As marchas em defesa da vida, da sociedade e da família, por Jean D. Soares

Que sociedade? A sociedade multiétnica e polimorfa que construiu a imagem do Brasil como um país acolhedor, alegre e com fartura. Que família? Qualquer uma, desde que haja amor.

Reuters

As marchas em defesa da vida, da sociedade e da família

por Jean D. Soares

Não é novidade para ninguém a irresponsabilidade do governo federal atual. Negou os fatos e os conselhos: desamparou simbólica e materialmente a população e se pautou pela suposta ideia de que espalhar o vírus seria uma forma de defesa. Só não avisou quem pagaria com a vida pela suposta imunidade de rebanho. Todo esse tempo o que se viu foi a vontade de fazer rebanho, não de imunizar, pois rebanho é o que está disponível para o abate. Como já afirmava o então deputado no Programa Câmera Aberta de maio de 1099, “Tem que matar uns trinta mil… se vão morrer alguns inocentes, tudo bem”, defendendo uma guerra civil, além de outros impropérios sobre sonegação e sucateamento do SUS. Sua irresponsabilidade social tem um reconhecido lastro histórico.

            As marchas que pedem a saída deste governo são o maior alento nestes mais de dois anos de  atuação deste que é o pior governo da história da república. Num país pacífico, nunca se viu tamanho desalento, tristeza e morte como nestes tempos de intransigência e diversionismo. Mortes de caminhoneiros aumentaram mais de 400% por conta do coronavírus, crimes violentos  não só aumentaram em 2020, como também tiveram maior envolvimento com armas de fogo, cada vez mais em circulação.

            É hora portanto de retomar a dignidade e a alegria de se dizer brasileira, de se dizer brasileiro. Será o caso então de propor uma paródia de modo iniciar uma ressignificação de momentos terríveis de nossa história? Quem sabe pensar que essas marchas são “Em defesa da vida, da sociedade e da família”? Precisamos sair definitivamente da ditadura, e isso implica ultrapassar seus signos, incorporando a um novo país uma amplitude de personalidades.

            Vale responder de antemão. Que vida? Da vida de cada um, seja negro, índio, jovem, mulher, criança, idoso, homem, branco, amarelo, vermelho, azul, laranja, carmim. Que sociedade? A sociedade multiétnica e polimorfa que construiu a imagem do Brasil como um país acolhedor, alegre e com fartura. Que família? Qualquer uma, desde que haja amor.

            Sínteses e pensamentos moderados andaram fora de moda enquanto a política esteve atravessada pelos algoritmos. Como lidar com os extremos? É preciso furar as bolhas em que nos encontramos, permitir que mais pessoas reconheçam a péssima atuação do atual governo. Os signos se prestam a esse serviço. Nessa revolta dos vacinados, não só precisamos superar um governo que é pior do que a vacina, mas retomar relações de que havia nos privado a eleição do atual governo executivo. É hora de construir uma imunidade social à desinformação, ao despiste e ao desmonte do país. Levantamos nossas cabeças e não seremos rebanho, muito menos para servir de carne barata para a máquina de moer gente pelo vírus, uma forma estúpida de tornar a mão de obra, pelo desespero, mais barata. Os que mais sofreram nesses tempos foram os trabalhadores essenciais, sujeitos ao vírus – gente simples, de vida humilde que precisa viver em país melhor, com mais perspectivas.

            A solução para o Brasil não é ser alugado por investidores estrangeiros, nem ser refém dos interesses pessoais de gente miliciana. Não é mais possível aceitar alguém que ameaça as instituições como a personalidade máxima do executivo. Hoje, tenho vergonha desse governo, e acho que mais gente também tem. É preciso permitir assumir essa vergonha, poder manifestá-la, independentemente das posições tomadas anteriormente. O ar de superioridade moral resolve bem pouco nas relações interpessoais. O que é preciso agora é firmeza e insistência nas ações para garantir o fim deste “deixar morrer” nefasto.

            Quanto mais levarmos a sério essa vergonha, mais seremos capazes de defender a vida, a sociedade e a família brasileira. Quanto menos vergonha de tudo isso sentirmos, mais sujeitos a um futuro nefasto, de milícias, apagões, leis ditatoriais, desmonte do país, de sua teia produtiva estaremos.

Jean D. Soares é doutor em filosofia e desenvolve projetos de convivência em espaços públicos.

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