazônia. Pior que isso, temos pouca clareza para quem será realizada esta atividade, para que propósito e outras questões filosóficas fundamentais que precisam ser enfrentadas. Como exemplo do efeito desta ausência, segundo publicação recente de André Costa, a Natura, um dos maiores expoentes nacionais dos biocosméticos, relacionou-se com comunidades amazônicas e comprou pífios R$ 35 milhões em ingredientes, para exuberante faturamento de R$ 24 bilhões.

Imagine se a sede do setor nacional de biocosméticos fosse no Amazonas, no Polo Industrial de Manaus (PIM): quanto maior deveria ser o faturamento do setor? Com alguma facilidade esta empresa seria uma das líderes do PIM, que faturou cerca de R$ 204 bilhões em 2024. Entretanto, cabe observar o quão pouco se retira de insumos amazônicos, por um faturamento que menciona a região com algum destaque. Não precisa muita perspicácia ou crítica para ver que o nome Amazônia entra muito mais como marca do que como impacto econômico.

O consumo de commodities tem um pouco desta cara. A retirada de valor é sempre muito desproporcional. Quem está mais próximo do consumidor, na cadeia produtiva, ganha bem mais do que quem está mais próximo da natureza. A bioeconomia neste modelo vai para quem? Certamente não é para as comunidades amazônicas. Há no modo atual mais uma transferência do “valor Amazônia”, tal qual no ouro, pau-brasil ou tantos outros insumos nacionais, em um passado mais remoto.

Os Programas Prioritários da Suframa para a bioeconomia têm atraído empresas que não são do setor específico para trabalhar com este intento. É um bom sonho, mas a questão é: como transformar em resultado esta política pública? Qual o resultado até aqui? Quanto do faturamento do Polo Industrial de Manaus poderia ser para a bioeconomia? Quantas empresas como a Natura estão em Manaus, mesmo que transformando muito pouco do insumo local? Pouco ou quase nada.

A intenção da política pública o do legislador prescreve um setor regulado pela lei 7.302/2025 do estado do Amazonas, em conjunto com a Lei 4.419/2016, definindo que a “Bioeconomia ou Bioeconomia Amazônica: conjunto de atividades econômicas de produção, fomento à produção, distribuição e consumo de bens e serviços provenientes de recursos da sociobiodiversidade Amazônica de forma sustentável e inovadora”. Ora, da forma colocada, como sairemos da colônia agrícola? A inovação em si não será constituída pela participação sustentável ou das comunidades.

A questão, como está posta, dá a sensação de que o alvo é transformar as comunidades Amazônicas no que eram no período de exploração da borracha, como se estivéssemos atrás de um novo ciclo da borracha, com os insumos regionais. A construção do aparato tecnológico para a inovação tecnológica depende de um modelo que integre ciência e indústria. Entretanto, a indústria Amazônica está longe do perfil “bio”. Mesmo a Natura, com seu apelo Amazônico reconhecido, está longe de aportar alterações significativas na economia regional, pois os negócios maiúsculos pouco (ou nada) transformaram a economia regional. A bioeconomia até agora está sendo uma bela expectativa.

Augusto Cesar Barreto Rocha – Professor da UFAM.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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Augusto Cesar Barreto Rocha

Augusto César Barreto Rocha é Professor Associado da UFAM. Possui Doutorado em Engenharia de Transportes pela UFRJ (2009), mestrado em Engenharia de Produção pela UFSC (2002), especialização em Gestão da Inovação pela Universidade de Santiago de Compostela-Espanha (2000) e graduação em Processamento de Dados pela UFAM (1998).

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