Tragédia Brasil e as cadelas do ódio em pleno cio, por Alexandre Filordi e Ellen Lima Souza

O bolsonarismo lançou bases para uma tragédia encenada: a vontade do poder pelo poder. Agora, não se sabe o que fazer com as cadelas do ódio em pleno cio, que ele mesmo pariu.

(Imagem cedida por Camilo Riani - https://www.instagram.com/camilo.riani/)

Tragédia Brasil e as cadelas do ódio em pleno cio

por Alexandre Filordi e Ellen Lima Souza

Shakespeare nos ensina com Macbeth que traição, violência e assassínio podem se transformar em faces sedutoras para quem corteja o poder pelo poder. Mas como em toda tragédia, as curvas mal calculadas da história também fazem capotar pretensões mascaradas.

O bolsonarismo lançou bases para uma tragédia encenada: a vontade do poder pelo poder. Agora, não se sabe o que fazer com as cadelas do ódio em pleno cio, que ele mesmo pariu. Da banalidade de tantos “mortos [que] são só quadros” – valendo-nos do bom conselho de Lady Macbeth para aplacar o receio de Macbeth em ter de matar ainda mais para manter-se como soberano – à violência instituída no cotidiano, vivemos terrores dignos de uma distopia ultrajante, imoral e nauseabunda.

Quando em 2021, no Brasil distante em 521 anos de sua invenção como colônia; 133 anos após a Lei Áurea;  132 anos da Proclamação da República, testemunhamos um quilombola, em situação de rua, ser amarrado como porco para o sacrifício, açoitado como africano escravizado para cumprir sina de sujeição, destituído de sua condição humana pela violência – arrastado pelo chão e supliciado com pisões nas costas – por um seguidor de “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”, damo-nos conta da bestialidade que saiu da garrafa do gênio do mal e que não encontra mais o seu caminho de volta.

A bestialidade saiu aos poucos, com risos  estridentes e imbecilizados de um público memeficado, quando em abril de 2017 Bolsonaro afirmou, sem nenhuma fonte ou base factual, exceto seu o próprio racismo: “Fui num quilombo. O afrodescendente mais leve lá pesava sete arrobas. Não fazem nada! Eu acho que nem para procriador ele serve mais. Mais de R$ 1 bilhão por ano é gastado com eles”. O cenário era o Clube Hebraica, no Rio de Janeiro, que deveria fazer esvaziar imediatamente o auditório por aqueles que haveriam de saber, pela epiderme da história, o que estava embutido naquela fala.

Após essa cena execrável, em outubro de 2017, em uma decisão de primeira instância da Justiça Federal, houve condenação. Uma indenização de R$ 50 mil foi estipulada para as comunidades quilombolas. Contudo, em junho de 2019, após recursos processuais, Bolsonaro foi inocentado. Fato não despercebido: a defesa alegou “bom humor” e imunidade parlamentar.  

Se Proust estava certo ao dizer que “o hábito é a segunda pele”, o que esperar de um séquito aderente a uma figura que expira intolerância; profana a democracia e seus ritos civilizatório; incensa o chumbo e a pólvora; acalenta o poder reacionário; macula poderes constituintes independentes e queima qualquer madeira para extrair o fogo da manutenção de seu próprio poder? Não se pode esperar nada além desse horizonte daqueles que, por adesão habitual, fazem do pertencimento a tal poder pele sensível apenas aos mesmos valores propalados e ao mesmo quadro de vida por aí instituído.

Assim, o país também se habituou a associar a democracia com um Deus concebido por porta-vozes facciosos, intolerantes com os não aderentes ao chamado de seus serviços e ritos, contrafeitos às fragilidades e às singularidades humanas. Aqui, Deus ganhou outra definição: “Deus é ódio”, no lugar de “Deus é amor”. Rir da subalternização e da racialização dos outros, desde o acontecimento no Clube Hebraica, foi um passo importante para a fetichização da bestialidade política.

Arendt, ao afirmar que “a bestialidade sempre esteve inerente na eugenia”, legou-nos um importante instrumento analítico para fazermos funcionar um tipo de sismógrafo capaz de identificar a falência da política como esteio de convívio com as diferenças humanas.

A execração dos povos negros no Brasil, assim como a dos povos indígenas e de toda e qualquer minoria, sempre flertou com a eugenia. Todavia, quando vemos políticos brasileiros ladeados por figuras nazistas, atestamos a latência da bestialidade excitada, sempre buscando ocasiões para se manifestar de modo concreto. O quilombola atacado é mera consumação da bestialidade política na qual estamos atravessando, forjando rubricas nas notas promissórias da violência que não ousa conhecer limites e não se cora de vergonha.

Mesmo tendo sido o último país a “abolir” a escravidão, implementado políticas higienistas que ainda seguem em curso, sobretudo no imaginário brasileiro, continuamos a ser o segundo país do globo com o maior número absoluto de negros/as em sua população: cerca de 56%. No entanto, os corpos negros ainda a são considerados territórios destinados ao fracasso, à injustiça social, à perseguição, à vexação, à violência de toda ordem e à execução sumária.

Aqueles que não pariram esta pátria com sangue e suor, a não ser explorando-os, insistem em colocá-la acima de tudo, subscrevendo para ela um “Deus acima de todos”, porém, legitimando o extermínio em pleno século XXI. A pátria que nos pariu é mãe, é a mãe África. Ela ressoa em nossos corpos, ainda aprisionados e violados. Esta África-mulher, humana, corajosa, respeitosa com seus ancestrais, sábia e presente, liga-nos ao continente da dignidade e expõe a mediocridade de seus algozes. Ainda que o bolsonarista esteja em pé, pisando em um corpo quilombola, o umbigo na terra da vítima nos permite perceber o cordão umbilical conectado com a África: sabemos de onde o quilombola veio e por que veio.

Estamos longe de ver a obra-prima desta atroz política. Mas a cada dia vislumbramos o terror dissipado de um chamamento político que não farta de se repor: é preciso odiar os inimigos constituídos, violentá-los e, por que não, eliminá-los. Enquanto isso, passou a ser um luxo respeitar a condição humana dotada de direitos sagrados de modo inalienável; a paz vai se reduzindo a letras covardes, pois o forte e o corajoso querem é guerra; o comissionamento das barbaridades transformou-se em um retrato autorizado da carteira de identidade dos brutos; o sangue, líquido mais barato que a gasolina; o futuro, um passado que precisa ser reescrito.

“Horror, horror, horror!”, anunciava alguém vendo as atrocidades de Macbeth, alucinado no poder.  Os termos nos caem bem; mas não a tragédia pela qual vivemos.  

Alexandre Filordi (UFLA/UNIFESP/CNPq)

Ellen Lima Souza (UNIFESP/LAROYÊ)

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