Sugerido por Assis Ribeiro
Da Carta Capital
Editora do “British Medical Journal” sugere maior transparência nos estudos científicos
Fiona Godlee é, desde 2005, editora-chefe do British Medical Journal (BMJ), uma das mais antigas e respeitadas publicações científicas do mundo, fundada em 1840. Graduada em Medicina pela Universidade de Cambridge (Inglaterra), ela é uma das responsáveis por avaliar estudos clínicos de diversas partes do mundo enviados ao BMJ. “Há diversas evidências de que estudos financiados por empresas são mais propensos a conclusões favoráveis aos produtos do financiador.”
Primeira mulher a comandar o BMJ, que tem uma parceria com o Ministério da Saúde para fornecer conteúdos de seu acervo a profissionais do País, Godlee vem ao Brasil nesta semana para o Congresso Mundial de Endometriose. Na visita, tentará emplacar no Brasil um programa criado em parceria com a Universidade da Califórnia para ensinar instituições e faculdades a como fazer pesquisas clínicas, escrever e publicar. “O Brasil tem potencial de pesquisas e queremos auxiliar.”
CartaCapital – A sra. foi a primeira mulher a ser editora-chefe do British Medical Journal desde a sua criação em 1840. Por que uma mulher levou tanto tempo para chegar a esse posto?
Fiona Godlee – O BMJ é uma combinação de publicação e medicina, em ambas as atividades as mulheres avançaram durante os anos graças aos esforços de muitas pessoas. Creio que me beneficiei disso. Nunca pensei muito sobre o fato de ser a primeira mulher neste cargo, mas faço o que amo.
CC – A senhora lida com estudos e artigos científicos de todo o mundo. Como avalia a qualidade da produção científica nos últimos anos?
FG – Várias perguntas precisam ser feitas: estamos fazendo o tipo certo de pesquisas? Os assuntos são corretos? Quão boas são essas pesquisas? Há grandes movimentos para mais transparência, maior envolvimento dos pacientes no processo de decisão, e uma abordagem de pesquisas mais independente em oposição a estudos financiados pela indústria. Mas ainda somos dependentes de testes clínicos financiados por empresas comerciais, e isso é ruim para a medicina. É difícil que esses testes sejam adequadamente independentes. A indústria é mais propícia a colocar dinheiro em estudos que rendam produtos e aparelhos médicos, e não em coisas que mudam vidas. Gostaria de ver mais pesquisas públicas ligadas a problemas que pacientes acham importantes e que não definidos por interesses comerciais.
CC – A senhora acredita que os testes financiados pela indústria farmacêutica tendem a ser enviesados?
FG – Há diversas evidências de que estudos financiados por empresas são mais propensos a conclusões favoráveis ao produto ou aparelho criado pelo financiador. Há muitos indícios de que os resultados destas pesquisas não são declarados de forma transparente, pois tendem a ser escritos de maneira enviesada em favor ao produto. Entretanto, isso também é verdade em estudos não financiados por empresas. Cada vez mais, quando temos acesso total aos resultados de pesquisas, percebemos que nem sempre se chega ao mesmo resultado publicado.
CC – A senhora está envolvida com um programa para ensinar as instituições e faculdades braisileiras a fazer pesquisas clínicas. Como isso funciona?
FG – O Brasil tem muito potencial de pesquisas e já ocupa o 14º lugar em quantidade de pesquisas. O objetivo é criar um suporte de aprendizado online e em outras formas para ajudar pesquisadores a desenvolverem suas habilidades e entenderem como fazer boas pesquisas em medicina clínica, como reportar e escrever de forma ética, completa e transparente. Queremos ajudar a criar capacidade no Brasil para que os pesquisadores saibam criar perguntas adequadas, usar a melhor metodologia e tenham noções de como lidar com os problemas práticos de pesquisas, como o financiamento e análise dos dados.
CC – Como a senhora avalia a publicação científica brasileira?
FG – Não tenho conhecimento específico sobre as pesquisas brasileiras, mas a forma como os estudos são avaliados é interessante. A maneira clássica de julgar a qualidade de uma pesquisa é o número de citações que ela recebe de outras pessoas. Em geral, as pesquisas brasileiras são publicadas em português, logo, pode ser um pouco difícil ranqueá-las em termos globais de pesquisas em inglês. Então é importante analisar as pesquisas brasileiras publicadas em inglês. Há sistemas de indexação na América Latina que estão tornando as pesquisas latino-americanas mais compartilháveis naquela região.
CC – A editora BMJ tem uma parceria com o Ministério da Saúde para fornecer gratuitamente aos profissionais de saúde brasileiros informações do seu acervo. Como o acesso a esses dados pode ajudar na qualidade do atendimento médico?
FG – Queremos garantir que os médicos do mundo tenham acesso a dados relevantes baseados nas melhores informações para que possam usar na prática ou para aprendizado na faculdade. Essas ferramentas poupam o tempo dos médicos e os ajudam a ser mais confiantes nos diagnósticos.
CC – Como conciliar a rotina de médico com a de pesquisador, especialmente em países como o Brasil, onde faltam médicos?
FG – Os melhores pesquisadores realizam prática clínica e veem pacientes. Mas se o médico precisa de uma carga pesada de trabalho para sustentar sua família, como terá tempo e motivação para pesquisa? É uma escolha difícil de fazer. Não há uma resposta fácil, mas trabalhar em colaboração, dividindo o peso das tarefas, ideias e experiências pode ser uma saída. Entretanto, seriam necessárias uma administração e uma estrutura neste sentido.
CC – O que impede a pesquisa, especialmente em países em desenvolvimento?
FG – Não se trata apenas de dinheiro. Mas ter uma cultura de questionar e desafiar o que é ensinado ao invés de aceitar os fatos como verdades absolutas. Também é importante não haver muita hierarquia para encorajar as pessoas a achar as suas próprias respostas. Trazer os pacientes mais para perto das pesquisas para que queriam participar e disponibilizar seus dados. É preciso também de treinamento de jovens pesquisadores para dar a eles as ferramentas, confiança e habilidades necessárias.
CC – Como saber se um estudo não está comprometido por interesses da comerciais?
FG – Pesquisas médicas e clinicas são baseadas em confiança. De vez em quando, essa confiança é quebrada e os cientistas agem da formas que não são no melhor interesse dos pacientes. Estão pressionados a publicar e fabricam os resultados, manipulam para parecerem melhores do que são, ou escondem alguns aspectos que não se encaixam com o que querem dizer. Há muitas formas de fazer uma pesquisa enviesada. A questão é se temos como prevenir isso com treinamentos e apoio aos pesquisadores. Temos formas de identificar quem agiu errado, mas o difícil é saber quão bom somos em prevenir o mal comportamento. Fraudes não são raras, nem os resultados repletos de erros. Uma função do jornal científico é educar os pesquisadores na forma correta de fazer as coisas, de reportar da maneira honesta e com todas as informações. Pesquisadores são humanos e estão sujeitos à pressão. A melhor abordagem é criar uma estrutura de treinamento e apoio para fazer com que as pesquisas sejam conduzidas da melhor forma possível.
Francy Lisboa
13 de maio de 2014 3:11 pmEnquanto produzir em
Enquanto produzir em quantidade for o criterio de financiameno jamais nos livraremos disso.
Carlos Dias
13 de maio de 2014 5:18 pmOntem eu pensava nisso
Bolsa de pesquisa é bem vinda pelos coxinhas.. Bolsa família não!
Ah sim, um “gênio” não pode ficar sem pesquisar pela simples razão de não ter dinhero pra fazer pesquisa sozinho.. Já o pobre nordestino, que não é gênio, por definição, pode passar fome..
Ah, mas a bolsa de pesquisa de estudos, de pesquisa, é obtida por méritos…. A pobreza não é um mérito, é verdade. Mas deveria ser um dever de todos erradica-la! Não é, coxinhas? pesquisar é algo desejável, é uma esperança, é algo que tem valor, mas não é uma obrigação. mas eliminara pobreza é uma obrigação!
PS _ sou muito grato ao povo e ao estado brasileiros que me concederam bolsas de estudos e ensino universitário gratuito, sem os quais eu não poderia estar aqui escrevendo essas letrinhas nem ganhando algum dinheiro em atividades remuneradas.. Por consideração a esse povo que paga impostos proporcionalmente bem maiores que a classe mérdia, eu apoio as políticas de distribuição de renda dos governos Lula e Dilma. Não é muito,mas é um começo. quem tem fome, tem pressa. E quem tem sede também….
Anarquista Lúcida
13 de maio de 2014 8:33 pmCarlos, seu comentário está incoerente…
Do jeito que você começou e desenvolveu, dá idéia de que você é contra bolsas de estudo… O que acho que nao deve ser o caso, dado o modo como terminou. Creio que você quis apenas dizer que bolsas sociais sao ainda mais necessárias, e nao que bolsas de estudo sao desnecessárias. Mas argumentou tanto contra o que atribui aos coxinhas que o comentário ficou meio estranho…
Carlos Dias
13 de maio de 2014 10:21 pmAnarquista, tudo bem?
Obrigado pelos comentários.. Você tem toda razão, ao final do comentário, eu reconheço que devo toda minha formação à generosidade do Estado Brasileiro..
Me expressei mal no início do comentário. Você me conhece, sabe que sou péssimo na escrita… Mas ok.. é isso, é uma revolta contra alguns colegas meus que, como eu, sempre usufruíram das tantas benesses proporcionadas pelo estado brasileiro: estudando em universidades públicas, almoçando em bandejões, ganhando prêmios e bolsas, obtendo posição fixa em centros e universidades, trabalhando e vivendo da estrutura estatal.
E não é que muitos desses beneficiários, que são o que são graças à generosidade do estado e do povo deste país, adotam posição contrária aos programas sociais de (tímida, é verdade) distribuição de rendas. Foi esse paradoxos que me irritou profundamente e, como escrevo pessimamente, acabo não conseguindo passar uma ideia fiel do que penso.
Um grande abraço. É um prazer ler seus comentáros e muito bom ter você aqui no blog.
Anarquista Lúcida
14 de maio de 2014 2:51 amObrigada…
Eu entendi o que você quis dizer, só achei que nao estava claro. Abs