Trabalhadores de Apps em Cena: Juliana Iemanjara, por Daniele Barbosa

Entregadora Antifascista. Atualmente, trabalha no modo cooperativo dos Entregadores Antifascista.

Trabalhadores de Apps em Cena: Juliana Iemanjara

por Daniele Barbosa

Com o avanço da precariedade politicamente induzida no Brasil, estamos assistindo à uberização se transformar em um modelo para as relações de trabalho. Diante dessa grave situação, precisamos encontrar maneiras de resistir a esse projeto neoliberal de destruição de direitos, que se acelerou com a reforma trabalhista de 2017. Dentre as formas possíveis de resistência, a construção desta coluna, que intitulei Trabalhadores de Apps em Cena, busca “reconsiderar as formas restritivas por meio das quais a “esfera pública” vem sendo acriticamente proposta por aqueles que assumem o acesso pleno e os plenos direitos de aparecimento em uma plataforma designada.”[1]

Considerando o alerta da filósofa Judith Butler de que a mídia seleciona o que e quem pode aparecer[2] e que “o campo altamente regulado da aparência não admite todo mundo, demarcando zonas onde se espera que muitos não apareçam”[3], a construção desta coluna tem o propósito de colocar na cena principal as trabalhadoras e os trabalhadores, que aqui serão os entrevistados.

Após uma pesquisa[4] publicada no ano passado, na qual busquei fazer um diagnóstico acerca do projeto político em curso no Brasil para os motoristas de plataformas digitais, propus, neste ano, a um grupo de relevantes acadêmicos brasileiros que elaborassem uma única pergunta para compor essa série de entrevistas com os motoristas e os entregadores de Apps. Foram convidados os professores Joel Birman, Luis Carlos Fridman, Márcio Túlio Viana, Pedro Cunca Bocayuva, Ricardo Festi, Simone Oliveira e Wilson Ramos Filho. Cada um deles, conforme as suas respectivas áreas de conhecimento, formulou uma questão com base nos seguintes campos temáticos: “condições de subjetivação”; “solidariedade social”; “cooperativismo e relação de emprego”; “cidade e questão racial”; “luta dos movimentos sociais”; “gênero” e “pandemia e trabalho”. Coube a mim o tema do “empreendedorismo de si mesmo”.

A ideia foi colocar a Academia na construção das perguntas e na escuta das vozes daquelas e daqueles que trabalham, no dia a dia, em condições uberizadas. A opção foi pela publicação de uma única entrevista por semana. Afinal, querermos ouvir atentamente cada um dos entrevistados nas suas vivências singulares. É imprescindível que essas vozes circulem em uma afirmação de que suas vidas importam. Acredito que agir, não de maneira isolada, mas juntos, nos coloca em solidariedade uns com os outros, além de possibilitar uma maior capilaridade do debate acerca da uberização, que cada vez mais vai dizendo respeito a todos nós. As alianças, portanto, se fazem necessárias.

Entrevista com Juliana Iemanjara

Entregadora Antifascista. Atualmente, trabalha no modo cooperativo dos Entregadores Antifascista.

DANIELE BARBOSA: As recentes decisões judiciais do Tribunal Superior do Trabalho, ao negarem o vínculo de emprego entre os motoristas e as empresas de plataformas digitais, contribuem para que os motoristas e os entregadores se enxerguem como empreendedores de si mesmos?

Hum, na realidade, não. A minha opinião, em relação a isso, de são empreendedores, ninguém é empreendedor de nada. Até mesmo porque é isso que muitas empresas agora estão fazendo também, né. Eles não querem assumir esse vínculo com o entregador, com o trabalhador de CLT, né. Até mesmo porque o custo de um funcionário, a gente sabe que é um pouco mais alto, de repente, ser for uma empresa. E, pra eles, eles acabam se livrando desse custo. Então, eles não querem ter esse vínculo. Então, a ideia agora é: se você abre o MEI, né, e aí eu te contrato num, com um contrato de prestação de serviço, né. E, tanto as empresas, essas empresas de aplicativo, esse é um marketing que eles utilizam pra atrair essas pessoas também, porque, no começo, foi muito isso, você vai ser um empreendedor, né. Você vai ser dono do seu próprio negócio. Trabalhar quando você quer. E essa não é a realidade pra gente que está na rua, né. Essa não é a realidade, porque a gente não pode trabalhar quando a gente quer. A gente tem que trabalhar dobrado, porque a gente ganha muito pouco, né. É muito, muito precarizado o serviço. Então, não tem essa da gente poder trabalhar quando a gente quer. A gente tem que trabalhar o tempo inteiro e dobrado. Com a pandemia, aumentou mais. Então, eu não vejo, é, como os motoristas de aplicativo, em nenhuma outra área, tá, porque não é só a nossa que está precarizada, nenhuma outra área, sendo um empreendedor desta forma, né, sem ter esses direitos. Então, na realidade, quando a gente fala dessa forma, a gente sabe que, igual essas empresas de igual a Uber, ela vive por liminar, né. Então, ela tá, ela existe até hoje, que é uma liminar em cima da outra. Então, quando a gente tem uma forma dessa, eles vão sempre estar procurando um meio de precarizar mais o trabalho. Porque não tem como você ser empreendedor dessa forma, né. Você é empreendedor, porque você trabalha quando você quer, você liga o aplicativo. Só que assim você, de qualquer forma, você tá prestando um serviço a alguém, né. E esse alguém te respalda, ele te dá a não ser uma taxa mínima, que ele está pagando um valor absurdo, né, de tão pouco. E, muitas vezes, é, a gente sabe que o cliente em si, ele paga bem menos também. Tem muito desconto, na hora que ele vai fazer uma corrida, que é meio que absurdo. Se você entrar pra fazer ali, pedir um serviço de entrega, em qualquer um desses aplicativos, é um absurdo, né, o valor que é pago. Porque aí você imagina esse motorista de aplicativo, ele vai fazer essa corrida. Te cobraram um valor, que você já achou super bom, porque você é o cliente e você precisa levar algo a algum lugar. E você vai pagar aquele valor, que é um valor baixo que tá ali, né, que você achou ótimo. Mas aí você imagina que tem o desconto que a empresa já tira desse motorista, né. Quanto esse motorista recebe? Eu não vejo dessa forma. A gente sabe que tudo sempre tem, é que nem a gente fala, na Justiça, tudo tem brecha, né. Tem uma brechinha aqui, outra ali. E eles ficam procurando essas brechas. Então, a gente precisa assim de pessoas que a encontrem essas brechas antes e elimine com elas, pra que eles não utilizem dessas brechas pra ganhar justamente algo desse tipo, né. Ser negado ali o vínculo de trabalho e o trabalhador continuar sendo precarizado.

JOEL BIRMAN: Quais foram os impasses na vida laboral e social que conduziram os motoristas e os entregadores para esse tipo de trabalho tão depreciado socialmente e como a incursão do sujeito na condição de motorista e de entregador, ao lado de sua condição precarizada anterior, seria a fonte interminável de culpa, vergonha, angústia e depressão, como pedras angulares de suas condições de subjetivação?

Bora lá, essa pergunta é longa. Deixa eu ver aqui, porque ela é bem extensa, né. Mas, é, o que levou a terem muitas pessoas nessa área de trabalho é por você justamente não precisar de uma qualificação, tá. Porque você entra pra trabalhar, mas você não precisa de uma qualificação. Você precisa de um meio de locomoção, você precisa de um celular, de uma internet, né. Você ser uma pessoa que tem sua documentação em dia, tanto do seu veículo quanto pessoal. E pronto. Você conseguiu um emprego, né. E a gente sabe como tá o desemprego aí no nosso país. Então, isso, eu acho que essa foi uma das coisas que fez muitas pessoas entrarem nesse meio, porque são muitas pessoas. Qualquer pessoa hoje consegue ir trabalhar fazendo entrega, né. E, com a pandemia, dobrou esse número, porque quantos trabalhadores não ficaram sem os seus empregos, né. Mas aquele trabalhador que ficou sem emprego, ele tinha uma moto, né, que ele usava pra ir do serviço pra casa. Então, ele ficou sem o emprego dele ou, de repente, ele ficou com a carga horária reduzida e o salário reduzido. Só que ele tem uma família pra sustentar, ele tem conta pra pagar, né. Porque as contas, elas não pararam de chegar, né. O seu filho não parou de ter fome. Então, você precisa trabalhar. Então, esse trabalhador, ele pega, naquele exato momento, provavelmente ele conhece alguém ali que fala pra ele: “Irmão, vai lá e faça. Faça seu cadastro ali e vá fazer entrega.” E muitos ficaram, tá. Muitos ficaram, muitos ficaram mesmo e utilizam hoje, até como, né, um serviço extra, algo do tipo. Mas muitos outros não conseguiram voltar pro mercado de trabalho, porque acabou perdendo ali mesmo o seu emprego. E você, numa situação dessa, é, não tem pra onde correr. Você tem que sustentar a sua família, você tem que pagar as suas contas. Tem uma outra parte da pergunta agora que eu não, acho que eu respondi a primeira, mas não a segunda parte. Assim, é, eu não vejo dessa forma. Eu vejo como trabalhadores, pessoas de garra mesmo, que estão aí na rua. Até mesmo porque, assim, é um risco fora da realidade, que eles estão correndo o tempo inteiro. É, então, assim, eu acho que não chega muito nesse nível dessas, dessas, seria essas palavras. Eu acho que de revolta, sim. De revolta, de querer fazer uma revolução, querer mudar alguma coisa, de repente, procurar pessoas que tão nessa luta já, né. Porque já existiam pessoas nesta mesma luta, contra tudo isso. Contra a fome, contra a precarização do trabalho, contra a moradia. Então, já tínhamos militâncias, é, dessas coisas. Porém, com tudo isso que se aconteceu, eu acredito que muita gente acordou pra realidade. Muita gente que tava acomodado ali, de repente, ali no seu emprego, no seu trabalho, né, que recebia tudo certinho. Com a pandemia em si, foi o que eu acredito que fez mudar a vida de muita gente. E, assim, eu acredito, é visível você ver a quantidade de pessoas apoiando agora movimentos que nem era tão falado assim, né. Essas militâncias, elas ganharam, começaram a ganhar mais, mais seguidores, mais pessoas ali na luta, naquela batalha. Porque elas começaram a sentir essa revolta nelas, porque elas começaram a passar por isso, né. Então, quando você, se você tem pra onde correr, quem te socorrer, quem vai te auxiliar, outras pessoas que mostrem a mesma realidade pra você, fica um pouco mais fácil. É muito mais fácil a gente não entrar numa depressão, numa angústia. Porque é desesperador, é desesperador você precisar levar a comida pra sua casa e você não conseguir. Você precisar um teto pro seu filho e você não ter, né. Você ver seu filho pedindo um leite e você não conseguir comprar. Você ter que modificar toda a sua alimentação, porque as coisas estão num preço, né, extraordinário. Então, mas eu acho que assim, a maioria das pessoas que, com certeza, tiveram, e é isso que a gente tenta fazer,

“Eu acho que todas as militâncias, elas tentam correr atrás disso, né. Mostrar pras pessoas o quão importante elas são, né. Olha, não deixem te calar! Querem te calar, mas não deixem te calar! Se junte aqui a nós, que a nossa luta é essa, essa e essa. Vamos junto?”   

Então, acho que isso acaba confortando, porque você vê que hoje se fala muito mais das ações sociais, de militância, de movimentos sociais, tudo, do que antes, né. Antes já existiam, mas hoje está muito mais no auge. E, provavelmente, uma coisa tem meio que ligação com a outra sim.

LUIS CARLOS FRIDMAN: Como combater um patrão que é uma tela e como despertar a solidariedade para a luta por melhores condições de trabalho entre os companheiros submetidos à mesma situação?

Olha, como combater um patrão é uma coisa muito complicada. Você tem que ter garra, força e coragem. E tem que confiar em si também pra que você consiga fazer isso. E se impor. Saber dos seus direitos, né. Saber, é, exatamente se colocar, né. Não apenas ouvir. Você ter assim, saber falar, se impor. E, da mesma forma ali, você está fazendo o seu, seu trabalho certo. E, muitas vezes, isso não tem saída, tá. Muitas vezes isso não tem saída. Você pega um patrão que, por mais que você tente falar o que quer que seja, ou você vai ser mandado embora, né, ou, muito dificilmente, você consegue mudar alguma coisa. E muitas pessoas, elas preferem não debater ali, não bater de frente com esse patrão. Por quê? Porque elas precisam levar o sustento dela pra casas dela, elas precisam ter moradia pros filhos, elas precisam pagar as contas. Então, elas vão se calar. Elas, nesse exato momento, elas vão se calar. E a falta de confiança em si próprio é justamente isso que acontece. Eu já passei por isso, tá, de ter patrão que é com assédio, ali dentro do serviço, ou que falava mal e tratava mal, era arrogante, coisas desse tipo. E a minha posição foi, eu tentei resolver ali, naquele exato momento, o que, a hora que chegou no auge, que chegou. Não, isso não dá mais pra mim. Porque, assim, a gente engole os nossos princípios pra sustentar nossos filhos, pra manter as nossas coisas, pra sobreviver. Não é nem pra viver. Pra sobreviver, a gente acaba engolindo os nossos princípios, né. Quantas vezes você ouviu, de repente, um desaforo e foi pra sua casa, voltou no outro dia, chorou ali no seu travesseiro e, no outro dia, você tava lá trabalhando? Mas você não pode esquecer dos seus princípios. Você pode engolir, devido à situação e a sua necessidade, mas você não pode esquecer dele. Se você não esquece dos seus princípios, né, isso te dá força e te dá garra pra que você corra atrás. Você pede as contas e vai arrumar um outro emprego. Você vai atrás de uma outra coisa, entendeu. E, dentro dum coletivo, a parte boa, assim, do coletivo que eu faço parte e dos outros que eu conheço, que eu também ajudo, auxilio e até faço parte ali também, acabo até fazendo parte, é um não soltar, ninguém solta da mão de ninguém, né. Ninguém solta da mão de ninguém. É o companheirismo. É você orientar as pessoas também dessa forma, né. E muita coisa acontece. É justamente isso. É você encorajar o outro, né, a não deixar alguém calar ele, né. E ele lutar por aquilo que ele acredita, porque juntos somos mais fortes. Isso é inevitável, né. Então, eu acredito que é esse companheirismo. O companheirismo é algo que faz a diferença, né, numa situação como essa. E o cooperativismo também, né. Então, se não tá dando aqui pra mim, vamo ali procurar uma outra saída. E sempre haverá uma outra saída.

MÁRCIO TÚLIO VIANA: É melhor ser cooperado do que empregado e, se for, por quê?

Eu acredito que sim, né, porque, dentro de uma cooperativa, as coisas são bem diferente do que você ser apenas um empregado. O empregado, ele só vai cumprir ordens, né, ali. Ele não opina em nada. Ele não palpita em nada. Ele só faz o que mandam. Pra muitas pessoas, isso vem da, isso a gente só consegue mudar com a educação e a conscientização das pessoas, né. Então, por que não querem que ninguém vá pra faculdade? Porque é muito mais difícil. Com muita luta, tão conseguindo todas essas coisas. Porque a pessoa, tendo essa instrução, ela vai enxergar que, muitas vezes, é melhor ela ser um cooperado do que um empregado, né.

“Porque você, dentro de uma cooperativa, você tem tudo isso. Você tem o companheirismo. A sua voz, né, ela vai ser ouvida, né. Não vão te calar. Você apenas, se você não concorda com alguma coisa, você vai poder expor o seu ponto ali. Existem assembleias, aonde existe votação. Então, eu acredito que é bem melhor ser um cooperado do que um empregado.”   

PEDRO CUNCA BOCAYUVA: Como você vê os muros, as divisões, os diferentes lugares na cidade e a questão racial marcando sua atividade?

Então, esse muros, eles, né, eles existem. Invisivelmente, mas eles existem. É, existe muito preconceito. É um preconceito enrustido. É um preconceito, às vezes, que a gente pode, sei lá, de repente, dizer como invisível pra muitas pessoas, mas, pra quem tá ali trabalhando e está vendo, existe muito, sabe. E esse preconceito, ele não é só racial, ele é social também, tá. Ele é social também. Acredito que muitos que estavam acostumado, até mesmo com, que trabalhava numa empresa, às vezes, ali tinha que ir vestido social, coisas desse tipo. Foram pra rua ter que trabalhar como entregador e começaram a ver e, de repente, sentir, na pele, o que a gente passa, né. Porque somos visto totalmente diferente. Você chega num restaurante, dependendo do restaurante que você chegar, você não consegue colocar o pé pra dentro da porta do restaurante. Alguém já vem correndo pra te atender lá fora, né, pra ter essa distância, tudo. Só que, assim, esse próprio restaurante, ele não faz um espaço adequado, separado com uma placa: “Entregador, aqui é o local onde você aguarda. Tem lá um banquinho. Quer tomar uma água?” Não tem nada disso, né. Você pode ter. É, o entregador tá na rua, às vezes, é dia de chuva, você tá todo molhado. É lógico, você vai entrar dentro de um restaurante, onde está todo mundo comendo? É legal? Tá, tudo bem, não é legal. Mas aí você tem um outro local, que você vai receber esse entregador? As empresas, hoje em dia, elas não, elas estão vendo, é restaurante, empresas, todos que trabalham com serviços de entrega, eles esquecem que o serviço deles vai da parte deles ali do começo, onde eles estão anunciando, divulgando, tudo. Vamos supor que é um restaurante. Aí vem o chefe de cozinha, que tem que fazer uma boa comida, toda a preparação, o pessoal que vai fazer a montagem ali, a embalagem, tudo. Mas tem a finalização desse trabalho e isso chega neles, sabe. E as pessoas começaram a perder o foco disso, porque esse trabalho, ele tem que ser do começo ao fim. Se você não trata bem um entregador, quando você vai entregar um prato, que é pra levar pra um cliente seu, porque o cliente não é do entregador, o cliente é seu, né, esses entregadores, eles deveriam ser tratados como companheiros ali mesmo, né, que tá auxiliando no próprio trabalho do dono da empresa. Não como um mero entregador, que tá indo lá entregar. Faz parte, ele faz parte sim daquele trâmite todo. Se o entregador vai até o seu restaurante, retira seu pedido e leva até o seu cliente, o feedback que ele vai ter do seu restaurante vai ser da entrega. Nessa entrega, ele pode muito bem, né, ter uma outra visão do seu restaurante. Mas um entregador que não tem respaldo nenhum, não tem ajuda nenhuma, não recebe um copo de água, quando chega dentro de um restaurante, sabe, não é reconhecido, fica horas ali, na porta do restaurante, esperando o pedido, esse entregador, você acha que ele vai com um sorriso de orelha a orelha fazer a entrega do seu pedido? Claro que não, né. Só que ele faz parte de todo o serviço, desde um restaurante, quanto num shopping, uma loja de doce, uma loja de roupa. Todo entregador, ele é parte daquilo que você está trabalhando, que você está vendendo pro seu cliente, porque é ele que vai entregar. Se não tiver ele pra entregar, você vendeu. Só que foi até a parte de finalizar a venda. E aí, quem vai entregar? Você não precisa dele? Ele só não tá ali fixo com você, porque você não contratou ele pra trabalhar com você. É, por isso, que os entregadores, eles precisam sim ser reconhecidos totalmente diferente da forma que é hoje.

RICARDO FESTI: Quais são os desafios para efetivar a articulação de uma luta unificada entre os trabalhadores de plataformas digitais (entregadores, motoristas de aplicativos etc.)?

Eu acho que a maior dificuldade é em relação ao que você quer reivindicar, né. O que você, você quer brigar por o quê? O que que você quer? Você quer ir lá pra rua, é, protestar, mas o que é que você tá querendo? Eu acho que a maior dificuldade é essa, né. Porque, você vê aí, vai ter uma greve agora[5], onde os entregadores, eles querem o aumento da taxa de entrega. Tá, legal. Você quer só um aumento da taxa de entrega? É só isso o que você precisa? Você precisa somente do aumento da taxa de entrega? Você não precisa de um respaldo, se você sofreu um acidente? Você não precisa, de repente, de um local, é, adequado pra você descansar enquanto você tá trabalhando? Um local pra carregar seu celular, pra tomar uma água, que seja? Você não precisa de mais nada? Você não precisa, de repente, é, ter a segurança ali com você, que você pode tirar trinta dias de férias, que tá tranquilo? Depois, quando você voltar, e aí tira suas férias e vai viajar, você não precisa de nada disso? Então, assim, eu acho que a maior dificuldade é essa. Porque existem, é igual todos, eu acho que, eu acredito que a maioria das militâncias que focam, brigam ali, lutam pela mesma causa, né, se se unissem, seriam mais fortes. Só que, ao invés de eles se unirem, eles querem brigar entre eles. E eu acho que seria, assim: olha, os entregadores da Uber, eles querem aumento da taxa. Os entregadores ali de um outro movimento que seja, eles querem também. Eles apoiam o aumento da taxa, mas eles querem também alimentação. Aí, um outro, eles também apoiam a alimentação e apoiam também aquela causa do aumento de taxa, mas eles também brigam ali pra que você tenha um local adequado pra você descansar. E assim por diante. Então, a maior dificuldade é justamente essa, porque, se eu falo que eu quero alimentação, o outro ali vai dizer pra mim: “Por que você quer alimentação? Você tá passando fome? A gente quer só que aumente as taxas.” Pô, tudo bem, eu também quero que aumente as taxas, mas eu vejo que passar o dia inteiro na rua, carregando comida dos outros, sentindo fome, é ruim. Isso também é ruim. Então, vamo brigar junto pelo aumento da taxa e pela alimentação? Aí, vem o outro dizendo: “Não. Vocês estão falando de aumento de taxa e de alimentação, mas eu quero saber de um local que eu possa carregar o meu celular, né, que eu possa descansar ou que seja tomar uma água e ir no banheiro.” Sabe? E fazer essa união. Eu acho que a maior dificuldade é essa. É muito difícil colocar isso na cabeça das pessoas, né, porque cada um se fecha no seu mundo e vai brigar por aquilo que quer. E se unisse tudo isso? Como seria? Seria muito melhor, né. Então, ao invés de olhar pro outro, tipo, achar que não, você está brigando, porque você quer comida, e não, então, você não vai andar comigo, eu vou fazer uma paralisação, mas aí você tá fora da paralisação. A gente não quer vocês aqui. Vocês brigam por comida. A gente só quer aumento de taxa. E a gente tentar explicar: “Gente, a gente quer o aumento da taxa sim, mas a gente não acha legal você trabalhar o dia inteiro, carregando comida pros outros, e você não e está com fome, sabe. Não ter, de repente, um restaurante que te venda. Os entregadores aqui compram marmita por cinco reais, sabe. Não ter esse auxílio. Ou, durante o dia, uma das entregas é sua, de alimentação, sabe.” Esse tipo de coisa, eu acho que é a maior dificuldade.

SIMONE OLIVEIRA: Como se dão as relações de gênero no trabalho por aplicativo no que tange à adesão e admissão à plataforma, relação com os clientes, cooperação, segurança e exposição à violência e assédios?

Olha, vou falar por mim. Eu mulher. É, em relação à plataforma, é indiferente, se você é homem, se você é mulher, se você é trans, se você é, não interessa o seu gênero. Não vai interessar o seu sexo. A única coisa que interessa, pra você entrar numa plataforma, é se você tem um meio de locomoção. Se tá em dia toda a documentação ou se você tem uma bike pra trabalhar. Eles só querem saber como você vai trabalhar, né. Se for carro ou moto, você precisa da documentação em dia. Se for uma bicicleta, você pode até alugar. Coisas desse tipo. Então, assim, em relação pra trabalhar dentro do aplicativo, não tem, sabe, esse bloqueio disso ou daquilo. Não tem nada disso. Qualquer um entra. Na rua, falando de trabalho, é muito complicado pra mulher, né. Eu acredito que, pra mulher, seja um pouco mais difícil, até mesmo na hora de usar um sanitário, né. Você precisa usar um sanitário, pô, você não pode ir nos lugares. Às vezes, você tem que parar, comprar alguma coisa no lugar, pra você conseguir usar um toalete. Homem vai em qualquer lugar na rua, mesmo que não possa, né. Mas o homem vai em qualquer lugar na rua. Essa é uma das dificuldades. Assédio rola bastante. Então, acredito que hoje tá aumentando bastante a quantidade de mulheres na rua, mas acredito que seja também pela união, né. Eu mesma faço parte de um grupo de WhatsApp, aonde só tem meninas que trabalham com aplicativo de moto na rua, de bike, tudo, mas só meninas. Então, com isso, é uma dando força pra outra ali: “Pô, o cara, parei no farol, o cara me falou uma piada deselegante.” Coisas do tipo. E sempre tem alguém ali, dando um apoio: “Não, mas continua, Não faz isso não.” Então, acredito que seja por isso também que a mulherada tá começando a tomar a rua. É muito complicado você trabalhar com homem, porque os homens te olham de lado, né. Porque, assim, é uma visão que, tipo: “Ah, mulher não sabe pilotar moto.” Nossa, é aquela velha brincadeira: “Tinha que ser mulher!” E hoje a gente vê muita mulher pilotando muito melhor que homem, né. Eu acho que essas é as maiores dificuldades. Mas eu acho que a dificuldade maior, a segurança, a segurança é aquela, a gente sempre com receio. Por quê? Porque ainda olham a mulher como um sexo frágil, né. Então, a gente sabe que, se tem, num local, um homem e uma mulher de moto e vem dois cidadão pra assaltar, a gente sabe que ele vai olhar primeiro para a mulher, né, ao invés de olhar, de repente, pro homem. Então, a gente sabe que a gente corre muito esse risco de tá na rua. Então, eu acho que a maneira é meio que aqueles que dão apoio pra gente, a gente se unir a eles, né, sempre tá ali. Esse é o legal do coletivo das meninas, de se falarem, de tá ali no grupo e uma dando toque pra outra. Ajudou muito, né. Quem teve essa ideia, eu faço parte das “Divas do Toque”, então, a Raquel que teve essa ideia. Então, assim, ajudou muito, né. Acho que todas as meninas que eu vejo, eu fui pra rua quando ainda não tinha muita mulher na rua, então, eu aprendi muita coisa ali na rua. Então, eu fui trabalhar num local que eu achei, que ali só tinha homem. Só tinha eu de mulher nesse local, né. Fui trabalhar com um aplicativo, mas como OL. Então, só tinha eu de mulher. O restante era tudo homem. Então, eu tive que observar muito bem com quem dava pra eu falar, com quem realmente estava me ajudando por, né, tá vendo ali que é uma mulher, quer fortalecer, que queria ser amigo e quem estava tentando chegar próximo, mas pra fazer alguma graça. Então, é muito da gente conseguir enxergar isso, visualizar e conseguir desenrolar isso com categoria, com glamour e continuar.

WILSON RAMOS FILHO: Quais são os impasses que os motoristas e os entregadores de plataformas digitais têm enfrentado durante a pandemia da Covid-19?

Primeiro, é o risco, né. Acho que o maior, assim, é o risco. No começo da pandemia, era uma coisa muito mais chata do que agora, sabe. Você chegava nos locais, assim, eles te olhavam como se você fosse bicho, tivesse infectado. Era uma coisa horrível no começo da pandemia. Logo no começo. E só tinha a gente na rua, né. Só tinha a gente. Então, eu, pra eu não me sentir muito mal com essa situação, já sabendo de todos os cuidados que eu tinha que tomar, então, eu mesmo, na minha moto, pendurei um negocinho de álcool. Aí eu esperava o cliente descer. Quando o cliente estava ali perto de mim, eu espirrava o álcool na minha mão e desinfectava a minha mão. Espirrava álcool na bag. Aí eu abria a bag. Tudo pra ser uma coisa mais confortável, até mesmo pra mim, né. Porque, mesmo eu fazendo isso, só que o cliente que não tá vendo, era uma coisa muito desconfortável, pra mim, essa parte, porque as pessoas vinham pegar as coisas assim com a gente muito estranhamente, sabe. Parecia que tava com nojo. Era umas coisas muito louca assim. Pelo menos, eu passei por umas coisas muito louca. E acredito que é isso, porque a gente ainda encontra pessoas que não tão nem aí, né. Por mais que eu me cuide, é igual quem trabalha com aplicativo de carro. Quantos já não tiveram problemas de entrar alguém dentro do carro e não querer colocar uma máscara, né. Então, eu acho que, nessa parte assim da pandemia, acho que o que pegou mais foi isso mesmo. E a quantidade de pessoas, porque, como aumentou a quantidade de pessoas na rua, aumentou tudo, né. Aumentou tudo. A única coisa que diminuiu foi a quantidade de entregas e os valores a serem pagos, né, que a gente recebia. Então, a quantidade de entregas que a gente fazia, trabalhava, é, vou colocar, dar um exemplo assim pra você, que é mais ou menos verdade. Até meio-dia, na minha tela lá, eu tinha cem, cento e vinte reais. Então, se eu trabalhasse até a noite, eu dobrava esse valor. Aí, depois com isso tudo, quase já teve dia de eu sair da minha casa, pra fazer um aplicativo, saí nove horas da manhã da minha casa, quando é quatro e meia da tarde, eu ter trinta reais na minha tela. Então, isso era meio desesperador assim, que você falava: “Cara, o que que eu vou fazer?” Mas eu acho que a maior parte, assim, em questão de acidente, né, começou a sair muita gente na rua, sem experiência nenhuma de andar na rua. Porque você sair pra fazer entrega não é igual você ir pro seu trabalho de moto e voltar. Você ir pro seu trabalho de carro, pegar seu carro só pra ir passear. É muito diferente, sabe. Então, a gente viu que, na rua, aumentou a quantidade de CET. Agora tem carro com câmera até no alto. Então, é uma loucura, né. Mas é um meio deles recuperarem tudo aquilo que eles disseram que deram pro povo, né.

CONSIDERAÇÕES FINAIS DE JULIANA IEMANJARA: Olha, o que eu queria dizer é justamente que as pessoas precisam dessa conscientização, sabe. E essa conscientização, ela tem que ser feita de uma forma diferente, porque eu não consigo ir na periferia trazer esse pessoal pra junto do meu pessoal, do meu coletivo, se eu falar com palavras acadêmicas, né. Essa galera, elas não vão me entender, eles não vão me entender. Então, o movimento que eu faço parte hoje, o que a gente tenta ali articular é justamente isso, né. Gente, a gente precisa conscientizar essas pessoas. Mostrar o valor que elas têm e trazer elas pra essa luta, né, pra que elas não sejam ali uma pessoa aérea de nada. Vamos fazer, sim, a política de rua, né. Porque isso é necessário, a gente fazer essa política de rua, sim, mas levar essa conscientização e tomar cuidado justamente, quando a gente vai levar essa conscientização, porque não adianta você subir no palanque aqui, na Paulista, aonde tem vários formados, várias pessoas intelectuais e falar ali. E esse mesmo linguajar, você levar pra comunidade. A galera não vai entender. E a maior parte desses trabalhadores, eles vêm da periferia, tá. A maior parte desses trabalhadores, eles vem da periferia. Então, a gente precisa, sim, levar essa conscientização pra eles, mas saber como falar, saber como levar. Não adianta eu levar palavras acadêmicas, que eles não vão me entender. Eu preciso falar, sim, a língua deles.


[1] BUTLER, Judith. Corpos em aliança e a política das ruas: notas para uma teoria performativa de assembleia. 1ª ed. RJ: Civilização Brasileira, 2018, p. 14.

[2] Ibidem, p. 62.

[3] Ibidem, p. 42.                                               

[4] BARBOSA, Daniele. A precariedade politicamente induzida e o empreendedor de si mesmo no caso uber: Sob uma perspectiva de diálogo entre Butler, Dardot e Laval. RJ: Lumen Juris, 2020.

[5] Entrevista concedida em 10/09/21.

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