3 de junho de 2026

Ainda sobre o IPO do Facebubble

Um dos comentários a respeito do meu post sobre o IPO do Facebubble foi uma crítica, dizendo que o mercado de ações é assim mesmo, oscila fortemente, e está em alta hoje e depois pode cair, e que isso é normal.

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Recentemente estive conversando com um amigo, que além de ser formado em economia, é investidor e conhece bastante o mercado e seus problemas. Um dos comentários dele foi de que nas últimas décadas, o valor financeiro das empresas com ações lançadas em bolsa teve uma sobrevalorização de 40% sobre os ativos reais das mesmas empresas.

Para entendermos o que isso significa, vamos fazer um paralelo com a emissão de moedas por um país: o valor da moeda de um país face às outras, pode ser definido como o total de riquezas que o país possui dividido pela quantidade de moeda em circulação. Isso significa que quando o governo emite mais moeda sem ter nenhuma contrapartida, ele na verdade está desvalorizando sua moeda, porém faz isso de forma homogênea para toda a sociedade. Pode parecer justo a princípio, mas sabemos que esse tipo de homogeneidade, tanto na desvalorização quanto nos impostos, não é ideal, pois o impacto dela para a população de baixa renda é muita maior do que para as mais abastadas.

Para entender melhor o paralelo que quero fazer, precisamos entender melhor o que é o capitalismo: ele não é um regime de governo, mas um sistema econômico, que tem como um dos seus principais objetivos a acumulação de riquezas. Um dos pilares do capitalismo é a livre oferta: se você não gosta de um produto, ou acha o preço excessivo, pode comprar de outro fornecedor. Teoricamente isso regularia o mercado, e todos seriam felizes.

Porém o principal problema do capitalismo é que as empresas que possuem mais dinheiro conseguem ser mais competitivas, pois compram em maior quantidade, gastam mais em propaganda e distribuição, e podem exercer margens menores e muitas vezes negativas por um longo período para ganhar mercado (dumping). Com isso, a tendência natural é que as maiores empresas sufoquem as menores, em um processo exponencial, onde quanto maior a empresa, mais capacidade ela tem de sufocar as menores. Esse processo evolui até o ponto em que sobre somente uma, ou um pequeno grupo de empresas. A partir deste ponto, o normal é que ocorram grandes fusões, ou as empresas delimitem o mercado (cartel). Em qualquer dos casos, o principal pilar do capitalismo é desmontado, pois a livre oferta acaba, e você fica na mão de um único fornecedor. Por isso costumo dizer que o capitalismo é autofágico, ou seja, ele consome a sim mesmo.

Para evitar que isso ocorra, é necessária a ação forte dos governos como reguladores do mercado, controlando as empresa e agindo para equilibrar a relação de forças. Porém a supressão desta ação reguladora foi o principal ponto atacado pela teoria neoliberal, que prega a quase supressão dos governos como reguladores do mercado, e a venda das empresas estatais para a iniciativa privada. Com isso, a força de regulação dos governos é anulada e o “mercado” pode atuar da forma que achar conveniente.

A conclusão é que o capitalismo é muito eficiente como regime de acumulação de renda, e foi exatamente isso que vimos nas últimas décadas. Mesmo nos países “desenvolvidos”, onde a grande maioria da população melhorou o seu padrão de vida, essa melhoria foi concentrada nos chamados “um por cento”, que conseguem acumular riquezas muito mais rápido do que a média da população.

Voltando então ao fio da análise, o que aconteceu na verdade com essa sobrevalorização dos ativos das empresas? Seguindo o paralelo do valor das moedas dos países, sempre que o valor virtual das empresas está acima do valor dos ativos, o que está ocorrendo é a pulverização do valor real. Mas se somarmos esse fato à exacerbação da acumulação de renda neoliberal, o resultado é que a pulverização do valor é proporcional, mas a acumulação não, pois é concentrada no poder econômico. Então o que ocorreu nas últimas décadas foi a estória do Robin Hood às avessas, onde se rouba das pobres para doar aos ricos. Só que isso é feito à surdina, disfarçado de “funcionamento normal do mercado”.

Por isso não acho que esse funcionamento seja normal, e acredito que deva existir uma regulação forte nos mercados financeiros, evitando esse tipo de bolha, e garantindo que apesar das oscilações o valor dos bens negociados tenha alguma relação com o valor real dos ativos. Não é uma tarefa fácil, e também não faço a menor ideia de como fazê-la, mas tenho certeza de que como está não dará para continuar. Afinal, não dei nenhuma procuração para que distribuam meus parcos recursos para ninguém.

Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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