O professor titular de História do Brasil na UFRJ e escritor Carlos Fico apresentou seu novo livro, “Utopia Autoritária Brasileira”, em entrevista à editora-chefe do Jornal GGN, Lourdes Nassif. A obra, que não é acadêmica e se destina ao grande público, aborda a intervenção militar na política nacional desde o nascimento da República até os dias atuais. A entrevista foi transmitida ao vivo no canal TV GGN, no Youtube, na última quinta-feira, 23 de outubro [assista abaixo].
Fico, que estuda os militares há mais de 30 anos, explica que o livro detalha os 15 episódios de golpes, tentativas de golpes e pronunciamentos militares, bem-sucedidos ou fracassados, que marcaram a fragilidade institucional da democracia brasileira. Ele ressalta que a presença indevida dos militares na política não se restringiu à ditadura militar, mas é uma constante desde a Proclamação da República, que ele classifica como um golpe militar.
O autor destaca que a “utopia autoritária” dos militares brasileiros se baseia na crença de sua superioridade em relação aos civis, na visão de que a sociedade é despreparada para a vida política e na ideia de que a política é um espaço de corrupção. Essa percepção, aliada a uma interpretação equivocada do artigo 142 da Constituição, que atribui aos militares a garantia dos poderes constitucionais, leva-os a se autoatribuir o direito de intervir na vida política. O artigo foi usado à exaustão por Jair Bolsonaro, enquanto presidente da República e chefe das Forças Armadas, em ameaças de intervenção nos poderes Judiciário e Legislativo.
Fico defende a necessidade de reescrever o artigo 142 da Constituição, retirando a passagem que atribui às Forças Armadas a garantia dos poderes constitucionais. Ele argumenta que essa imprecisão leva a interpretações equivocadas e que, embora o Supremo Tribunal Federal e o Congresso Nacional saibam que isso não é uma licença para dar golpe, muitos militares continuam a interpretá-lo dessa forma. O autor menciona que houve tentativas de modificação desse artigo na Constituinte de 1987-1988, mas foram barradas pelo lobby do então ministro do Exército, Leonidas Pires Gonçalves.
Sobre a ditadura militar, Fico observa que, embora houvesse uma maioria de militares favorável a um modelo econômico desenvolvimentista baseado na poupança nacional e empresas estatais, também existiam setores que apoiavam a participação do capital estrangeiro. Ele explica que a “utopia autoritária” unificava esses grupos diversos, militares e civis, na crença de que o Brasil se tornaria uma grande potência se fossem eliminados obstáculos como a corrupção e a “subversão” (ativismo social e político).
O professor também aborda a origem do intervencionismo militar, retrocedendo à Guerra do Paraguai. Ele explica que, após a guerra, os militares se sentiram desprestigiados pelo Império, o que gerou crises militares e culminou na Proclamação da República. Fico aponta que, em fases mais recentes, como nos movimentos golpistas de 2022-2023, a manutenção de privilégios materiais, como pensões e benefícios, tem sido um fator central para o ativismo militar indevido, em contraste com o anticomunismo, que ele considera um pretexto sem sentido atualmente.
Assista a entrevista abaixo:
Paulo Dantas
24 de outubro de 2025 6:31 pmCerta vez li um artigo de um americano que dizia que os militares americanos nào se metiam em política pois esto sempre envolvidos em guerras.
Civil, México, Wwi, wwii, Coreia, Vietnan , Iraque etc e tal.
Não sei se o “pacifismo” faz esta coceira autoritária.
De qualquer forma, democracia parece ser um exceção concedida às vezes.