Jornalistas, representatividade árabe e a libertação da Palestina na mídia brasileira, por Bruno Beaklini

Hoje, a maioria de afrodescendentes no segundo maior país africano do mundo tem um marco fundamental na sociedade civil e na política. Ou seja, é pouco se dizer “não racista”, é preciso ser antirracista.

Palestinos tentam cruzar o muro de separação em 20 de maio de 2019 [ Issam Rimawi / Agência Anadolu]

do Monitor do Oriente Médio

Jornalistas, representatividade árabe e a libertação da Palestina na mídia brasileira

por Bruno Beaklini

As indústrias culturais, e especificamente a da informação, deforma consciências, reproduz “orientalismos” e transforma os despossuídos da Palestina em “terroristas”. Disso já sabemos. Além de criticar a mídia em escala empresarial e sua absurda cobertura desigual, é preciso ir além. Uma das formas de debater o conceito – controverso admito – de representatividade é ultrapassar o fato de algumas pessoas com determinada origem étnica-cultural ocuparem postos-chave. Podemos fazer uma analogia com o ex-ministro do Supremo Tribunal Federal, o procurador federal de carreira, Joaquim Barbosa. É inegável a visibilidade que este jurista teve no Brasil e o quanto isso pode implicar em mais exemplos para a carreira jurídica na maioria afro-brasileira. Ao mesmo tempo, em se tratando de ciências jurídicas, os aspectos interna corporis são muito relevantes. Ou seja, para além de sua louvável posição de destaque, é preciso analisar suas práticas como promotor, magistrado do Supremo e depois como advogado.

Estamos, como árabe-brasileiros, alguns passos atrás. Hoje, a maioria de afrodescendentes no segundo maior país africano do mundo tem um marco fundamental na sociedade civil e na política. Ou seja, é pouco se dizer “não racista”, é preciso ser antirracista. Tampouco é aceitável uma pessoa educada, de origem africana, e que repita chavões tão absurdos como os demenciais “pensamentos” do presidente sionista Jair Bolsonaro. O mesmo de dá entre brimos e brimas? Ainda não, embora já estejamos muito menos frágeis do que estávamos quando das operações militares anteriores do inimigo.

Não se pode negar a evidência. Estamos “pintados de branco” no Brasil. Sim, este país que tão bem nos acolheu, aonde a geração de nossos bisavós chegou camponesa, se fez mascate, depois “no lojinha” e já emplacou filhos e netos com diploma universitário porque chegamos sendo “socialmente brancos”. Agrava a situação de “tomada de consciência” a caótica formação política de nossa terra ancestral – a Grande Cananeia, o Bilad al Sham, e os territórios históricos da Grande Síria, a Palestina, o Monte Líbano e a Montanha Drusa. A maior parte entre nós é cristã do oriente- conjunto de comunidades marcado por etnia e credo, como é a norma no Oriente Médio – e a maioria da colônia é maronita. Mas, tal como este que escreve e a genial jornalista Lúcia Helena Issa, nem todo maronita foi falangista e outra parte sequer segue sendo.

LEIA: Analisando os fatores para a vitória na operação Espada de Jerusalém

Para agregar a força que temos em potencial na sociedade brasileira e em particular em alguns campos com incidência direta na política, é preciso superar estereótipos e certa vontade de repetir a “maldição de David Nasser” dentre outras excrescências. Este repórter talentoso, compositor versátil e bajulador por vocação sintetiza o pior de uma integração amoral na sociedade brasileira. No vale tudo para subir na vida e “se tem governo devo ser a favor”, ou “preferindo a narrativa ao fato”, este conjunto de mentiras absurdas (ver a trajetória nefasta em revistapress) rendeu-lhe prestígio pessoal e vergonha para toda uma descendência.

Não temos nada comparado ao péssimo exemplo do parágrafo acima, mas duas presenças no mínimo complicadas em posições de destaque na mídia brasileira. Evidente a referência a Ali Kamel (Ali Ahamad Kamel Ali Harfouche), diretor de jornalismo da Rede Globo, brimo de raiz em termos familiares e quase sempre uma nulidade em seus posicionamentos editoriais quanto ao Mundo Árabe e Islâmico em geral, e a Libertação da Palestina em particular. Na mesma toada de horror, Guga Chacra, repetindo quase sempre um discurso insosso, pró-Israel, pró-EUA e absolutamente fora de contexto e base histórica. Tal como o acima citado, não se pode afirmar que não conheçam do tema, tanto pela formação familiar como pelos estudos formais e coberturas profissionais. Poderíamos citar dezenas de brimas e brimos na condição de “coleguinhas” em veículos potentes, mas deixo dois exemplos louváveis e uma fonte especializada para que nos sirvam de inspiração.

Um bom exemplo que vem da cobertura esportiva

Dia 17 de maio, em plena Operação Espada de Jerusalém, o jornalista Juca Kfouri publicou no seu blog no UOL, o Blog do Juca, uma postagem com o título: “Liberdade para a Palestina”. Não se trata de um texto, mas das comoventes imagens da torcida do Raja Club Athletic de Casablanca, clube de futebol com a maior torcida do Marrocos . Não é pouco o que este ícone do jornalismo esportivo brasileiro fez. Ainda acertou na linguagem para seu público, embora as legendas do vídeo com a mais fiel marroquina estejam em espanhol e não em português. O vídeo é impressionante, com a massa de verde e branco demonstrando uma solidariedade árabe apesar de seu monarca, Mohamed VI, que aceitara normalizar as relações com a entidade sionista ainda durante o “protetorado anglo-saxão” de Jared Kushner . Em troca de supostos 200 mil turistas israelenses por ano (a maioria mizrahim estupidamente manipulados pela Agência Colonial para migrarem nos anos 1950) e o reconhecimento da Casa Branca sobre os direitos de anexação do Saara Ocidental, o governo de Rabat vendeu a Palestina.

Repito, só tenho elogios para o brimo José Carlos Amaral Kfouri, mas um mínimo de contextualização já ajudava muito.

O melhor exemplo com Salem Nasser e Jamil Chade

No canal Band Jornalismo do Youtube, consta o programa Canal Livre gravado na sexta 21 de maio sendo transmitido no domingo seguinte, 23, tanto no canal por assinatura Band News como na televisão aberta, Bandeirantes. O enunciado da empresa afirma que: “O contexto atual, a história e os possíveis reflexos desses conflitos. Os convidados são o professor de direito internacional da FGV –SP Salem Nasser e o pesquisador do Centro de Estudos Judaicos da USP e diretor do Instituto Brasil-Israel Daniel Douek”. O programa se encontra postado dividido em primeira parte e a segunda parte . Ressalte-se que além do âncora Rodolfo Schneider, a produção da emissora da família Saad escalou seu diretor geral de jornalismo, Fernando Mitre, para o debate.

Em 17 de maio, Salem Nasser escreveu um artigo de opinião para a Folha de São Paulo com o título: “Você está roubando minha casa!” , explicando que a Operação Espada de Jerusalém é uma posição solidária contra a limpeza étnica e grilagem em Sheikh Jarrah, bairro alvo dos invasores em Al Quds ocupada. Tanto no texto como na TV, aplicando uma linguagem diplomática, educada, mas real, o professor de direito internacional explica, posiciona, contextualiza e expõe o absurdo de qualquer “teoria de dois demônios” tentando separar Gaza da Palestina, ou comparando a resistência a “terroristas”.

Na semana seguinte, o igualmente genial Jamil Chade publica a matéria “Brasil vota contra resolução na OMS que pede garantia de saúde a palestinos” evidenciando as relações diretas e subalternas entre o governo Bolsonaro e o Estado Colonial do Apartheid.

Limpeza étnica, grilagem de terras e casas, expulsão de famílias, negação de acesso às vacinas, financiamento direto dos EUA e o direito de resistência de toda a Palestina. Não precisa nada além de narrar a verdade sem cair em esquemas de “choque de narrativas”. Quantas versões mentirosas se sustentam diante de bombardeios F-35 destruindo edifícios residenciais ou a Shabak realizando prisões em massa de árabes-palestinos dentro dos Territórios de 1967 e de 1948?

Que os bons exemplos arrastem multidões. Não precisa fazer propaganda, apenas o bom jornalismo com checagens, verificação, fontes variadas, base histórica e sem mistificação. Temos plenas condições de virar o jogo cretino do sionismo, a começar pela afirmação de nós para nós mesmos.

Este artigo não expressa necessariamente a opinião do Jornal GGN

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