17 de junho de 2026

Delegado Luiz Fernando, da Satiagraha à espionagem da ABIN, por Luís Nassif

Luiz Fernando assumiu a PF no auge da Satiagraha, quando Paulo Lacerda foi exonerado da ABIN, depois da armação do chamado grampo sem áudio

É curiosa a maneira como se dá o sistema de influências e de sobrevivência política entre os delegados da Polícia Federal. É o caso desse Luiz Fernando Correa, o diretor da ABIN (Agência Brasileira de Inteligência) acusado de espionagem.

Siga o Jornal GGN no Google e receba as principais notícias do Brasil e do Mundo

Seguir no Google

Luiz Fernando assumiu a Polícia Federal no auge da Satiagraha, quando Paulo Lacerda foi exonerado da ABIN, depois de uma armação do chamado grampo sem áudio – o suposto grampo de uma conversa entre o ilibado senador Demóstenes Torres e o Ministro Gilmar Mendes, atribuído por ambos (e pelo Ministro da Justiça Nelson Jobim) à ABIN.

Foi uma clara armação, desmontada na ocasião pelo meu blog, com o auxílio de leitores. O falso escândalo foi alimentado por uma capa da Veja falando em uma suposta república da espionagem. A matéria fazia um apanhado falso, dizendo que vários ministros do Supremo haviam sido vítimas de espionagem. A reportagem, por inverossímil, foi derrubada pelos blogs em meio dia. Mas motivou uma CPI do Grampo.

Dias depois, Jobim levou à CPI as supostas provas do grampo. A ABIN se defendera dizendo não possuir equipamentos de grampo, apenas de escuta. Jobim apresentou prints dos supostos equipamentos de grampo. Publiquei no Blog. Um leitor imediatamente pesquisou e constatou que o print de Jobim não passava de um recorte do site que vendia o equipamento – incluindo alguns erros que constavam no próprio site, O título da matéria foi “Jobim mentiu:”.

Nos dias seguintes, ante um fogo intenso, Lacerda foi demitido. Lula incumbiu Dilma Rousseff e Tarso Genro de ligarem para mim, Mino Carta e Paulo Henrique Amorim, para dizer que nada mudaria em relação à Satiagraha, já que éramos a linha de frente contra os desmandos de Daniel Dantas. Na sua última entrevista, antes do impeachment, assim que terminou a gravação, Dilma me disse que o ex-Ministro Márcio Thomaz Bastos havia ligado para ela, na ocasião, para que convencesse Lula a não demitir Paulo Lacerda, porque perderia completamente o controle da PF – que já entrara em pesada fase de politização. Foi o que ocorreu depois.

O passo seguinte foi colocar Luiz Fernando para conversar convosco. Ele veio a São Paulo, tivemos uma conversa pouco convincente. Na época, já corria a informação que Luiz Fernando usara indevidamente o Guardião – o sistema da PF que permitia grampear telefones. Dizia-se, inclusive, que ele teve alguma forma de participação na compra do Guardião.

Guardei a informação, nunca mais soube dele e, agora, ele ressurge como diretor da ABIN, envolvido com grampos ilegais.

A Associação dos Delegados da Polícia Federal – a verdadeira controladora da PF – é claramente uma caixinha de surpresa.

Leia também

Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Mais lidas

As mais comentadas

Colunistas

Ana Gabriela Sales

Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É...

Carla Castanho

Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

2 Comentários
...

Faça login para comentar ou registre-se.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

  1. Johnny English.

    20 de abril de 2025 3:33 pm

    Um reparo:

    O Guardião não permitia fazer interceptações, ele as gerenciava.

    Não era possível interceptar sem que as operadoras permitissem o desvio duplo, que, basicamente, consiste em colocar uma “extensão” no terminal alvo, permitindo ao operador/analista ouvir a conversa ao vivo, a cada chamada.

    O sistema também armazenava as ligações, como os modelos antigos, mas a extensão dos arquivos era muito maior (nuvem), e trazia outras ferramentas como novidade:

    Busca por palavras-chave, uma espécie de “Google” nas conversas arquivadas, para facilitar a escolha de trechos de intereses para transcrições, gráficos com cruzamento de alvos, georreferenciamento, e sistemas operacionais de texto para geração de relatório e transcrições em PDF, exportáveis.

    Mas o grande avanço foi permitir aos juízes e promotores acompanharem tudo junto com os agentes, pois antes o material era todo off line, havendo risco de omissões acidentais ou não.

    Guardião ficou obsoleto, porque quase ninguém mais faz chamadas de telefone, pelas linhas operadas pelas empresas de telefonia.

    O Guardião, na verdade, não tinha nada demais, era uma rotina digital e informatizada do que já era feito a mão.

    Acho que a empresa era de Santa Catarina, que observou tudo, compilou e colocou em um programa de gerenciamento computadorizado e com controle externo pelo judiciário e MP.

    Foi vendido como um ovo de Colombo.

    Para haver uma escuta ilegal, quase sempre tinha que ter, repito, conluio entre operadoras, e/ou juízes.

    Às vezes, e isso era um truque comum, colocava-se o telefone de quem se queria ouvir, indevidamente, junto com alvos legítimos e com autorizações judiciais normais.

    Nem sempre terminal estava registrado em nome do alvo, principalmente em operações muito amplas, ou de terminais usados por presos, por exemplo.

    Nestes casos, juízes e operadoras não sabiam das ilegalidades.

    Raramente um juiz ou um promotor perderia tempo em conferir horas e horas de gravações, sem uma denúncia.

    É bom lembrar que interceptações ilegais não se prestavam para instruir processos ou apurações legais, mas para chantagem e/ou extorsão financeira ou política.

    Logo, raramente emergiam quando descobertas.

  2. Escuderie Le Coq

    20 de abril de 2025 3:40 pm

    Agora, só um país de m*RDA onde órgãos policiais interferem em atividades externas de inteligência, como a realizada no Paraguai.

    Em qualquer país sério, a revelação dessa operação condenaria os policiais a cadeia ou a morte por traição.

    E o pior, não houve qualquer motivação legítima, apenas disputa de egos e espaço político.

    Grave.

    Se não conseguimos proteger nossos segredos de Estado e não conseguimos obter informações do Paraguai, vamos conseguir de quem?

    É esse país que quer ser a nova força regional?

    Como é que vocês imaginam que esse poder é construído?

    Com jantares e shows da primeira dama?

Recomendados para você

Recomendados