1 de julho de 2026

Sufrágil, por Guilherme Scalzilli

É fácil exigir provas de mentiras sabidamente improváveis. Mas o outro gume da faca também corta: o acusador futuro talvez venha a ter razão.

Sufrágil

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por Guilherme Scalzilli

Desconfio das urnas eletrônicas desde sua adoção no país. Sempre achei temerária a falta de evidências tangíveis da vontade do eleitor. Não parece razoável a ideia de auditar voto sem voto, conferindo números gerados por códigos digitais.

Os defensores do sistema fogem de questões técnicas envolvendo sua segurança. Ora se apegam à relativa simplicidade operacional e à rapidez do método, ora tratam o TSE, a PF e as empresas licitadas como fiadores das próprias competências e idoneidades.

A mentira do endosso internacional ajuda a ocultar os problemas levantados pelos países que testaram e reprovaram a urna eletrônica. Alemanha, Holanda e Irlanda, por exemplo, afirmaram que ela não permite sequer a detecção de eventuais ilícitos.

A mídia ignora os estudos publicados, inclusive de universidades brasileiras. Ninguém dedica ao assunto o rigor científico exigido nos debates sobre a pandemia. O aval de pesquisas acadêmicas revisadas não é importante para definirmos como votamos.

Essa postura, negacionista a seu modo, ressuscita o clima do triunfo da Lava Jato. As instituições funcionam e garantem a urna programada. Os incrédulos são teóricos da conspiração ou, pior, inimigos de um “processo democrático” sólido e transparente.

Antes de abraçarmos uma narrativa oposta aos planos de Jair Bolsonaro, deveríamos ter certeza de conhecê-los. A suposição de que pretende apenas desacreditar os resultados vale tanto quanto as outras imagináveis. É a mais amena delas, na verdade.

Hipoteticamente, as bravatas de Bolsonaro podem estar preparando terreno até para um ataque às urnas. Se não uma fraude que lhe dê a vitória, um defeito qualquer que anule a votação. O álibi no mínimo fortaleceria o presidente em caso de nova disputa.

A pujança democrática do país obriga-me a salientar que se trata de mera especulação. Não temos motivos para imaginar conluios unindo células golpistas da PF e agentes militares de inteligência que trabalham em segredo para o governo. São todos patriotas.

Na minha paranoia, contudo, vivemos sob um regime despótico encarregado de gerir o vulnerável sistema de votação do qual dependemos para superá-lo. Os fascistas desse pesadelo são atualizados e proativos. Têm apoio nas cortes e nas polícias.

É fácil exigir provas de mentiras sabidamente improváveis. Mas o outro gume da faca também corta: o acusador futuro talvez venha a ter razão. E os justos ficarão limitados ao mesmo escrutínio falho e inconclusivo que outrora permitiu calar os mentirosos.

Os democratas caem numa armadilha quando se comprometem com a urna eletrônica. Desqualificam de antemão suas possíveis denúncias contra a tutela bolsonarista do equipamento. Naturalizam a imprevisibilidade e assumem riscos desnecessários.

Urge discutir a tecnologia eleitoral cientificamente, sem republicanismo ingênuo. Se for necessário, reivindicar a impressão do voto. A disputa com Bolsonaro é séria demais para dependermos de amostragens irrisórias e somas redundantes de boletins de urna.

http://guilhermescalzilli.blogspot.com/2021/06/sufragil.html

Guilherme Scalzilli é historiador e escritor. Mestre em Divulgação Científica e Cultural, doutor em Meios e Processos Audiovisuais. Website: www.guilhermescalzilli.blogspot.com

Este artigo não expressa necessariamente a opinião do Jornal GGN

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2 Comentários
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  1. Clever Mendes de Oliveira

    18 de junho de 2021 8:09 pm

    Guilherme Scalzilli,
    Perfeito!
    A discusão sobre a urna eletrônica não pode ser ideológica mas científica. A discussão sobre fraude vai perdurar sempre.
    Eu particularmente, sem o conhecimento de informática preferiria que houvesse o voto impresso, mas se o mundo científico pudesse assegurar que o voto só eletrônico fosse suficiente, fosse auditável, eu me daria por satisfeito.
    E penso que o mais relevante seria verificar quais os países adotam o voto eletrônico sem voto impresso e se tem havido mudança de modelo algo como voto eletrônico sem voto impresso passa para o voto eletrôncio com voto impresso e vice versa.
    Clever Mendes de Oliveira
    BH, 18/06/2021

  2. Alejandro

    16 de junho de 2026 6:01 pm

    Concordo que a principal questão não é se houve manipulação comprovada, mas sim a existência de um centro de poder capaz de influenciar ou até alterar resultados sem deixar rastros verificáveis pelo cidadão comum.
    A fragilidade de um sistema não se mede apenas pela frequência de falhas detectadas, mas também pela dificuldade de detectá-las quando ocorrem. Um mecanismo cuja integridade depende fundamentalmente da confiança em instituições, especialistas e procedimentos internos inevitavelmente transfere parte da soberania popular para estruturas que poucos conseguem fiscalizar.
    No meu entendimento, Lula não venceu por uma suposta superioridade eleitoral intrínseca, mas pela atuação de um poder mais amplo e mais forte do que os candidatos individualmente considerados. Esse poder envolve instituições, burocracias, meios de comunicação, grupos econômicos e atores políticos que moldam o ambiente onde a disputa ocorre.
    A questão central não é provar uma fraude específica sem evidências, mas reconhecer que sistemas complexos concentram capacidades de influência que frequentemente escapam ao escrutínio público. Quanto maior a confiança exigida, maior deveria ser a exigência de transparência, auditabilidade e verificação independente.
    Democracias sólidas não deveriam temer mecanismos adicionais de auditoria. Se um sistema é confiável, permitir mais formas de verificação apenas reforça sua legitimidade.
    Essa versão expressa a sua posição como interpretação política, sem apresentar como fato uma alegação de fraude eleitoral não comprovada.

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