Narrativas de um Brasil – entrevista com o violonista Arthur Endo, por Arnaldo Cardoso

Narrativas de um Brasil – entrevista com o violonista Arthur Endo

por Arnaldo Cardoso

Com teatros e salas de concerto fechados e shows cancelados em todo o mundo, os músicos assim como outros artistas vem enfrentando as consequências da pandemia do coronavírus buscando ressignificar suas práticas e relações com o público e com seus pares, renovando a cada dia a esperança de volta aos palcos e da livre fruição da vida, animada pela arte.

Dentre as muitas memórias produzidas nessa pandemia, certamente será sempre resgatada a de cidadãos – inicialmente italianos – cantando em sacadas, homenageando profissionais de saúde, e assim rompendo com o isolamento imposto pelo vírus. Mais uma vez a música revelou seu potencial de reunir, religar, confortar e humanizar. Também não é menor seu potencial de crítica, de intervenção social, como propõe a obra do filósofo Herbert Marcuse (1898-1979) onde se encontra sentenças como “A arte não pode mudar o mundo, mas pode contribuir para mudar a consciência e os impulsos dos homens e mulheres que poderiam mudar o mundo.”

Foi sob esse pano de fundo que entrevistei o jovem e talentoso músico brasileiro Arthur Endo, que vem construindo uma consistente carreira como violonista, premiado em festivais nacionais e internacionais e com experiência acumulada através de turnês pelo país e exterior. Formado em música pela Unicamp, tendo antes passado pela Escola de Música do Estado de São Paulo e Projeto Guri, ele discorreu sobre temas variados e complexos com notável fluência e sensibilidade, revelando uma formação intelectual informada pela história, sociologia, antropologia e diversas artes. Como comentei com Arthur ao final da entrevista, cada pergunta respondida gerou material suficiente para uma matéria. A terceira delas, que relaciona questões de identidade nacional, cultura, miscigenação e discriminação, dada a maneira tão íntima e pertinente com que ele as tratou, será objeto de publicação futura, neste mesmo Jornal GGN.

Segue, portanto, os principais trechos da entrevista com o violonista Arthur Endo.

A importância das instituições de ensino na formação de um músico

Sobre como a música entrou em sua vida, o lugar que passou a ocupar e a importância das instituições em que estudou, Arthur fez as seguintes observações: “o EMESP foi o lugar onde eu percebi a possibilidade de me tornar músico, que músico é uma profissão. Eu encontrei ali professores que viajavam para vários lugares do mundo, colegas que já trabalhavam e ganhavam a vida como músicos. Antes disso eu não tinha essa noção, sabia que existiam músicos profissionais, mas essa era uma realidade muito distante de mim”. Sobre a universidade onde cursou seu bacharelado em música diz “A Unicamp foi o lugar em que eu me tornei o músico que eu sou. Todas as conquistas que eu tive até hoje eu devo, em grande parte, ao professor de violão da Unicamp Ulisses Rocha”, e complementou “acredito ser importante dizer que são instituições em risco pois vem sendo nos últimos anos sucateadas. Elas cumprem um papel importantíssimo para a formação de jovens músicos, contribuindo para que possam se profissionalizar; dificilmente eu teria me tornado músico profissional se não fosse o trabalho dessas instituições públicas”.

Após tecer várias considerações sobre os processos seletivos para ingresso numa universidade pública no Brasil, sobre o quão elitistas terminam sendo os vestibulares por requererem na prática uma formação prévia que só uma pequena parcela dos jovens brasileiros pode ter, Arthur diz se reconhecer como um privilegiado. Contou como foi se mudar para Barão Geraldo – distrito pertencente ao município de Campinas – e a importância do convívio cotidiano com os estudantes de música e com os professores. Sobre o professor Ulisses Costa afirma que “ele me despertou o entendimento de que não bastava ser um bom músico, tinha que apresentar um conceito artístico, encontrar uma assinatura”.

A experiência de tocar nas ruas

Arthur contou também sobre a experiência vivida com um amigo durante uma temporada tocando em Paris. “Além de treze apresentações em locais fechados, eu toquei nas ruas todos os dias. No Brasil não estamos muito acostumados com essa ideia do músico de rua como uma profissão, mas na Europa é mais comum, eles reconhecem o músico de rua como um profissional que vai todos os dias para o mesmo lugar, no mesmo horário e toca o repertório dele. Há muitas pessoas que vivem disso. […] Para mim foi uma experiência de humildade muito grande pois na rua você percebe que não existe glamour nenhum, nem mesmo na música instrumental. Você percebe que tudo é uma questão de contexto. […] Eu acho que esse sonho de viver de palco deriva um tanto de uma forma glamourizada de pensar a música. […] Seja tocando em grandes palcos ou na rua, eu não consigo me ver em uma outra profissão”.

O papel dos festivais de música

Em 2017 Arthur venceu o Festival Imagine Brazil e representou o país na final internacional do festival em Maastrich, na Holanda, junto com jovens músicos da Noruega, Suécia, Croácia, Zimbabwe, Polônia e França. Perguntado sobre a importância dos festivais na carreira de um jovem músico, Arthur teceu as seguintes observações:

“Ainda na adolescência eu tive a oportunidade de participar de festivais de música, entre eles o de Curitiba, Ourinhos, Leme entre outros, e todos tiveram um papel fundamental na minha formação. Tanto por oferecerem cursos com aulas e palestras, quanto por proporcionarem um convívio intenso com outras pessoas apaixonadas pela música e com professores e professoras muito dispostos a te ajudar. […] Como a música é um universo muito social, é fundamental que ocorram essas interações, a música não é só o palco, a performance, chegar no estúdio e gravar. Isso é dez por cento do tempo. Você vai ter que ensaiar com outras pessoas, viajar, discutir questões complexas, toda essa dinâmica social muitas vezes é mais importante do que a música em si”.

As armadilhas da competição

“Quanto aos festivais internacionais eles proporcionam a percepção de que existem diversos universos estéticos, com valores diferentes. […] A estrutura de valores que a música brasileira adotou é muito diferente da europeia, segue outros preceitos. Muitas vezes eu vejo alunos criticando certos violonistas brasileiros por não seguirem a cartilha estética ditada pelo violão clássico europeu. Um dos grandes aprendizados nessas experiências de festivais fora do Brasil vem da convivência com a música e músicos de diferentes culturas, tradições e valores estéticos. É quando você aprende que o bom e o ruim na música é uma questão de perspectiva, assim como na vida”.

Especialmente em relação aos festivais e concursos internacionais, Arthur contou que sempre ouviu a exaltação da importância de “ganhar uma competição para que isso facilitasse a sua jornada no mercado da música”. Ele confidenciou que “Essa foi uma expressão que por muito tempo eu repugnei, que me causava um desconforto pois eu tinha uma visão idealizada da música que não correspondia a essa noção de mercado, da indústria da música. Quando eu me tornei um músico profissional eu passei a entender que para manter o sonho de viajar para diferentes países do mundo compartilhando o meu trabalho, havia a necessidade de dedicar uma atenção à carreira. Há muitas formas de constituir um público, de vender o seu trabalho e conseguir uma projeção, e através disso conseguir shows e assim viver de música. A participação nas competições, principalmente com vitórias, encurta o caminho”. Mas Arthur alertou sobre riscos dessa dinâmica “Eu já ouvi vários relatos de colegas que consideram que essas competições terminam por impor padronizações, valorizando determinadas estruturas interpretativas muito similares, podando caminhos que poderiam ser seguidos por diferentes músicos.

Também as relações entre os músicos sofrem o impacto desse ambiente competitivo, que se estenderá por todas as etapas de uma carreira profissional. Um dos resultados dessa dinâmica competitiva é o caráter extremamente individualista que passa a predominar no mundo da música. Os que perdem nas competições saem machucados e os que ganham também passam a sofrer o peso dessas vitórias, pois passam a se exigir e serem exigidos cada vez mais, gerando angústia e infelicidade. Eu já participei desses festivais e me beneficiei com algumas vitórias, mas hoje tenho um olhar mais crítico a respeito disto”.

O pertencimento à América Latina

Cada vez mais interessado pela música e cultura latino-americana, Arthur Endo contou sobre a turnê musical que fez com o músico brasileiro Guilherme Sakamuta pela Colômbia, inspirado sobretudo pelo músico Yamandu Costa, por quem tem grande admiração.

“Quando eu viajei em turnê pela Colômbia com o músico Saka percebemos que nossos vizinhos sabem muito sobre o Brasil e nós sabemos muito pouco sobre eles, sobre a cultura colombiana, boliviana, venezuelana… Há músicos brasileiros interessados na música latino-americana, mas a maior parte parece rejeitar essa vinculação. Percebi algo assim também na Argentina, um desejo de afastar-se dessa identidade latino-americana e com isso descolar-se das mazelas da região. […] Acredito que essa rejeição de se identificar com a cultura latino-americana possa ser em parte explicada por uma ignorância em relação à cultura latino-americana. Já em relação à Europa e Estados Unidos percebe-se um movimento oposto, de desejo de pertencimento. Se observarmos a tertulia colombiana e as rodas de choro brasileiras, rituais musicais em que a comunhão é tão importante quanto a música, podemos identificar pontos de encontro identitário dessa nossa América Latina.

Sinto que esse movimento de reconhecimento tem sido mais comum, com músicos interessados pela cultura de nossos vizinhos se apresentando nesses países. Com otimismo eu vislumbro um futuro no qual a resposta para essa pergunta “Você é latino-americano?” será respondida com orgulho “Sim, eu sou latino-americano”.

O primeiro álbum: Narrativas de um Brasil

“A minha ideia era fazer uma espécie de panorama com pontos de vista diferentes sobre a música brasileira. Primeiro, havia o desejo de incluir alguns dos gêneros musicais mais importantes da cultura brasileira como choro, samba, baião e valsa; também havia a intenção de abarcar músicos representativos desses gêneros musicais, constitutivos do imaginário da música brasileira, como Pixinguinha, Tom Jobim, Ernesto Nazareth e Guinga, representativos também de diferentes momentos. Tudo isso entrelaçado pelo violão, pois a história da música brasileira e a história do violão seguem de mãos dadas.

A escola do violão brasileiro foi fundamental para muitas das novidades surgidas na música brasileira. Quando pensamos em Garoto, Dilermando Reis, Baden Powell, é fácil reconhecer a importância dos violonistas brasileiros para o nicho do violão solo, assim como para outros segmentos da música brasileira. Há também a grande contribuição do violão para a canção, pois muitos violonistas brasileiros eram também acompanhadores de vozes expressivas da música brasileira. Muitos desses violonistas também compunham, e deixaram um legado extraordinário que influenciou gerações de violonistas como a minha, e deverá continuar influenciando as futuras gerações”.

A necessidade da arte e a função social do artista

“Eu considero a arte e a sociedade coisas inseparáveis, uma vez que a história da humanidade mostra que a arte já se fazia presente antes mesmo da escrita. [,,,] Considero que a arte no mundo hoje se depara com o desafio de se manter numa sociedade que tem como valores incontestáveis o acúmulo do capital e a busca da produtividade. É dessa estrutura de valores que deriva a pergunta “Para que serve a arte?”. Para mim a arte é justamente um instrumento para se opor a essa mentalidade utilitária. A fruição da arte basta por ela mesma. E não são muitas as experiências em que podemos abandonar as preocupações e viver, sentir.

Sobre o dever do artista, esse ser privilegiado que vive de fazer o que gosta, considero que ele cumpre um papel narrativo, muitas vezes através de uma contra narrativa, que tem o poder de afrontar formas e padrões convencionais. A arte não pode ser servil.

Sobre os impactos da pandemia do coronavírus     

A atual pandemia do coronavírus que já completou um ano e que além de causar a morte de mais de dois milhões de pessoas em todo o mundo, das quais mais de 10% foram brasileiras e brasileiros, tem imposto restrições ao cotidiano das sociedades. Entre as categorias profissionais seriamente afetadas pela pandemia está a dos artistas, que se alimentam da relação com seu público. Arthur contou como a pandemia afetou sua vida profissional.

“Pouco antes da pandemia eu estava vivendo o meu melhor momento profissional, tinha feito 53 shows de lançamento do meu disco “Narrativas de um Brasil”, recebi convites muito bons de trabalho no Brasil e no exterior, e realizava o sonho de viver de música. A pandemia desmoronou toda essa estrutura e eu precisei encontrar formas de lidar com esse novo cenário. Para mim o bote salva-vidas foram as aulas pois, como violonista formei um público nos últimos anos que me propiciou o oferecimento de aulas particulares de violão, resolvendo assim a questão financeira mais imediata. Esse tem sido o recurso utilizado por mim e muitos outros músicos brasileiros”.

Ressignificando o cotidiano

Quando a experiência catártica do palco foi impossibilitada “a literatura se tornou uma fonte de vida para mim nesse contexto de confinamento. A cada livro novo (e foram uns 40 nesse último ano) eu me sentia menos preso em casa, eu sentia que uma viagem ainda era possível, ainda que lírica. Estou compondo também mais que o habitual, criando mais arranjos para um projeto que está no forno. O contato constante com diferentes tipos de arte torna mais fácil abraçar a solidão, quando essa se impõe. Sempre que penso nas perdas que tive penso nas pessoas que tiveram perdas infinitamente maiores que as minhas”.

As redes sociais

“Quanto ao uso das redes sociais elas foram úteis para eu divulgar minhas aulas e conseguir alunos.

No mundo dos músicos uma mudança ocorrida que considero importante foi essa possibilidade de contato mais direto com o público, sem a intermediação das rádios, televisões e gravadoras. Isso tornou o viver de música um pouco mais democrático.

A partir de postagens em redes sociais eu já recebi convites maravilhosos que me proporcionaram ótimas experiências, portanto vejo como benéficas essas ferramentas tecnológicas digitais para a carreira de um músico, principalmente para a divulgação de seu trabalho. Como usuário das redes sociais sou bastante criterioso pois vejo como um risco a perda da capacidade de lidar com o silêncio e com a solidão”.

Planos para o pós-pandemia

Eu tenho muitos planos para o pós-pandemia.

Um deles é um duo com o violoncelista Kayami Satomi, um parente distante cuja aproximação recente se deu no contexto do falecimento de meu avô. Esse contato com Kayami tem sido muito profundo pois, além dessa história familiar compartilhada, nós temos uma maneira similar de olhar o mundo e anseios parecidos.

Tenho um outro projeto com a cantora Jacque Falcheti e o guitarrista e bandolinista Guilherme Saka que é o de fazer uma residência artística com o objetivo de compor, arranjar e gravar as músicas de um novo álbum, registrando o processo de criação de cada composição.

E desde o início da pandemia venho me dedicando ao meu próximo disco que trará um Brasil pertencente ao universo latino-americano e contará com a produção de um dos músicos que mais admiro no mundo.

Também já está em fase de pré-lançamento um projeto que estreita o vínculo com aqueles que tem interesse pelo meu trabalho oferecendo workshop mensal, seleção semanal de discos representativos da música brasileira. Tenho me aventurado também na direção de um documentário. E por fim, estou muito animado com a participação na gravação de um dvd de sons nikkei, que une vários descendentes de japoneses que trabalham com música brasileira.

Arnaldo Cardoso, sociólogo e cientista político.

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