5 de junho de 2026

A questão da desvalorização cambial controlada

Comentário ao post “Para entender o xadrez da economia

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“A maneira não traumática de resolver a questão é proceder a uma desvalorização cambial controlada do real”

Mas não é assim “sem traumas”. Desvalorização cambial pura e simples, sem mudanças de legislação, só pode ser obtida através de compras de divisas, como fazem a pequena Suíça e a grande China.

Isso traz um conflito redistributivo: os produtores internos de bens transacionáveis se apropriam de renda graças aos melhores preços sem elevação de custos. Se para nações que exportam produtos industrializados isso não é um problema, até aumenta o emprego, para o Brasil, que exporta basicamente alimentos, isso leva a reconcentração de renda, inflação residual e eventual aumento de emprego só lá na frente, quando a indústria se adaptar.

Uma outra consequência é o custo de carregamento das reservas que forem assim formadas. Para a compra de divisas que levarão à desvalorização é necessário emitir títulos que serão remunerados por algo como 7% a.a. Para a conta fechar sem impacto nas contas públicas é necessário que a desvalorização nominal fique nesse mesmo ritmo.

Muito melhor seria tributar a exportação de commodities: forçam desvalorização através dos mercados cambiais (já que sem desvalorização as exportações ficam inviáveis), não se aumentam os preços internos de alimentos e matérias-primas (já que na venda interna não há essa oneração) e ainda há benefícios para as contas públicas. E ainda se evita a “doença holandesa” (o mecanismo que faz com que aíses com vantagens competitivas em alguns produtos fiquem sempre nesse vai-e-vem de oscilações cambiais.)

Esse mecanismo é usado por países tão distintos como Canadá, Austrália, Perú, Chile, Argentina. Ou seja, não tem nada de ideológico nisso.

E só não acontece no Brasil porque o lobby ruralista é forte e aliado à bancada religiosa.

Dá para ver a ligação entre PSC na CDHM e o PIB? 😉

Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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