O economista Fernando Nogueira da Costa preparou um livro, em PDF, para distribuição gratuita, sobre 43 livros estrangeiros relevantes para entender os novos tempos. “Estamos no limiar de uma economia comunitária gratuita, alternativa ao sistema capitalista, seja de mercado competitivo, seja de Estado corporativo, em termos de bem-estar social”, diz ele.

As obras são analisadas de maneira concatenada sob o título de “A vida está difícil. Lide com isso.”

Abaixo, a íntegra do livro

Economia Comunitária Gratuita

Por Fernando Nogueira da Costa[1]

Reuni resumos da literatura recente de não-ficção em um livro eletrônico para download gratuito: Fernando Nogueira da Costa – A Vida está Difícil. Lide com Isso. São narrativas da crise mundial na atual transição histórica.

Entre outras, uma reflexão interessante diz respeito à razão da elaboração e distribuição gratuita desse livro, onde resenho 43 livros de autores estrangeiros publicados nos últimos anos. Existe um modelo de negócio onde se dá artigos científicos, mas cobra dos autores para publicá-los (Public Library of Science e https://www.atenaeditora.com.br/).

No caso, não é assim, embora eu tenha passado muitas horas de trabalho lendo e escrevendo. A diferença é este trabalho ser criativo, ou seja, não alienante. Quando aliena ou transfere para outro o domínio ou a propriedade do fruto de seu trabalho e não se interessa pelo resultado de seu esforço, o trabalhador se torna alienado. Um trabalho alienante não se distingue pela aptidão intelectual para criar. Diferentemente, o indivíduo se sente criador ou inovador ao organizar uma obra original a partir de diversos insumos (pensamentos) produzidos por outros autores criativos.

Por exemplo, o processo de linha de montagem automatizado ou robótico contribui para manter um indivíduo ou grupo de indivíduos em estado de alienação, de ignorância da realidade e dos fatores objetivos e subjetivos condicionantes de sua maneira de ser. Na dialética senhor-escravo, elaborada por Hegel (1770-1831), o reconhecimento de si em seus produtos é a consciência de si como ser humano.

Enquanto o senhor, por não criar, por não transformar coisas, não se transforma a si mesmo e não se eleva como ser humano, o escravo se eleva como tal e adquire consciência de sua liberdade no processo de trabalho artesanal. Mas apenas se liberta idealmente, isto é, a realização da liberdade só ocorre no plano do Espírito.

Nesse sentido, o trabalho é a melhor e a pior das coisas: a melhor, se é livre; a pior, se é escravo. O trabalho útil é, em si mesmo, prazer, independentemente das vantagens tiradas dele. A maioria dos homens, para viver, consome a maior parte do tempo no trabalho. O pouco de liberdade fora dele angustia de tal forma a ponto de muitos inconscientemente procurarem todos os meios de se livrarem desse tédio apelando para um vício. Um poeta russo disse: “é melhor morrer de vodka do que de tédio”!

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Não há homem completo à margem do trabalho criador, seja no ócio não criativo, seja em trabalho alienado. O propósito de pesquisa bibliográfica está relacionado à busca e descoberta de fontes de estudo.  Mas, outro passo é comunicar o conteúdo organizado, a informação concatenada e o conhecimento construído. Ao pesquisador publicar, gratuitamente, os resultados de sua pesquisa ele dá visibilidade ao novo conhecimento, obtido ao fazer conexões entre as obras citadas – e evitando uma “colcha de retalhos”.

O título do livro organizado expressa a minha inquietação com o atual mal-estar social: “A vida está difícil. Lide com isso.” Daí levantei a hipótese de estarmos vivendo um Grande Recessão mundial, há mais de uma década, análoga ao período da Grande Depressão, após a crise de 1929, inclusive parecida no ressurgimento de manifestações neofascistas. O grande desemprego atual não tem só origem cíclica, sendo uma má conjuntura econômica passageira, mas tem também raízes estruturais, seja demográfica (corte de direitos da “geração baby-boom” se aposentar como a geração anterior pela diminuição relativa das gerações pós-pílula anticoncepcional), seja tecnológica.

O aprendizado de máquina com inteligência artificial (IA) e a robótica estão mudando quase todas as modalidades de trabalho. Talvez, dentro de uma ou duas décadas, bilhões de pessoas serão economicamente dispensáveis. Com a automação, duvida-se a respeito de haver novos empregos para todos. Há uma ameaça de convulsão social no ar a partir da inquietação e raiva dos desqualificados pela revolução digital.

A IA está começando a superar os humanos em um número cada vez maior de habilidades, inclusive compreende as emoções humanas através de alterações físicas, por exemplo, volume de voz. Quanto mais compreendem os mecanismos bioquímicos acompanhantes das emoções, dos desejos e das escolhas humanas, melhores podem se tornar os computadores na análise dos comportamentos humanos, na previsão de decisões humanas e na substituição de profissionais humanos.

A intuição humana é, mentalmente, a capacidade de reconhecer padrões. A IA compete com as redes neurais para calcular probabilidades e reconhecer padrões recorrentes.

No curto prazo, porém, apenas trabalhos requerentes de especialização em uma faixa estreita de atividades padronizadas seriam automatizados. Seria muito mais difícil substituir humanos por máquinas em tarefas exigentes do uso simultâneo de uma ampla variedade de habilidades e envolvendo lidar com cenários imprevisíveis.

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Entretanto, em longo prazo, nenhuma atividade permanecerá totalmente imune à automação. Até mesmo artistas poderão receber aviso-prévio quando algoritmos externos forem capazes de compreender e manipular emoções humanas.

Apesar do aparecimento de muitos novos empregos humanos, é provável o surgimento de uma nova classe de humanos “improdutivos”. Nesse caso, haveria ao mesmo tempo alto nível de desemprego tecnológico por falta de capacidade mental de se reinventar, através de reeducação adequada, e escassez de oferta de trabalhadores qualificados superespecializados. Comporão uma casta de sábios. Trabalhadores virarão párias.

Segundo Yuval Noah Harari, “enquanto a IA continuar a se aperfeiçoar, os empregados humanos terão de adquirir constantemente novas habilidades e mudar de profissão. Governos terão de intervir, tanto no subsídio a um setor de educação vitalício, quanto na garantia de uma rede de proteção para os inevitáveis períodos de transição. Porém, mesmo se a ajuda do governo for suficiente, protegendo trabalhadores e não empregos, não sabemos se bilhões de pessoas serão capazes de se reinventar repetidamente sem perder o equilíbrio mental”.

Autores criativos imaginam quais serão os novos modelos sociais e econômicos. Em lugar de salvar empregos alienantes, é mais adequado focar em prover as necessidades básicas das pessoas e proteger seu status social e sua autoestima.

Um modelo novo em debate é o da renda básica universal (RBU). A RBU propõe os governos tributarem os bilionários acionistas e as corporações controladoras dos algoritmos e robôs, e usarem a arrecadação para prover cada pária de modo a cobrir suas necessidades básicas. O problema com tais programas nacionais e municipais é as principais vítimas da automação provavelmente não viverem nos lugares onde vivem a casta dos mercadores globalizados e a casta dos sábios da informática, passíveis de uma tributação progressiva soabre suas rendas e fortunas para arcar com a RBU.

Outra opção é o subsídio público de serviços básicos universais no lugar da renda (RBU). Em vez de dar dinheiro às pessoas, para elas então poderem comprar o desejado, o governo subsidiaria educação, saúde e transporte gratuitos, entre outros serviços como o de segurança pública. Esta é a visão utópica do comunismo sem o plano obsoleto de promover a revolução proletária, porquanto o proletariado já deu adeus.

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Seria a realização do objetivo comunista de “atender a cada humano segundo as suas necessidades” por processo gradualista e pacífico. O debate então é sobre se é melhor fornecer às pessoas, indiretamente, uma renda básica universal (“o paraíso capitalista”) ou, diretamente, serviços básicos de acesso universal (“o paraíso comunista”).

Voltando ao estudo de caso do livro recém-publicado por mim. Coerentemente com o escrito no livro, passei a usar inteligência artificial (IA) como apoio à minha “burrice natural”. Com base no livro “Como Ler Livros: O Guia Clássico da Leitura Inteligente” aprendi a fazer uma pré-leitura, selecionando rapidamente as principais teses do autor, mesmo estando em inglês. Aí uso o tradutor do Google e reescrevo a tradução realizada por essa IA. Nesse momento, faço uma leitura analítica ou comparativa. Só assim consegui selecionar e comparar as principais ideias em debate nos últimos três meses.

Outra contribuição da IA é a possibilidade de obter o acesso a todos esses 43 livros estrangeiros via web gratuitamente. Eu não teria dinheiro e tempo para os importar. O mercado editorial (editoras, livrarias e autores) sofre uma destruição criadora digital.

O baixo “custo marginal” da distribuição digital, isto é, o custo adicional de enviar mais uma cópia além dos “custos fixos” do hardware com o qual isso deve ser feito, permite oferecer de graça um trabalho criativo sem qualquer expectativa de pagamento direto, mas sim indireto, no caso, como professor e palestrante remunerado.

Estamos no limiar de uma economia comunitária gratuita, capaz de superar o sistema capitalista, seja de mercado competitivo, seja de Estado corporativo, mantendo o que for necessário em ambos modelos, mas diminuindo o trabalho alienante e aumentando a trabalho criativo e cooperativo. Isso será possível com menor jornada de trabalho semanal para compensar a vida ativa mais longa para sanar a crise da Previdência Social.

Fundamental é fazer com prazer todo nosso trabalho. Gosto de ler, escrever e ensinar. E ainda o Estado me paga por isso! Devolvo à sociedade, gratuitamente, meu estudo pago por ela em colégio e universidades públicas. Busco compartilhar conhecimentos.

[1] Professor Titular do IE-UNICAMP. Autor de “Métodos de Análise Econômica” (Editora Contexto; 2018). http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/ E-mail: fernandonogueiracosta@gmail.com.

Fernando Nogueira da Costa – A Vida está Difícil. Lide com Isso

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2 comentários

  1. “Estamos no limiar de uma economia comunitária gratuita, alternativa ao sistema capitalista, seja de mercado competitivo, seja de Estado corporativo, em termos de bem-estar social”.
    Ou seja, nem Marx, nem Keynes: Kropotkin.
    Antigamente, o desempregado era um ser em estado de suspensão: aguardava a hora de voltar a vender sua força de trabalho.
    Agora, é um ser em suspense: algum dia terá, novamente, essa oportunidade de vender a sua força de trabalho?
    A Bia vai deixar?
    No comercial do Bradesco, faltou colocarem a minha pergunta no ar: “Bia, depois que você começou a trabalhar, quantas Bias de carne e osso perderam o emprego?”
    Porra, cheguei à conclusão definitiva: nem Marx, nem Keynes, nem Kropotkin: NED LUDD !!!!!

  2. “Fundamental é fazer com prazer todo nosso trabalho.”
    ” Gosto de ler, escrever e ensinar. E ainda o Estado me paga por isso! Devolvo à sociedade, gratuitamente, meu estudo pago por ela em colégio e universidades públicas. Busco compartilhar conhecimentos.”
    Filosofia essencialmente comunista – voltada para a comunidade, onde o prazer de compartilhar faz feliz.
    Por que as pessoas não conseguem entender isso?
    Só temos que agradecer a sua iniciativa.

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