5 de junho de 2026

A missão da Embrapa na África

Sem representação continental desde 2011, Embrapa deve focar no leste da África, diz ex-coordenador

Por Bruno de Pierro, no Brasilianas.org
Da Agência Dinheiro Vivo

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Desde que o engenheiro agronômo Leovegildo Lopes de Matos retornou de Gana, no ano passado, sua posição sobre o continente africano tem sido no sentido de aproximá-lo ainda mais do Brasil. A missão deve consolidar o principal alicerce que sustenta essa relação desde 2006, ano em que a Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária) instalou seu escritório naquele país: o know-how do Brasil na agropecuária. Leovegildo fala com propriedade. Até um mês atrás o mineiro era responsável pela coordenação desta base da Embrapa na África, cargo que ocupava desde o início de 2010.

De volta ao trabalho no Centro Nacional de Pesquisa de Gado de Leite, em Minas Gerais, Leovegildo falou ao Brasilianas.org sobre a experiência enquanto comandava a Embrapa-África os desafios das cooperações técnicas, em parceria com a Agência Brasileira de Cooperação, e os próximos escritórios que devem ser abertos em breve.

O engenheiro também falou sobre os reais objetivos da cana-de-açúcar no continente. “A partir do momento que nós tivermos etanol no mercado internacional, como uma commodity, o Brasil pode participar de um mercado internacional, normatizado, com padrões”.

Leovegildo explicou também os motivos da mudança da Embrapa-África para Embrapa-Gana. Desde o ano passado, a empresa não possui mais representação continental. “Não caberia à Embrapa mudar isto, apenas ao governo federal, pois é um programa de governo, e não uma iniciativa isolada da Embrapa”. Confira.

Brasilianas.org – Conte como foi a implantação do escritório da Embrapa na África.

Leovegildo Lopes – Tudo começou com o presidente Lula, que prometeu estender até a África a experiência brasileira na nossa revolução agrícola. Uma comissão do governo viajou pela África e selecionou quatro capitais. A opção final foi por Acra, capital de Gana, pelas facilidades que o governo de lá ofereceu. Devido ao estatus diplomático do Brasil, reformaram um prédio todo para nós, dentro do Conselho de Pesquisa de Gana. Outro fator foi o histórico de segurança e estabilidade política do país. O escritório foi estabelecido em 2006 e eu assumi a coordenação no início de 2010.

Qual era o objetivo nessa primeira fase?

Inicialmente, o escritório era para coordenar trabalhos em todo o continente. Todos os países [africanos] que demonstravam interesse de ter algum tipo de intercâmbio na área de segurança alimentar e agroenergia com o Brasil, recebiam equipe da Embrapa, que verificava as possibilidades, elencavam as prioridades na área agrícola e propunham alguns projetos a serem implementados nesses países, todos financiados integralmente pela ABC (Agência Brasileira de Cooperação).

Qual o diferencial da cooperação brasileira?

Ela é diferente de tudo com o que os africanos estão acostumados. Não envolve transferência de recursos, e para alguns países isso é uma coisa estranha, pois eles estão acostumados a receber repasses financeiros.

Então o Brasil, nessas cooperações, não oferecia recursos?

Não, mas sim know-how, conhecimento e treinamento. O forte nosso é capacitação, tanto trazendo africanos para o Brasil, quanto levando técnicos da Embrapa. E treinar em todos os níveis que você possa imaginar, desde a parte teórica até a questão de trazer esses indivíduos para dentro do laboratório, para participar de experiências junto conosco. Depois que esse pessoal retorna, tem a possibilidade de se juntarem a outro time brasileiro e expandir o treinamento para vários técnicos daquele determinado país. Mas isso evoluiu ao ponto de hoje termos, por exemplo em Moçambique, um trabalho que é financiado pelo governo japonês. Nós tivemos, no passado, há 35 anos, o Pró-Cerrado, que era totalmente financiado pelo Japão e, com a tecnologia da Embrapa, nós implementamos esses polos de desenvolvimento no cerrado brasileiro.

Neste caso de Moçambique, é o projeto Norte-Sul-Sul, sendo o Norte representado pelo Japão, que entra com recursos financeiro. É também para desenvolver a área de cerrado localizado na região norte daquele país. E nós temos outra iniciativa em Moçambique, que foi uma promessa da Hillary Clinton, quando esteve no Brasil há alguns anos. Ela prometeu que o governo dos Estados Unidos iria tentar fazer a mesma coisa que está fazendo o governo japonês. Moçambique estava querendo reestruturar e fazer renascer seu Instituto de Pesquisa de Moçambique (IPAM); então, a Hillary garantiu recursos para reerguê-lo. E a Embrapa entra com a assessoria, para refazer tudo, começar do zero esse instituto de pesquisa.

Além de Moçambique, qual outro país deve receber o mesmo tipo de ajuda?

Estamos pensando em fazer a mesma coisa com Angola. Mas Angola, na realidade, nem precisa de recurso externo, porque eles tem muitos royalties do petróleo, é um país que hoje consegue investimentos próprios. Agora, essa idéia da Embrapa na África acabou mudando; o escritório que era Embrapa África agora é Embrapa Gana. Foi uma decisão da própria Embrapa, no ano passado (2011).

Qual a principal razão para a mudança?

A principal razão é que a sede [da Embrapa] em Brasília achava que coordenar um continente inteiro era complicado.

E o que muda com essa alteração?

A Embrapa ainda vai ter que lidar com o Itamaraty sobre essa questão, porque, na realidade, a Embrapa África é um projeto de termos de cooperações entre os dois governos, ou seja, era para ser Embrapa África em Gana. Portanto, não caberia à Embrapa mudar isto, apenas ao governo federal, pois é um programa de governo, e não uma iniciativa isolada da Embrapa. Então isso ainda vamos ter que resolver.

Isso pode criar problema para o Itamaraty?

Na realidade isso não cria problema. Mas nós ficamos sem uma representação continental na África. Nós agora queremos nos concentrar em Gana, pois como eles foram nossos anfitriões por muito tempo, estava na hora de pagá-los com alguma coisa a mais do que só treinamento.

E o que está previsto nessa retribuição?

Tinhamos pequenos projetos de capacitação com eles, e agora queremos entrar com projetos estruturantes, alguma coisa de maior vulto, também com recursos da Agência Brasileira de Cooperação. Acabamos elegendo um projeto de produção de leite em Gana, apesar de não ser um alimento muito comum no oeste da África, onde não usam muito leite, nem produtos lácteos. Trata-se da possibilidade de utilizar áreas que eles não usam para a agricultura, produzindo um alimento mais nobre, mudando a dieta dos africanos, toda baseada em carboidratos. Os índices de obesidade lá são altíssimos, pois a população africana tem uma fisiologia metabólica diferente de outros povos, eles acumulam muita energia. No passado, evolutivamente, era para acumular para épocas de escassez de alimentos, mas agora a maioria da população tem excesso de carboidratos.

Mas por que a produção de leite onde não se consome o produto?

Porque no leste da África há tribos antigas, os Massais, que são os maiores consumidores de leite do mundo. Para eles não é novidade, mas para o oeste é bem diferente. A partir do momento que eles enxergam que você pode produzir além do alimento básico, que é, principalmente, milho, arroz e mandioca, você pode, nas áreas menos nobres, entrar com a produção animal e produzir um alimento mais importante ainda. Agora eles foram à FAO (Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação) e pediram para priorizar gado leiteiro em Gana. Esse projeto vem a calhar e foi um pouco influência minha, pois sou do setor de gado e leite.

Fora Gana, a Embrapa pretende abrir escritórios em outros países?

Sim, mas uma representação continental não. Tem Senegal, Costa do Marfim, onde há um projeto grande com arroz. Talvez tenhamos um escritório lá. E teremos que pensar também num escritório no leste africano. Há também países que, recentemente, passaram pela redemocratização. O Marrocos, por exemplo, é um país auto-suficiente em alimentos, com universidades, domina tecnologia de produção de grãos, como trigo, centeio e cevada. Quando abrirmos uma representação lá, vamos fazer intercâmbios de tecnologia, pois lá há gente treinada e podem nos ajudar na produção de grãos.

Quais são os grandes projetos hoje no continente?

Hoje temos projetos pequenos, de capacitação, em mais de 30 países [no total, a África tem 54 países]. Pelos projetos estruturantes, o maior deles, e o mais antigo, é o que chamamos de Cotton-4, que atende a parte de algodão de quatro países do oeste da África (Benin, Burkina Faso, Chade e Mali). Esses países, historicamente, naquele embate entre Brasil e Estados Unidos, contra os subsídios do algodão, no mercado internacional, sempre estavam votando a favor do Brasil. Então o ministro Celso Amorim prometeu que, na hora em que nós ganhássemos esse embate contra os subsídios dos EUA – o que aconteceu de fato -, o Brasil os ajudaria.

Qual foi o contexto desse embate entre Brasil e EUA?

[Durou] mais de 10 anos na Organização Mundial de Comércio (OMC), com o Brasil indo contra o subsídio norte-americano com os produtores de algodão. Eles causavam uma queda violenta no preço internacional do algodão e inviabilizava a agricultura desses quatro países. Isso foi para a OMC e o Brasil ganhou, abrindo a possibilidade abrir outras jogadas comerciais com os EUA para não retaliar o algodão. E agora temos esse projeto do algodão, com sede em Mali, com estação experimental, transferência de material genético. Então eles produzem mais algodão, e além dele, milho, arroz, feijão.

Como que a Embrapa trabalha essa questão de inserir culturas que, a princípio, não são próprias de uma determinada região? Isso não implica questão inclusive sociais no local?

Para essa questão nós vamos com muito mais cuidado. Normalmente, a ABC (Agência Brasileira de Cooperação) trabalha sob demanda, nós atendemos a demanda desses governos locais. A única coisa que nós introduzimos, e que não está dentro da cultura agrícola tradicional deles, é cana-de-açúcar, pois queremos desenvolver o etanol como uma commodity energética mundial. Muitos países não tem o hábito de cultivar cana-de-açúcar no nível comercial, e nós tentamos introduzir e trabalhar o material de cana que já temos na região ou levar do Brasil.

Mas além disso, essa questão da cana está relacionada à contrapartida que o Brasil espera ter com esses investimentos na África, que é a expansão agrícola. 

Exato, mas a idéia principal é a seguinte; vou dar um exemplo concreto. A Etiópia importa 100% da gasolina que eles consomem. Há quatro anos, eles acreditaram na possibilidade de trabalhar com a cana-de-açúcar e com o etanol, para colocar como mistura na própria gasolina. Na Etiópia foi mais fácil, pois eles já tinham duas grandes usinas de açúcar, e agora já são cinco. E elas se diversificaram: dependendo do mercado, uma porcentagem maior ou menor vai para o açúcar ou para o álcool. Eles passaram, então, a economizar.

Ou seja, a Embrapa identifica esses países que tem demanda de produção de etanol e passa o know-how de produção?

Exatamente. E agora nós nem podemos falar mais que é a Embrapa [que faz essa identificação], porque a Fundação Getúlio Vargas (FGV) manda um time para esses países e eles fazem o primeiro levantamento de viabilidade técnico-econômica. Quando é possível atuarmos junto com a FGV, nós atuamos. Quando não, eles vão primeiro e nós entramos posteriormente. É uma parceria específica para essa questão do etanol, e não só para a África.

São jovens agrônomos e engenheiros florestais, que vão pelo interior dos países, coletando amostras de solo, informações metereológicas, dados econômicos e conversando com as autoridades. Se os governos desses países decidem partir para a segunda etapa, começamos o plantio de cana, planejamento de infraestrutura etc.

Qual o retorno que o Brasil tem deste processo?

A partir do momento que nós tivermos etanol no mercado internacional, como uma commodity, o Brasil pode participar de um mercado internacional, normatizado, com padrões.

Trata-se de preparar futuros concorrentes para que, em seguida, o Brasil possa ser líder de um mercado que reconhece a cana como uma commodity, certo?

Isso mesmo. 

Mas isso não gera um conflito com exportadores brasileiros? Como a Embrapa tem lidado com isso?

Nós tinhamos um debate, no qual vários líderes do agronegócio brasileiro estavam cobrando uma posição da Embrapa, imaginando que ela está na África criando concorrentes ao agronegócio brasileiro. De forma alguma. Se nós conseguirmos fazer a África produzir comida para si própria, significa que ela vai deixar de importar alimentos, passando, assim, a ter reservas para importar a tecnologia brasileira.

E tecnologia eu falo de uma maneira geral: genética, tecnologia agrícola, conhecimento, nossos equipamentos, como maquinários, tratores, implementos agrícolas, plantio direto em solos tropicais – que só nós dominamos. Hoje o Brasil goza desse prestígio da marca Brasil. Em qualquer área agrícola, o pequeno produtor reconhece que o trator fabricado no Brasil dura sete anos a mais do que o mesmo modelo fabricado no Canadá. A nossa chapa de aço usada na construção desses suplementos é muito mais forte do que na Europa e na América do Norte.

E os agricultores brasileiros que exportam para a África?

Mas não exportamos muito para a África. Nosso grande mercado é Europa e China. A África não é um mercado para matéria-prima bruta alimentar. Mas temos aqui no Brasil uma indústria de macarrão que quer se estabelecer lá, uma indústria de biscoitos que também quer ir para lá. E nós queremos garantir que essas indústrias recebam o dinheiro, e não que venham a ouvir que um determinado país, que assinou contrato com elas, daqui a três ou quatro anos não tenha recursos para pagar, porque acabaram gastando com importação de alimentos primários.

A China tem invadido a África com produtos muito baratos. É uma ameaça?

A China não usa diplomacia, não usa elegância, nada. Eles mandam operários para a África e os proíbem de retornar para a China. E na maioria das vezes eles levam até prisioneiros que trocam a sentença de prisão para trabalhar de graça na África. Nós queremos que uma Odebrecht contrate uma estrada ou um aeroporto e receba depois, pois a probabilidade de não pagamento é muito alta. Por isso eles fazem o contrato amarrado com seguros internacionais. Seria muito mais tranquilo para uma empresa menor do Brasil vender, por exemplo, colheitadeira e ter a certeza de que vai receber.

A quantidade de comida importada pela África ainda é muito grande?

Muito grande. Por exemplo, Gana gasta cerca de 800 milhões de dólares anuais com importação de arroz. Com cinco anos de importação de arroz, Gana construiria toda a infraestrutura necessária ao país.

Quais serão os próximos passos da Embrapa na África?

Nós vamos continuar trabalhando com demandas da Agência Brasileira de Cooperação (ABC) e abrindo caminho para um programa que está começando na África agora, o Mais Alimentos África, do Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA) brasileiro. Só Gana receberá 96 milhões de dólares de empréstimo do Brasil. O modelo é o mesmo do programa Mais Alimentos do Brasil, mas agora implantado na África, com algumas benéfices extras. A Abimaq (Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos) é que toca essa proposta adiante; esses países que assinam contrato mandam a demanda, dizendo quantos tratores, colheitadeiras, arados e outros equipamentos precisam.

Só da possibilidade de tecnologia que nós implementamos com a Abimaq já está abrindo portas para todas as empresas brasileiras, principalmente para empresários que, em vez de correr para a Amazônia, e tentar abrir novas fronteiras, podem ir para a África. Os gaúchos, por exemplo, estão indo para a África.

Uma invasão de brasileiros em terras africanas…

Em muitos países da África, você não adquire posse da terra, você adquire direitos temporários (49 anos, 98 anos), e esse pessoal está indo plantar arroz, soja, milho. Mas nós queremos que esses empresários se desloquem para a África para produzir sementes. Um empresário gaúcho que está decidido a ir para o norte do Mato Grosso, em vez de ele amortizar uma boa bolada do recurso dele na aquisição de terras, ele vai para a África, assina um contrato com um chefe tribal e ele tem a terra por 49 ou 98 anos. E vai pagar um aluguel mínimo.

Mas o fato desse gaúcho ir plantar na África não implica no desenvolvimento de pesquisa.

Mas estaria levando a tecnologia que ele já usa no Brasil e divulgando para os vizinhos.

Como o senhor recebe avaliações que consideram essa inserção do Brasil na África uma forma de imperialismo brasileiro, baseado na tecnologia? Essa maneira de conquistar os africanos, mandar agricultores brasileiros para lá e impor cultivos como o da cana pode dar autonomia aos países africanos em relação aos alimentos, mas não os torna dependentes da tecnologia brasileira?

Por sermos também ex-colônia, os africanos enxergam o Brasil como um irmão. Hoje servimos de exemplo na África, e diferente da China, estamos lá oferecendo nossos empréstimos e ganhando prestígio com o que a diplomacia chama de soft power. Estamos ganhando esses países com os benefícios que oferecemos. Lógico que vamos buscar mercado para nossas tecnologias e para nossos equipamentos, mas, por outro lado, o soft power brasileiro é uma situação “ganha-a-ganha”, ou seja, nós ganhamos e os países africanos vão ganhar, porque eles não vão continuar a ser dependentes do Brasil. Eles podem chegar a uma situação de auto-suficiência agrícola e suficiência parcial na questão de biocombustíveis, podendo ser parceiros nossos. A força que o Brasil exerce na África não é de colonizador; nós oferecemos muito mais do que isso.

– Acesse aqui o Portal África, desenvolvido pela Embrapa.

Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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