Precisamos falar de desmonte e de desmate: Fala FADS contra o desmatamento

Não podemos mais naturalizar qualquer ato criminoso que atente contra a vida, a todas as formas de vida.

Precisamos falar de desmonte e de desmate: Fala FADS contra o desmatamento

Na semana em que se comemora o Dia Internacional das Florestas (21/03) e o dia Mundial da Água (22/03), o FALA FADS irá trazer para uma boa conversa e reflexão, que nos retire da zona de conforto e também nos impulsione para a ação, especialistas, representantes e lideranças de comunidades e dos povos originários de diferentes biomas que estão sob fortes e diferentes impactos decorrentes de atividades econômicas usurpadoras. 

Infelizmente no atual contexto temos pouco a comemorar, ou nada a comemorar no tocante às essas questões socioambientais! Os dados que nos são revelados por instituições sérias que há anos acompanham o desenvolvimento do desmatamento nos biomas em nosso país, a exemplo do INPE/IBAMA, mostram como a fronteira agropecuária, assim como todo o capital (selvagem) avançou sobre esses biomas e seus ecossistemas tendo como resultado o desmatamento e toda a degradação socioambiental. São resultados assustadores! Sim, são assustadores! E ainda assim é preciso desconstruir a imagem com a qual o agronegócio nos manipula e chantageia, de que o Brasil é o berço da produção de alimentos e que desenvolvemos um tipo de agricultura sustentável, trazendo divisas e salvando a economia do país. Está claro que ainda com toda essa destruição e ocupação das terras, não estamos produzindo alimentos, estamos produzindo miséria de todas as formas. Como o país que “mais produz” pode ter mais de 16 milhões de pessoas famintas, como um país tão rico, pode ter milhões abaixo da linha da miséria?  Esse tipo de produção não é, e nunca será, a solução. O agronegócio concentra terras, concentra renda, produz commodities e destruição. O agro é tóxico e produz antes de tudo a morte. É o responsável pela degradação socioambiental em grande parte do nosso país desde que somos colônia (ou ainda continuamos como colônia?), é responsável pela perda da (agro)biodiversidade, pela contaminação das águas, pela perda da água tanto em relação à quantidade como de sua qualidade! Além dos impactos que advêm dessa forma de produção do agronegócio, hoje também assistimos perplexos a outras diferentes invasões nesses territórios. Para manter um modelo energético totalmente ultrapassado dependente dos combustíveis fósseis, há o incentivo para as prospecções de gás e petróleo em áreas de extrema fragilidade em áreas de proteção. A invasão da mineração e de garimpos ilegais, principalmente na Amazônia e a tentativa de liberação do pacote do veneno, sua tramitação na Câmara em formato de urgência! Temos que lidar com os argumentos sem fundamentos para a liberação da mineração em terras Indígenas e são tantas as violências! Comunidades e povos sendo expulsos, sendo mortos. Além da especulação imobiliária, as obras de infra-estrutura e a situação frágil do licenciamento ambiental. Todas as pessoas que estão nesses territórios, comunidades inteiras, povos, estão sendo afetadas de todas as formas, mas lutando e defendo a vida com suas próprias vidas! Sim, são muitas as sobreposições de violências! Tudo isso se agrava e é fruto também de todo o desmantelamento intencional e criminoso de toda a base de proteção ambiental e jurídica, fragilizando também as instituições.

Na Amazônia, principalmente, as atividades econômicas criminosas estão interconectadas: desde a grilagem de terras subsidiadas pelo Estado, pelo agronegócio e pelas madeireiras ilegais, que após a retirada das madeiras de grande valor e interesse, dá lugar aos “correntões” e que põem abaixo o que sobrou da vegetação e na sequência são as queimadas e enfim, o boi, a soja, o garimpo. O que resulta na morte de bilhões de vidas, daqueles “quase invisíveis” que viviam nesses ecossistemas, significativas vidas! A base de sustentação da vida está ameaçada, a teia da vida da qual os humanos faz parte. O ser humano não está à parte, ele faz parte. É preciso repetir mais de uma centena de vezes o quanto tudo está ligado e é interdependente. Temos que repensar os valores que sustentam nossa sociedade e as formas de produção. Temos que optar por conservar para produzir. Essa escolha também haverá de ser política e econômica, não teremos saída diante da nova geopolítica, da nova ordem mundial. Pois os países que ditam a economia no mundo, estão se dando conta da emergência climática e colocam em pauta a soberania alimentar. Embora, haja controvérsias como cada país, ou bloco de países irá se articular para garantir alimentos, em um ponto os países europeus estão em acordo:  quanto a Europa ser um líder climático e sendo assim, buscar uma transição para uma economia de baixo carbono, e com isso produtos advindos de desmatamentos e queimadas ilegais não serão aceitos no continente europeu ou em outros países em outros continentes que seguem essa mesma tendência. Então, por diferentes razões, as formas de ocupação da terra e de produção devem ser urgentemente revistas. Essa produção não se mantém sem que os serviços ecossistêmicos estejam garantidos, a base de sustentação da vida esteja garantida. E por fim, cada vez mais o cerco para os produtos advindos dessa forma de produção predatória, irá se fechar impossibilitando a manutenção de mercados comerciais até então estabelecidos na ordem mundial. 

A leitura dessa realidade com a ajuda dos números deve ser feita para além deles! Pois muitas vezes os números são frios e despertam momentâneas curiosidades, perplexidades e indignações(?). Pois se queremos a mudança, é preciso de fato sentir a indignação a partir da informação, das imagens. É preciso falar de empatia e do poder de se colocar no lugar do outro, dos outros. Como perceber, sentir os limites aos quais estamos  chegando ou já chegamos como sociedade? Como a base da vida funciona e inverter a ordem! Não é a força econômica que irá continuar subjugando a natureza, não é esse modelo econômico, desenvolvimentista e ultraliberal que deve continuar dominando com todas as suas formas de poder. A natureza está tentando nos ensinar (na verdade agora está gritando) que é a partir dela que se estabelecem todos os limites da ação humana e a ética de estar e se relacionar nesse planeta, entre humanos e não-humanos. 

Os povos originários e as comunidades tradicionais que vivem na e da floresta, que possuem diferentes cosmovisões e formas de organização de ser e estar neste planeta, também estão cada vez mais nos mostrando esses caminhos, ou estamos agora acordando, ouvindo mais esses ensinamentos? Deveríamos. Pois há milhares de anos eles estão nesses territórios vivendo de outras formas, com suas tecnologias, seus conhecimentos e sua espiritualidade, com toda a sacralidade do que é ancestral. 

E por fim, para além da denúncia das violências contra esses biomas, povos e comunidades e de todas as perdas incomensuráveis de tantas vidas é preciso ressaltar, exaltar que a existência desses povos nesses territórios é a própria resistência e a resiliência e a esperança que temos a frente! A existência, re-existência em um momento que poderá ficar conhecido como o “Antropoceno”, cujo período ficará marcado pela capacidade de transformação, pelo poder do Anthropos de se tornar uma força ambiental destrutiva e que alcança nível geológico. Na verdade, deveríamos ser mais corretos em afirmar que o verdadeiro responsável por essas mudanças planetárias em nível geológico, são consequências de uma forma de organização, o modo de produção capitalista, e assim poderemos também chamar corretamente esse período de Capitaloceno. 

Esses povos, e essas populações nesses territórios e que são ameaçados conjuntamente, estão tentando de todas as formas nos alertarem: é necessário outra relação entre a forma de vida humana imperante e a natureza. Esses povos persistem e representam forças culturais que se opõem a esse modo predatório de produção capitalista e que podem mitigar ou inclusive reverter esse poder de destruição. 

Podemos também afirmar que já há aqueles que caminham para essa outra lógica e já há algum tempo em busca dos diálogos verdadeiros entre as ciências e os diferentes saberes, em que são forjadas novas/velhas tecnologias para a permanência da vida, avançam nesse aprendizado contínuo. Criando e reconhecendo outras lógicas, traçando no mínimo, as linhas de uma transição agroecológica de produção a partir dos conhecimentos e dos valores reais da sociobiodiversidade. O verdadeiro valor e potência dos biomas e da cultura brasileira e de seus povos. Frente ao que tenta nos dominar, homogeneizar, frente à “monocultura da mente”, temos sim, a potência da Vida. 

Não podemos mais naturalizar qualquer ato criminoso que atente contra à vida, a todas as formas de vida. Para fechar esse texto trago as palavras de Ailton Krenak para juntos falarmos sobre o que interessa, somente o que interessa:

“A humanidade vai sendo descolada de uma maneira tão absoluta desse organismo que é a terra. Os únicos núcleos que ainda consideram que precisam ficar agarrados nessa terra são aqueles que ficaram meio esquecidos pelas bordas do planeta, nas margens dos rios, nas beiras dos oceanos, na África, na Ásia ou na América Latina. São caiçaras, índios, quilombolas, aborígenes – a sub-humanidade. Porque tem uma humanidade, vamos dizer, bacana. E tem uma camada mais bruta, rústica, orgânica, uma sub-humanidade, uma gente que fica agarrada na terra”

Aiton Krenak – Ideias para Adiar o Fim do Mundo

Para debatermos as diversas nuances deste crime ambiental cometido desde que o Brasil foi (e deixou de ser?) colônia, o Fala FADS “Precisamos falar de desmonte e de desmate: Fala FADS contra o desmatamento” vai promover, nesta quarta-feira, 23 de março, um debate com especialistas no assunto e representantes de populações diretamente atingidas pelo desmatamento. São eles: 

Eliane Xunakalo pertence ao povo Bakairi, bacharel em Direito e pós-graduada em Administração, trabalha como assessora da Federação dos Povos e Organizações Indígenas de Mato Grosso (Fepoimt), onde mantém um espaço para discutir e propor projetos e ações de amparo e fortalecimento das indígenas;

Herman Oliveira é secretário executivo do Fórum Mato-grossense de Meio Ambiente e Desenvolvimento (Formad), é facilitador de redes e doutor em Educação;

Rodrigo Agostinho é deputado federal, advogado e ambientalista. Foi presidente da Comissão de Meio Ambiente da Câmara dos Deputados (2019/2020). Coordenador da Frente Parlamentar Ambientalista do Congresso Nacional. Vencedor da categoria Clima e Sustentabilidade do Prêmio Congresso em Foco 2019/2020/2021.

Suely Araújo é urbanista, advogada e doutora em Ciência Política. Especialista sênior em políticas públicas do Observatório do Clima. Presidiu o Ibama entre 2016 e 2019.

Para anotar na agenda: Fala FADS “Precisamos falar de desmonte e de desmate: Fala FADS contra o desmatamento” vai promover, nesta quarta-feira, 23 de março, a partir das 18h30, na TV GGN (https://www.youtube.com/tvggn). Para saber mais sobre a FADS, acesse nosso perfil https://www.facebook.com/falafads.

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