21 de maio de 2026

O SNI e Carlos Lacerda, por Luís Nassif

Segundo Bartolomeu, o SNI usou o grampo como chantagem para reduzir as críticas de Lacerda ao regime militar.
Carlos Lacerda

A reabertura das investigações sobre a morte de Juscelino Kubitschek é uma boa oportunidade para investigar outras mortes suspeitas do período, como a de Carlos Lacerda. Em curto período de tempo ocorreram quatro mortes suspeitas: 

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Juscelino Kubitschek – 22 de agosto de 1976 (acidente de carro, suspeitas de atentado)

João Goulart – 6 de dezembro de 1976 (infarto, suspeita de envenenamento)

Carlos Lacerda – 21 de maio de 1977 (infecção generalizada, suspeitas de envenenamento)

Zuzu Angel – 14 de abril de 1976 (acidente de carro, suspeita de assassinato)

Uma boa história a ser apurada me foi relatada por Bartolomeu Santos em fins dos anos 80.

Na época, eu estava enfrentando Saulo Ramos, Consultor Geral da República e, depois, Ministro da Justiça de Sarney. Denunciei manobras dele e enfrentei um julgamento pesado, inclusive uma negociação entre ele e Otávio Frias que custou meu contrato na Folha.

Na época, Luiz Gonzaga Belluzzo sugeriu uma conversa com o advogado Eros Grau – mais tarde nomeado Ministro do Supremo Tribunal Federal. Eros me disse que os lobistas paulistas – como Saulo – eram toscos. Se quisesse conhecer o submundo sofisticado da política, que procurasse Bartolomeu Santos, que conhecia tudo sobre o lobista dos lobistas: Jorge Serpa.

Bartolomeu era um senhor já de idade, que atravessara todas as fases políticas. Foi chefe de gabinete do governador Agamenon Magalhães, depois, já no Rio, foi da turma de Negrão de Lima. Mais importante: foi o homem que aproximou Serpa do SNI (Servço Nacional de Investigações).

Serpa foi preso, depois de um escândalo com debêntures da Mannesman. Bartolomeu convenceu o SNI de que ele seria um bom informante, já que sabia tudo sobre o alto mundo carioca e brasileiro – convivia com Roberto Marinho, de quem era conselheiro, até Walther Moreira Salles.

A partir daí, Serpa tornou-se uma espécie de radar do SNI para o alto mundo carioca, além de redator dos melhores discursos de Garrastazu Médici. Bartolomeu endeusava tanto o talento de Serpa que o colocava como homem capaz de montar altas operações financeiras internacionais. Depois, quando passei a conviver com Walther Moreira Salles, vi que não era nada disso. Monoglota, tendo pavor de avião, o que encantava Serpa eram as jogadas do poder.

Foi nessas conversas com Bartolomeu me falou da armação do SNI sobre Lacerda. Este era um fauno, um verdadeiro Marlon Brando da política, capaz de cativar Shirley MacLaine mas reservar sua energia também para homens.

Sabendo isso, o SNI infiltrou um agente bonitão como jardineiro em seu sítio, na serra fluminense. O jardineiro recebeu uma cantada de Lacerda, que foi devidamente grampeada pelo SNI. Na época, o SNI já possuía equipamentos sofisticados de gravação. E o grande divulgador dos grampos era o jornalista Elio Gaspari, na Veja.

Foi através de Gaspari, que o SNI divulgou os encontros de Fernando Lyra com a esposa de um senador de oposição.

Segundo Bartolomeu, o SNI usou o grampo como chantagem para reduzir as críticas de Lacerda ao regime militar. Mas o episódio mostra a facilidade de infiltração do SNI nas casas dos políticos de oposição.

Mais que nunca, Elio Gaspari precisa disponibilizar para pesquisadores seus arquivos da ditadura. Não os arquivos pessoais, mas os acervos de Golbery e de Ernesto Geisel. Trata-se de um caso clássico de direito à memória.

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Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.
luis.nassif@gmail.com

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4 Comentários
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  1. José de Almeida Bispo

    14 de fevereiro de 2025 2:07 pm

    Antes que…

  2. Cidadão sem cidadania

    14 de fevereiro de 2025 4:27 pm

    O interessante disso tudo é, quem foi contra foi assassinato ou chantagiado, quem era obra do sni, ficou tranquilo e até virou presidente, pode falar que o comando militar é entreguista e o é, mas sabem fazer uma guerra psicólogo, que até hoje deixa nosso país em estado sem ação, ou seja o povo fica brigando entre eles e essa classe dominante, fica sempre com a bonança. Salários altos, aposentadoria total, pensão vitalício para filhas, clubes exclusivos só para eles, é etc etc.

  3. Paulo Dantas

    15 de fevereiro de 2025 12:20 pm

    https://youtu.be/8b0VEkb7HtY?si=91Cb6ZR_oX7SI2Gy

    O cara um conservador clássico criticou pelo atalho do golpe.

    Tidavia só achei esta faceta do Lacerda aqui, alguna outra fonte ?

  4. Rafal

    15 de fevereiro de 2025 8:33 pm

    Conservador sendo conservador, mas a esquerda deveria usar essa mesma infiltração nas ordes fascistas e detoná-los por dentro.

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